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domingo, 21 de junho de 2009

Diário de Bordo








Foto A.M.






Letra a letra,
hora a hora,
linha a linha,
marquei no Diário de Bordo
as fases da viagem.

Dias e dias no embalar das vagas,
sem que um bafo de brisa poluísse
o abandono tentador das velas;
expedições forçadas, abordagens;
fome e sede de carne, nos jejuns
de cem dias de Mar;
velhos contos de bordo, em noites podres,
sem lua e sem estrelas;
o escorbuto na alma, apodrecida
à espera dos combates;
os rateios da presa recolhida
e, ao fim,
a Ilha dos Amores de qualquer porto
onde as mulheres se vendem.

E tudo foi, profundamente,
inútil.

Livro de Bordo de Corsário, deixa
que o tempo apague a tua prosa inútil
e escreve a história imensa
daquela frota em que tu vais partir
- como pobre navio auxiliar -
à demanda e à conquista
do Novo Continente!

Álvaro Feijó, Os Poemas de Álvaro Feijó,
Porto, Brasília Editora, 1978, 3.ª edição

terça-feira, 12 de maio de 2009

Livro de Horas
















No Livro de Horas, que leio,
há a história do meu destino...

...Mistério,
desatino,
choros de fados e saudade inútil,
cenários de luar,
um corpo inexplorado de Mulher-Menina
na quentura da noite,
e tudo o mais que eu não li
porque saltei para o fim.
E no fim outra história continuava,
mas que não era já do meu destino.

Essa era só um minuto
em todo o livro das horas,
Louco, que corri mundo procurando
o meu minuto.

Um só minuto que interessa,
se é o destino de todos que se joga,
se são as horas todas o que interessa?!

Álvaro Feijó, Os Poemas de Álvaro Feijó,
Porto, Brasília Editora, 1978, 3.ª ed. (1941)

Nasceu em 1916 em Viana do Castelo e morreu de tuberculose com 24 anos (1941), tendo publicado em vida apenas um livro de poesia - Corsário. Era sobrinho-neto de António Feijó. Incluído habitualmente na escola neo-realista, é um dos poetas do Novo Cancioneiro.

domingo, 30 de novembro de 2008

Natal

Nasceu.
Foi numa cama de folhelho,
entre lençóis de estopa suja,
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroa de espinhos
mas coroa de baionetas,
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

Álvaro Feijó, “Diário de Bordo”, in Alexandre Pinheiro Torres (prefácio, organização e notas), Novo Cancioneiro, Lisboa, Editorial Caminho, 1989