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sábado, 27 de novembro de 2010

Dona Doida















Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Adélia Prado

Escritora e poeta brasileira, nasceu em Divinópolis em 1935. Foi professora durante 24 anos e formou-se em Filosofia. O último livro que publicou intitula-se Coração do Dia (Record, 2010).

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Encontro



















Jonathan,
se resolvermos que o céu
é este lugar onde ninguém nos ouve,
quem poderá salvar-nos?
Quanto tempo resistiríamos
sem falar a ninguém deste acontecimento?
Acompanhei com os dedos
o desenho miraculoso do teu lábio,
contornei-lhe as gengivas, bati-lhe no dente escuro
como um cavalo,
um cavalo meu na campina.
Pedi-lhe: faz com tua unha um risco
na minha cara,
o amor da morte instigando-nos
com nunca vista coragem.
Vamos morrer juntos
antes que o corpo alardeie
sua mísera condição.

Agora, Jonathan
neste lugar tão ermo,
neste lugar perfeito.

Adélia Prado, A Faca no Peito, 1988

Escritora brasileira, nascida em 1935 em Divinópolis
- Minas Gerais: «Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis.» (Carlos Drummond de Andrade).