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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Não posso adiar o amor...



















Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale sufoque e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Para um amigo tenho sempre um relógio














Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, Viagem Através duma Nebulosa, 1960

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Era a primeira rosa do céu....






Picasso,
Le Miroir,
1932


in
www.paris-art.com





Era a primeira rosa do céu que se assomava
à janela de uma nuvem e espargia o pólen
azul na nascente do dia
As idades cansadas baixavam ao seu leito
de obscuras plumas e de amargos óleos
A juventude da água em fugidios lampejos
inaugurava as espáduas da confiança indolente
e a vida reunia e dispersava os seus pássaros
que voavam sobre os sonhos e sobre o fogo do desejo
A terra dissolvia os seus fantasmas brancos
nas fornalhas verdes do seu violento estio
O mundo revelava as suas torres de obsidiana
com as suas chamas de olhos e as suas línguas de veludo
Um rosto tatuado flutuava sobre as águas
como a cabeça de uma pantera vermelha
Uma rapariga nua dormia sobre o ombro de uma duna
e a espuma inundava-a sem que ela despertasse
Um velho escrevia um poema sobre um muro
para identificar a água pura do dia

António Ramos Rosa, «Lâmpadas com Alguns Insectos» in
Antologia Poética, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001

quarta-feira, 11 de março de 2009

Quando dizemos estrela...





Foto in
www.nasa.org/





Quando dizemos estrela esperamos
que a palavra brilhe como uma estrela
mas não como se a palavra a nomeasse
porque só o nome dela brilha
e na sua própria ausência ela é uma estrela

António Ramos Rosa, A Intacta Ferida,
Lisboa, Relógio d'Água, 1991

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Árvore

















Foto A.M.





Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.

António Ramos Rosa, Ocupação do Espaço,
Lisboa, Portugália, 1963

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cada árvore é um ser para ser em nós



















Foto: A.M.




Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
Com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa, Cada Árvore é um Ser para Ser em Nós, Porto, In-Libris

sábado, 10 de janeiro de 2009

O presente absoluto















Auguste Rodin,
Le Baiser



Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.

Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.

Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.

António Ramos Rosa, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001