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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

"Os sinos" de António Nobre

No dia 17 deste mês, Anthero Monteiro e Amílcar Mendes participaram no programa "Nobre Povo" da RTPN, com a leitura dialogada de um poema do , de António Nobre - "Os Sinos".
O respectivo vídeo pode ser visto aqui.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Pobre tísica




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Quando ela passa à minha porta,
Magra, lívida, quase morta,
E vai até à beira-mar,
Lábios brancos, olhos pisados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração põe-se a chorar.

Perpassa leve como a folha,
E, suspirando, às vezes, olha
Para as gaivotas, para o Ar:
E, assim, as suas pupilas negras
Parecem duas toutinegras,
Tentando as asas para voar!

Veste um hábito cor de leite,
Sainha lisa, sem enfeite,
Boina maruja, toda luar:
Por isso, mal na praia alveja,
As mais suspiram com inveja:
«Noiva feliz, que vais casar...»

Triste, acompanha-a um Terra Nova
Que, dentro em pouco, à fria cova
A irá de vez acompanhar...
O chão desnuda com cautela,
Que Boy conhece o estado dela:
Quando ela tosse, põe-se a uivar!

E, assim, sozinha com a aia,
Ao sol, se assenta sobre a praia,
Entre os bebés, que é o seu lugar.
E o Oceano, trémulo avozinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vai ter com ela a conversar.

Falam de sonhos, de anjos, e ele
Fala de amor, fala daquele
Que tanto e tanto a faz penar...
E o coração parte-se todo,
Quando a sorrir, com tão bom modo,
O Mar lhe diz: «Há-de sarar...»

Sarar? Misérrima esperança!
Padres! ungi essa criança,
Podeis sua alma encomendar:
Corpinho de anjo, casto e inerme,
Vai ser amada pelo Verme,
Os bichos vão-na desfrutar.

Sarar? Da cor dos alvos linhos,
Parecem fusos seus dedinhos,
Seu corpo é roca de fiar...
E, ao ouvir-lhe a tosse seca e fina,
Eu julgo ouvir numa oficina
Tábuas do seu caixão pregar!

Sarar? Magrita como o junco,
O seu nariz (que é grego e adunco)
Começa aos poucos de afilar,
Seus olhos lançam ígneas chamas:
Ó pobre mãe, que tanto a amas,
Cautela! O Outono está a chegar...

Leça, 1889
António Nobre, Só
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N. no Porto em 1887 e também ele morreu tísico, na Foz do Douro, aos 32 anos, em 1900.
O foi dos primeiros livros portugueses de poesia que eu terei lido.
Lembro-me que, um dia, teria eu 18 anos, fui de propósito à Biblioteca Municipal do Porto, para o conhecer. Como não havia nenhum exemplar disponível nesse dia, requisitei as Despedidas, do mesmo autor, e li-o de uma assentada. O ficou para outro dia.
Mas acho que o primeiro livro de poesia que li foi em espanhol: Elevación, de Amado Nervo, um poeta mexicano. Aliás, por essa altura, terei devorado também em espanhol, o D. Quixote de Cervantes.
Meu pai foi emigrante na Venezuela e, quando vinha a Potugal, trazia sempre livros em castelhano.
Acho que o primeiro livro que comprei em português, mas de autor espanhol (coincidências...), foi Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, Nobel de 1956. A seguir, poderemos ler um poeta desta poeta andaluz, também sobre o Outono.

domingo, 21 de junho de 2009

Georges! anda ver o meu país de Marinheiros










Foto in
www.povoadevarzim.com.pt






Georges! anda ver o meu país de Marinheiros
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!

Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-o com toda a força,
Clamam todas à uma: «Agôra! agôra! agôra!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!

Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!

Senhora Daguarda!

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!

Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Sêmos probes!

Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos!

Parecem Nossa Senhora, a andar.

Senhora da Luz!

Parece o Farol...

Maim de Jesus!

É tal e qual ela, se lhe dá o Sol!

Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!

Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...

Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matuzinhos!

Os mestres ainda são os mesmos dantes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos!
Martir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!

Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os varões assinalados...»

Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...

Adeus! adeus! adeus!

António Nobre, ,
Porto, Livraria Tavares Martins, 1971

quarta-feira, 18 de março de 2009

Da influência da lua













Foto in
/www.galileo-web.com


Outono. O Sol, qual brigue em chamas, morre
Nos longes da água… Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poesia escorre
E os bardos, a cismar, molham a pena!

Ao longe, os rios de águas prateadas,
Por entre os verdes canaviais, esguios,
São como estradas líquidas, e as estradas,
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos,
O xaile pedem a quem vai passando…
E nos seus leitos nupciais, os ninhos,
As lavandiscas noivas piando, piando!

O orvalho cai do céu, como um unguento.
Abrem as bocas, aparando-o, os goivos;
E a laranjeira, aos repelões do Vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cai… E, à falta de água, rega
O vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o Padre-Oceano, já de longe, prega
O seu Sermão de Lágrimas à Lua!

A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui!
Sobre as sementes, sobre o Oceano impera,
Sobre as mulheres grávidas influi…

Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia!
Da Arte novas concepções descubro,
Todo me aflijo, fazem lá ideia!
Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro!

Tardes de Outubro! Ó tardes de novena!
Outono! Mês de Maio, na lareira!
Tardes…
-------- Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!

António Nobre, ,
Porto, Livraria Tavares Martins, 1971

sexta-feira, 13 de março de 2009

O eclipse


















(24 de Setembro de 1884)


Naquela tarde eu contemplava, ansioso,
A lua das marés:
Ia ver um fenómeno curioso,
Pela primeira vez.

Desde as sete horas que eu me achava pronto,
Pois vinha no jornal
Que se daria, às sete e meia em ponto,
O eclipse total.

Na praia, Miss! àquela hora havia
Enorme sensação:
Entusiasmada, a gente discutia
Com o óculo na mão.

E como, é certo, com a vista nua,
Tão fraca e tão subtil,
Tu não podias observar a lua,
Astrónomo gentil.

Um moço poeta, rouxinol das praias,
Um óculo ofereceu,
A ti, meu casto Ptolomeu de saias,
Geómetra do céu!

Assestaste-o, mas nada: uma imprevista
Mancha aos teus olhos sai,
Pois que estava graduado pela vista
Do teu velhinho pai…

Da praia, entanto, na deserta areia,
Caía o luar, a flux,
E nos céus fulgurava a lua cheia,
Cheia de tanta luz,

Que tu, imaginando ver da aurora
O lúcido arrebol,
Disseste: «Estou capaz de abrir, agora,
O meu chapéu de sol…»

Única frase que tombou, criança,
Do róseo lábio teu,
Porque, depois – que súbita mudança,
Tornou-se escuro o céu…

E a lua, a pouco e pouco desmaiando,
Sumia-se no ar,
Como se um monstro a fosse devorando,
Na sombra… devagar…

À luz da lua sucedeu a treva,
Treva de horror sem fim,
Cor dos teus olhos, deliciosa Eva,
Meu pálido jasmim!

E ao ver-me só nas trevas, de repente,
Clamei por ti, clamei…
Interrogando a multidão, a gente,
Em vão! Não te encontrei!

Ah, bem dizem as lendas, os adágios,
E as bruxas de Sabbat,
Que os eclipses da lua são preságios,
Sinais de coisa má!

Por isso o Mal com sua garra adunca
Me separou de ti,
Pois que tu nunca mais me viste, nunca!
E eu nunca mais te vi…

E, hoje, nas trevas sepulcrais e calmas,
Eu vivo, por meu mal:
É que também se deu em nossas almas
O eclipse total!

António Nobre, Primeiros Versos e Cartas Inéditas,
Lisboa, Editoral Notícias, s/ data
__________

O astrónomo Luís Tirapicos analisou este poema, que António José Saraiva e Óscar Lopes consideram, na sua História da Literatura Portuguesa, ser de teor altamente autobiográfico, colocando-se a hipótese de António Nobre ter assistido mesmo a um eclipse, tal o realismo do fenómeno e das circunstâncias nele narrados.
Apesar de o poema vir antecedido de uma data, que se poderia supor a do fenómeno - 24 de Setembro de 1884 -, Luís Tirapicos, admitindo embora que o poeta tenha presenciado um qualquer eclipse da Lua, terá investigado nos Borda d'Água daquele ano e dos quatro precedentes (e os Borda d'Água «são elaborados com base em efemérides astronómicas») e concluiu que as circunstâncias descritas não correspondem a nenhum eclipse real.

Estranhamos, porém, a colocação daquela data a anteceder o poema, o que não acontece com mais nenhum da colectânea, e uma nota transcrita da 2.ª edição organizada por Júlio Brandão, em que este assevera: «Poesia impressionada por um eclipse, em 1884. Estava em Leça, então. Setembro, creio.»
Esta dúvida («Setembro, creio.») é sintomática: deverá ter havido um ligeiro desacerto na data.

Bastará pesquisar no Google, a partir dos elementos "eclipse da lua + 1884", para se concluir que houve, de facto, um eclipse da Lua, observado em várias partes do Mundo - no Brasil, no Canadá ou no Observatório da Universidade de Oxford -, dez dias depois: 4 de Outubro.
Sabe-se inclusivamente que a contemplação do fenómeno terá sio dificultada pelo obscurecimento causado pela erupção do Krakatoa, ocorrida em Agosto no ano anterior, e pelos 1 800 quilómetros cúbicos de cinzas que lançou na alta atmosfera.

O que pode
, eventualmente, duvidar-se é que o eclipse tenha sido duplo, tal como vem narrado. Ou seja, o eclipse da lua deve ter mesmo ocorrido e sido presenciado pelo poeta do ; o eclipse total da amada é que poderá ter sido romanceado...

Cf.:
- texto de Luís Tirapicos in:

http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e47.html

- descrição do fenómeno pela Royal Astronomical Society of Canada in:
http://articles.adsabs.harvard.edu//full/1946JRASC..40..267S/0000267.000.html

Soneto à Lua







Foto in
art4linux.org


Ó Lua, ó Lua!, quantas vezes, quantas,
Ungindo os montes dum clarão bendito,
Vestes de branco as árvores e as plantas,
Tiras o crepe às rochas de granito!

Além, detrás das serras te alevantas,
E, descrevendo a curva do infinito,
Tombas do mar nas águas sacrossantas...
Pálida noiva desse leão maldito!

Banhas de luz, com o teu rosto humano,
Os que passam a noite sobre o Oceano,
Quase perdidos, num baixel sem mastros...

E eu que leio no azul, como um Caldeu,
Não compreendo esse alfabeto - o céu,
Sem ti, letra maiúscula dos astros!

Leça, 1885

António Nobre, Primeiros Versos e Cartas Inéditas,
Lisboa, Editoral Notícias, s/ data