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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pornocine

Ah, deixem-se de abraços e de beijos,
de grandes planos de frentes e traseiros!
Não se lambam sob a luz cruenta
dos projectores.
Poupem-nos a essas cópulas
tecnicolores.
Na posição de «o missionário», denegrida,
ainda se move muita gente, muita vida.
----

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

A gratificação oral, que põe os olhos
do homem iguais aos do carneiro
mal morto,
é barco balanceiro
que encontra, no cinema, alguns escolhos,
por isso não se pisam os canteiros
ao entrar em tal horto.
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

Das cruas sodomias
pé ante pé a câmara se aproxima.
Por ângulos interessantes,
quase se espiritualizam os amantes.
Bertolucci emprega a margarina
no seu escabroso edificante.
Porém, lambe de mais o filme,
lambe de mais a cria,
e é assim - clássico! - que já está na estante...
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

Mais corajoso - e feio - o Pasolini serve-se
do amor com truculência, verve
e poucas ilusões.
Nele, a fornicação é quase sempre assalto
a privilégios.
Talvez por isso não mandem os colégios
ver as suas sessões...
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

De modo que a câmara aguenta
mais depressa a velatura que a franqueza.
Para que Eros durma em nossa casa
É preciso saber abrir-lhe a cama
E pôr-lhe a mesa...
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana,
eroturismo à portuguesa!
---

Alexandre O'Neill,
Anos 70 Poemas Dispersos,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2005

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Fim de semana






Alexandre O'Neill
foto de Jaime
Cortesão Casimiro
in A Phala n.º 88










Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve para esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.

Alexandre O'Neill, Tomai lá do O'Neill,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1986


sábado, 2 de janeiro de 2010

Os domingos de Lisboa




Igreja de
S. Domingos
in
pt.wikipedia.org










Os domingos de Lisboa são domingos
Terríveis de passar - e eu que o diga!
De manhã vais à missa a S. Domingos
E à tarde apanhamos alguns pingos
De chuva ou coçamos a barriga.

As palavras cruzadas, o cinema ou a apa,
E o dia fecha-se com um último arroto.
Mais uma hora ou duas e a noite está
Passada, e agarrada a mim como uma lapa,
Tu levas-me p'ra a cama, onde chego já morto.

E então começam as tuas exigências, as piores!
Quer's por força que eu siga os teus caprichos!
Que diabo! Nem de nós mesmos seremos já senhores?
Estaremos como o ouro nas casas de penhores
Ou no Jardim Zoológico, irracionais, os bichos?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Mas serás tu a minha «querida esposa»,
Aquela que se me ofereceu menina?
Oh! Guarda os teus beijos de aranha venenosa!
Fecha-me esse olho branco que me goza
E deixa-me sonhar como um prédio em ruína!...


Alexandre O´Neill, Tomai lá do O’Neill,
Mem Martins / Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 1986

sábado, 26 de dezembro de 2009

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,

Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Meditação na pastelaria





Foto in
www.zaroio.com.br








Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

*

O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade...
(O escritório
Toma-lhe o tempo todo?
Desconfio que não...)

Filhos tivemos um:
Desapareceu...
E já nem sei chorar!

*

Chorar...
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...

Perdi tudo, quase tudo...

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.


Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca,1958

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Balada da ameixa seca







Foto
A.M.







Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P’ra o intestino a ameixa é levada da breca!

O mal do Ocidente – quem há que não o sinta? –
É não ter a tripa sempre limpa.

Com seus altos valores, o Ocidente
Dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:
Dão melhores guerrilheiros do que nós.

Um saquitel de arroz , uma biciclet’,
Arma na bandoleira – e lá vai o viet.

“Noss’povo”, ao contrário, come o que apanha à mão.
Até parece fome de muita geração!

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.
Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,
“Noss’povo” já nada tem de marinheiro.

Sua tripa, represa, é trabalhosa.
Sua prosápia já só é má prosa.

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas
Manda cortiça, vinho, diplomatas.

Espera contrapartidas: sol-e-vistas
É cartaz que atrai muitos turistas.

Mas com a ameixa seca – coisa pouca! –
É que pode acordar sem amargos de boca.

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P´ra o intestino a ameixa é levada da breca!

Alexandre O'Neill, Tomai lá do O'Neill,
Mem Martins / Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 1986

domingo, 11 de outubro de 2009

Sigamos o cherne












Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.

Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...
Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

Alexandre O'Neill
, Tomai lá do O'Neill,
Mem Martins / Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 1986

___________

Poema escrito "depois de ver o filme O Mundo do Silêncio de Jacques Cousteau"

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pretextos para fugir do real




















A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar

Por isso fecho os olhos

(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)

Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio

Experimento um silêncio

Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

Assobio às pequenas esperanças
Que vêm lamber-me os dedos

Perco-me no teu retrato
Horas seguidas

E ao trote do ciúme deito contas
Deito contas à vida.

Alexandre O’Neill, Tomai lá do O'Neill,
Mem Martins / Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 1986

domingo, 17 de maio de 2009

Guichê / 3


















Dum cutelo-guichê sem higiafone
senti o frio na nuca e, por broma, imaginei-me na nuca de Antonieta
(referência cultural como qualquer outra).
Dar o pescoço e nem por aférese perder a cabeça
não é para todos quando nos burocratas.
Das doze e trinta às catorze e trinta
estive garrotado e encimado por um letreiro: ENCERRADO.
Estiquei a língua para um frasco de cola,
mas só a mosca dos tinteiros nele arriscava duas das patas.
Meditei (que fazer?) a gasta superfície do balcão
e, português derrotado, pensei:
«Onde veio parar a madeira das naus!»
O tempo demorava a passar como aquela estúpida reflexão
e eu, de grossa língua seca, sentia as ardências todas
do nauta que tragou meia barrica de sardinha.
Das mãos fiz passarinhos cegos contra o vidro,
baquetas ruflando a minha impaciência,
aranhas passeando o que me restava de pescoço.
«Vou pôr-me todo nos olhos, que os olhos salvam!»
e pela ponte pênsil dum olhar passei para o relógio,
que adiantei meia discreta hora.
Do mostrador alcancei uma flor num copo.
Com ela devaneei numa lapela imaginária,
mas o passeio não deu para mais nada.
Tocou a campainha e um contínuo entrou.
«Que faz aqui o senhor? O expediente ainda está encerrado!»,
praguejou o contínuo e, dando meia volta,
correu a chamar o general dos contínuos.
Este veio. Passou-me revista. Não se dignou falar-me.
Ainda hoje gostava de saber porquê.
Às catorze e trinta (três pela minha hora)
uma funcionária aproximou-se do guichê,
levantou o cutelo que me sujeitava,
retirou o letreiro e (até amável!) perguntou-me:
"O senhor o que deseja?"
E era, à beira-guichê, como se não tivesse acontecido nada!

Alexandre O’Neill, Tomai lá do O’Neill!,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1986

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Rosa










Rosa
Rosa em verso, rosa em prosa:
Rosa rosa,

Verdadeira, recortada,
sempre votiva é a rosa.
Quem a dá, quem a ostenta,
quem a colhe, quem a inventa,
quem dela – a rosa – se lembra
faz o voto de quebrar
a pessoal solidão.

Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.

Rosa.
Rosa em verso, rosa em prosa:
rosa, rosa.

Rosa nome, rosa coisa,
rosa flor, rosa rosa,
rosa traço de união.

Rosa fugaz, recolhida
noutra rosa já nascida.
De rosa em rosa é a vida.

Ó rosa breve fulgor,
lampejo na escuridão.

Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.

Alexandre O’Neill, Coração Acordeão,
Lisboa, O Independente, 2004

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

À figueira da Quinta de S. Pedro – S. Lourenço, Azeitão – pedindo à sua dona que nunca a deixe morrer




Natureza morta
com figos, de
Luis Eugenio Melendez
(1716-1780)


Foto in
www.ceja.educagri.fr/




Na profusão dos gestos, a presença: a figueira.
Merecia ir à piscina tomar banho, a figueira.
Merecia mais que muita gente,
que, semovente,
passarinheira,
não passa afinal de estar à beira.

Com seus braços,
nadaria, ao mesmo tempo, em todos os sentidos,
seria a presença inteira
(e nunca, meu Deus!, a D. Maria
ou a D. Fernanda Figueira…)

- Generosa figueira,
quando estiveres doente quem te deita?

Alexandre O´Neill, Coração Acordeão, 1973

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti .

Alexandre O'Neill, Tomai lá do O'Neill,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1986

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A noite-viúva

Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa

Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalho
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante

Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia

Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.

Alexandre O'Neill, Tomai lá do O'Neill!,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1986


Em 1962, O'Neill respondeu ao Questionário de Proust, no Jornal de Letras e Artes (17/01). Algumas das perguntas / algumas das respostas:

Qual é para si o cúmulo da miséria moral?
A exploração do homem pelo homem.

Quais as heroínas masi admiradas da vida real?
As mondadeiras.

Que capacidade mais aprecia no homem?
A capacidade de se sacrificar por uma causa justa.

Qual a sua ocupação favorita?
A conversa amena.

Qual a maior das desgraças?
A trabalheira de Sísifo.

Que cor prefere?
O azul marinho.

A flor de que mais gosta?
A rosa.

O pássaro que lhe merece mais simpatia?
O pardal. Mas há um que tem um nome lindo: o abelharuco.

In A Phala n.º 88 - Set 2001
Foto: um abelharuco para O'Neill (da Wikipédia)