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sábado, 19 de março de 2016

Madrigal














(Foto ANAAS)





que tirassem a luz da flor da terra
que arrancassem aos céus o Sol e a Lua
que aplanassem a curva a cada serra
os vales fossem coisa morta e nua


que secassem as águas cristalinas
dos mansos rios e dos meigos lagos
que morressem miosótis e boninas
murchassem as carícias e os afagos

que a natureza fosse deusa enferma
mortos os entes pelo globo além
e que a vida ficasse triste e erma
sem oásis sem nada sem ninguém

contanto que ficasse o teu sorriso
inda havia na terra o paraíso

ANTHERO MONTEIRO, Canto de Encantos e Desencantos,
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2005

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Contrastes




















todo este céu que alguns momentos dura
esta infinita eternidade exígua
este sabor que perpassou na língua
o pressentir que todo o mal tem cura

este sorrir que me visita os lábios
que anda comigo à hora imprevisível
porque os meus olhos viram o invisível
e passei a saber mais do que os sábios

e por coisas banais muito pequenas
sinto-me grande às vezes e possante
só por aquele afortunado instante
em que mesmo de longe tu me acenas

não me acena o futuro não sorri
e se sorrio é só porque sou doido
é um infinito inferno este céu todo
e tudo isso vem de ti de ti

vivo assim dentro desta colisão
de forças de gigantes tão adversos
onde morrem e nascem universos
onde é ínfimo e é enorme o coração

Anthero Monteiro

16/06/2010

terça-feira, 28 de abril de 2015

Fidelidade













A peça terminava com um beijo apaixonado
do protagonista e da amante.
Mas como o ator descobriu
a verdadeira mulher entre a assistência
acabou por dar um beijo
na boca de cena.
Anthero Monteiro

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Glicínia
















Foto in
http://plantasdecasa.blogspot.pt/


é um rosto fechado a tua casa
nem os lábios da porta se entreabrem
nem sorriem seus olhos hialinos
por mais que eu use o pó do teu caminho

por mais que eu aprofunde essa vereda

e dela faça o álveo desta mágoa
a tua casa é concha de refúgio
calcificou o caracol da espera

mal deflagrou o pólen nos espaços

emaranhou-se ao muro  uma glicínia
marinhou pelo mês de março fora
e em minha vez foi ver-te na janela

na tua vez floriu em mil sorrisos

e sempre que aí passo lá me acena
a desdobrar-se em ânsias de infinito
línguas de fogo a rescender a azul

queria eternizar a primavera

e ser a tua rua para sempre

Anthero Monteiro

Canto de Encantos e Desencantos


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Um domingo e muitos mais




















será exíguo o fio da minha vida
mas foi urdido com algumas eternidades
foram eternidades os minutos da minha espera
debaixo das palmeiras do adro
naquela tarde de domingo
lembras-te certamente: dois enormes exemplares
emolduravam a igreja da nossa terra
nos primeiros anos da década de sessenta

dali via-se ao longe o oceano e contemplando-o
ensaiava a intimidade com o absoluto
mal chegaste começou a vida do mortal
que assiste à vertigem das horas no relógio da torre
afoguei os meus olhos no mar que trazias nos teus
e deixei-me submergir nos sobressaltos da surpresa
partimos pelas ruas atónitas da aldeia
com as palmeiras a flabelar adeuses
e os pássaros nas tílias interpretando vivaldi

foi o nosso primeiro passeio lado a lado
duas brevíssimas horas daquela semana diferente
porque passou finalmente a haver domingo
enfim reparaste que eu sobraçava um livro
(se me conhecesses bem saberias que o livro era inevitável)
e pudeste ler-lhe o sugestivo título:
davam grandes passeios aos domingos

hoje régio há-de interrogar o seu deus e o seu diabo
para entender como afinal o nosso passeio ainda dura
já lá vão mais de quarenta anos pelas caminhos 
da nossa aldeia com horizontes líquidos ao fundo
arrancaram as palmeiras arrancaram as tílias
mas ninguém conseguiu arrancar o meu olhar do teu

prefiro continuar a ver o atlântico nos teus olhos

Anthero Monteiro,

Sulcos da Memória e do Esquecimento
Porto, Corpos Editora, 2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

noturno














sem tua mão perco-me na noite
estudo quirologia 
na mão da cassiopeia

Anthero Monteiro 
in 501 POETRIX PARA LER ANTES DO AMANHECER
Goulart Gomes (organização)
MIP - Movimento Internacional Poetrix
Bahia / Brasil - 2011

terça-feira, 6 de agosto de 2013

outra insónia












Anthero Monteiro
na FNAC






ah noites lutando com polifemos
longas disputas com gnomos
sobre tudo o que nós fomos
e dissemos

ah noites em que me grito
como este mar sem repouso

nada tenho e não me tens
oiço apenas vagaroso
o carro do infinito
em que vinhas
mas não vens

ANTHERO MONTEIRO
in "Desesperânsia", Porto, Corpos Editora, 2.ª ed., 2009

quarta-feira, 19 de junho de 2013

benilde














foi benilde o seu primeiro grande amor
conheceu-a na festa de agosto
passeou com ela de mãos dadas o olhar obcecado
pela luz que irradiava aquele rosto
mais grácil e doce do que o da santa do andor

fascinava-o mais do que todas as ruas ornamentadas
de chão fragrante das hidrângeas pisadas da procissão
seduzia-o mais que o carrossel e a pista de carros
e refulgia mais que o templo engastado
de mil lâmpadas a realçar-lhe os contornos

viera de longe com os pais andaram juntos
toda aquela tarde de verão para ele um braseiro
sobretudo de deslumbramento até que ela se despediu
até quando com um beijo inocente à hora em que o sol
disse também adeus àquele dia rememorável

prometeu que só adormeceria quando a imagem dela
se desenhasse nos seus olhos íntimos  ela veio
esplendorosa e sem estorvo revisitá-lo para fechar-lhe 
os outros olhos  e inaugurar um sonho diferente

tentou manter bem acordados aquele lume e a febre
daquelas  noites em que buscava e rebuscava
reencontrá-la nos labirintos interiores e trazê-la
bem nítida à tona clara da consciência

ao fim de uma semana perdia-se nessa babilónia
ela escapava-se-lhe jogava às escondidas
escorregava como um peixe que se apanha
recupera a água e regressa ao esconderijo do lodo

as horas escorriam dolorosas  negavam-lhe
o ansiado rosto  apenas entrevia efémeros retalhos
lampejos que eram esgares e mais escárnio
que assentimento mais zombaria que esperança

o assombro imbricou na tortura depois na resignação  
e enfim o olvido  repôs o equilíbrio inicial
aquele estúpido bem-estar de quem já nada anseia

tinham ambos dez anos e ele pediu em casa
que o deixassem ir estudar para padre
já tinha aberto assim o inventário penitencial

com aquela grande e pungente renúncia  

Anthero Monteiro

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ausência















a noite derrapa
as estrelas  perscrutam o drama
são pregos aos mil cravados nos olhos
o vento quebrou como vidro
é agora um montão de destroços num chão de silêncio
o silêncio o silêncio coalhando tudo
calando tudo  até os impiedosos cães vizinhos
e os seus ódios de todas as noites

um navio de gelo rasga o pano do peito
rompe no oceano da alma
abraçado à insónia
bêbeda e devassa

dói
dói
         doidamente

apetece fugir mas para onde
não há nenhum lugar de refúgio para quem ama
a não ser o peito de quem se ama

e é então que a ausência se torna mais presente
ganha corpo de monstro  e crescem-lhe garras

di-la-ce-ran-tes

sitia-me
sitia-me
obsidia-me

ausência  ausência ausência
ausência  
nome de mulher

desapiedada e ausente

Anthero Monteiro

sábado, 4 de maio de 2013

Dança I














Patrícia Portela





Amo-te tanto que me doem mais os pés que o coração.

tropecei  ao correr estrada abaixo, torci o tornozelo direito e feri gravemente o pé do outro lado. Dois dedos estão mortos e três não têm unhas.
Tu não sabes, mas desde então, um dos pés chora ininterruptamente por não ser mão e não te poder escrever pedidos de socorro e cartas de amor.
Pensei seriamente amputar o meu pé esquerdo, mas não consigo imaginar-me a amar-te apenas com o meu lado direito.
Patrícia Portela,
Se não bigo, não digo, Lisboa, Fenda, 1998

Escritora, dramaturga, encenadora, cenógrafa e atriz, entre outras coisas, cria, segundo Maria João Guardão, «mundos paralelos em forma de livros, jardins, tertúlias, performances e peças radiofónicas». Nasceu em Lisboa em 1974, viveu em Macau, estudou em Utrecht e Helsínquia. Mudou-se para Antuérpia, por ter conhecido o músico belga Christoph De Boeck e continua fascinada pela Bélgica. Publicou vários livros, entre os quais: Operação Cardume Rosa, Se não bigo, não digo, Odília ou a história das musas confusas do cérebro de Patrícia Portela, Escudos Humanos, Banquete ou a Trilogia Flatland e recebeu vários prémios relacionados com o teatro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Solidão





















depois de tal loucura esta lonjura
depois da tua língua
a minha míngua

Anthero Monteiro,
in Goulart Gomes (org.), 501 POETTRX para ler antes do amanhecer,
Bahia - Brasil, Livro.com, 2011

Madrigal








Anthero 
Monteiro






perpasso as mãos nos teus cabelos
e sei que acaricio
a madrugada

Anthero Monteiro
in POETRIX ANTOLOGIA, 
Scortecci Editora, Bahia - Brasil, 2002

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Aqui te amo










Foto
A.M.




Aqui te amo.
Nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento.
A lua fosforesce sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Desperta-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.

Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses navios graves
que correm pelo mar aonde nunca chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde.
A minha vida cansa-se inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas a noite aparece e começa a cantar-me.
A lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento
querem cantar o teu nome com as folhas de arame.

Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007
(tradução de Fernando Assis Pacheco)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Não tenhas medo do amor...









Foto A.M.






Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas de cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca

foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no 
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu 
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira,
Poesia Reunida,
Lisboa, Quetzal, 2012

Dose da fatia de um doce





















Dá-me um bocadinho do teu amor     todos os dias
não mo dês todo hoje     que amanhã vou precisar dele outra vez
eu sei     conheço-me bem
e nesse aspecto     sou exactamente como o resto da humanidade
preciso de ser amado todos os dias
só espero não morrer muito velhinho     para que o teu amor me dure até ao fim da vida

João Negreiros
O cheiro da sombra das flores,
Porto, 2009

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Encontro e desencontro













certo dia que lhes pareceu perfeito
ele veio do lado esquerdo
ela apareceu do lado direito

depois desse encontro
levam-se ainda pela mão um ao outro
e nenhum deles suspeita
porque nem temem a mútua perda
que chegará o dia em que ele sairá pela direita
e ela desaparecerá pela esquerda

Anthero Monteiro
15/10/2011

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Visitação












Quando a porta se abriu,
perguntaste quem era.

Não se pergunta ao amor
que nome tem.

Albano Martins,
Escrito a Vermelho, 1999

Teoria do caos
















de repente bateram
a porta rompeu-se e o telhado saltou
de repente esvoaças
e tens muitos pés enrolados nas nuvens
de repente ardem-te na fronte
constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos

muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso que um simples sorriso
do outro lado da mesa
possa causar deste lado

o mais terrível dos cataclismos

Anthero Monteiro, Sete Vezes Sete Nuvens, Porto, Egoiste, 2010constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos

muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos

Anthero Monteiro
constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos

muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos

Anthero Monteiro


sábado, 19 de novembro de 2011

No teu quarto




















com mais ninguém em casa entro nos teus domínios
e levas-me a um lugar de sonho e do teu sono
impera no teu quarto a cama como um trono
e há segredos aos mil em gavetas de escrínios

o sol e outros olhares penetram indiscretos
sorrio com malícia ao correres a cortina
mas vejo na parede a foto da menina
que tiraste uma vez com seis anos completos

e esse olhar virginal que afasta os próprios lobos
retém a minha mão como se houvera um pacto
por isso é que ficou teu leito assim intacto
porque eu manietei todos os meus arroubos

e sentei-me no chão à falta de melhor
encostaste-te a mim suave doce esguia
e ficámos a ouvir a eterna melodia
de um prelúdio de bach em mi bemol maior

estava atrás de ti sem nada de permeio
e um raio de sol curioso quase a pique
viu na minha mão esquerda um poema de rilke
e achou-me a outra mão a soletrar-te o seio.

Anthero Monteiro, Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste, 2010

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Morta




podes vir chamar-me

com a brisa insinuante de um violino

marcar o meu número à hora de cada capricho

acenar-me com açucenas entre os dentes

escolher pedras de algodão

para me atirares à vidraça

subir todos os gólgotas

para te crucificares nos meus braços

reconstituir todas as minhas pegadas no deserto

reencontrar os istmos das minhas mãos

levar-me ao festival das gaivotas

presumir nos perfumes

e em todos os encantamentos

ler os meus versos

como quem se alimenta de rosaas




agora estás morta e bem morta

e nenhum beijo meu te ressuscitará


dias e noites sem conta

estive emparedado num quadrilátero minúsculo

entre desespero e tédio

entre acrimónia e indiferença

a olhar uma galáxia perdida

à espera que me baleassem as estrelas

que a neve fosse piedosa

que alguém me atirasse o primeiro torrão


não fora esta couraça de desprezo

ou de desprezo pelo teu desprezo

há muito a solidão teria estalado

a tábua do meu peito

e esmagado de vez

este relógio avariado

pela ferrugem da espera


Anthero Monteiro,

Desesperânsia, Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2009



(Na foto, Anthero Monteiro por Jorge D'além-mar)