Mostrar mensagens com a etiqueta António Feijó. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Feijó. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Felina


-


-


-


-

-


Foto in
Blog Palavras e Imagens




Galgam os gatos, guturais, gritando,
Nas gotejantes, glácidas goteiras,
As julietas maltesas namorando,
Em mios sensuais pelas trapeiras.

Chora, chapinha, chuviscando a chuva!
No deserto beiral do meu telhado,
Uma cinzenta graziela viúva
Contempla o seu «miau» envenenado...

Há lamentosos, lutulentos lances,
Por sobre a telha de Marselha, oblonga...
Sonhos, idílios, infernais romances,
Cavaleiros de Malta e barba longa!

Dum, conheço uma história muito triste,
Dum que lembrava o D. João doutrora,
Sempre com o bigode e a cauda em riste...
Mas era longo referi-la agora.

Pelos sítios escusos dos telhados
Há gatas sem pudor fazendo vistas,
Traições, banzés, focinhos arranhados,
Baralhas de saloios e fadistas.

Ouvindo-se, entre insónias horrorosas,
Paroquiais, pesados pesadelos,
Guloso, gloso gloriosas glosas,
E faço caracóis com os cabelos!...

António Feijó, Poesias Completas,
Edições Caixotim, Porto, 2004

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Pálida e loira








Foto in
pontedelima.
blogspot.com






Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.

Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...

Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia...

Levou-a a morte em sua garra adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la, nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria.


António Feijó, Líricas e Bucólicas, 1884

Belíssimo soneto de um recorte claramente parnasiano. É tão belamente outonal que, um dia, não resisti a dizê-lo, em voz alta e de cor, para quem passava, junto ao monumento erguido em sua memória (ver foto) em Ponte de Lima, sua terra natal (1859). Haveria de falecer em Estocolmo em 1917.