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sábado, 22 de agosto de 2015
O poeta vai ao médico
então de que se queixa?
o poeta pede licença para
ler-lhe um poema
o clínico encrespa um
tudo-nada as feições
mas condescende sou todo
ouvidos
como não foi treinado para
ser todo ouvidos
espera impaciente
que o fim chegue depressa
e o poema era curto afinal
só isso? pergunta
sim doutor é só isto o que
sinto
mas nunca conseguiria
dizer-lho de outra forma
o doutor gatafunha umas
linhas
num papel timbrado
pronto pode levar este meu
à farmácia
mas doutor não percebo uma
não se preocupe
eles lá foram treinados
para ler qualquer rabisco
Anthero Monteiro
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HUMOR,
Maldita Poesia,
Poemas de Anthero Monteiro
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Servir
passou a
vida ao serviço dos demais
do próximo
ou do distante
do indivíduo
ou da multidão
de quem
tinha pouco ou muito mais do que ele
o seu lema
era servir sem ver a quem
quanto a
servir-se
servia-se
apenas à mesa
o suficiente
para manter o vigor
e poder
continuar a servir os outros
também se
servia de algum descanso
pelos mesmos
motivos
servia-se
ainda do sol e da chuva
das amoras
nos valados
dos trilhos
dos bosques e das mo ntanhas
dos
miradouros para o indizível
da secreta
companhia das estrelas
de tudo
quanto é naturalmente de todos
um dia de
repente deixou de servir
e como nem
sequer conseguia mexer-se
recebeu a
recompensa que nunca reivindicara:
ficou ali
mesmo transformado
em estátua
jacente
Anthero
Monteiro
Primeiro encontro
Foto: A.M.
ribeiro
nunca tinha visto o mar
viera do
interior nortenho
com os olhos
apenas acostumados
às corcovas
das montanhas
e à
infinitude das noites estreladas
vasconcelos
esse conhecia bem o oceano
atravessara-o
desde a sua ilha
para ser
também nosso condiscípulo
de internato
quase todos
chegaram do litoral
e os outros eram
amiúde atraídos
pela linha
líquida do horizonte
numas férias
acampámos todos
perto da foz
de um rio modesto
nas dunas
que antecedem o areal
aplanado
pelas ondas
bastava
subir a encosta
e logo
teríamos aquela aparição
de plenitude
e incomensurável
o momento
mais esperado seria assistir
ao primeiro
encontro entre ribeiro e o mar
todos
esperavam o olhar de espanto do colega
uma centelha
de deslumbramento
uma
interjeição de assombro
perante o
inefável
mas ribeiro
era uma água quase parada
e continuava
sem pressas a colocar os prumos
a bater as
estacas a prender a lona
como quem antegosta
o melhor do prato
deixando-o
para o fim
a
impaciência desaguou no desânimo
do lado de
lá da duna seguia-se uma planura
de areia e
uma bola começou por ali a rolar
sob o
impulso dos nossos pés descalços
só muito
depois ribeiro subiu o declive
e silente
discreto vagaroso
como quem se
acerca de um leão
e humilde
como arroio que vai ter com o oceano
foi descendo
até à areia mais húmida
foi
Vasconcelos na baliza quem deu o sinal
o jogo
coagulou ali por minutos
e todos
quiseram assistir
àquele
primeiro encontro
o moço ali
parado e reverente
enchendo os
olhos de infinito
até que uma
onda mais afoita e mais humilde
veio
beijar-lhe os pés
ele
baixou-se e estendeu-lhe as mãos
num
cumprimento que era já um abraço
depois
desatou a correr
deitou-nos a
língua de fora
e veio
integrar o jogo logo reatado
Anthero Monteiro
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Maresia / Poesia,
Poemas de Anthero Monteiro
domingo, 28 de junho de 2015
Óculos
vergou-se para recuperar
algo que tinha deixado cair
ajoelhou-se gatinhou numa pequena
floresta de pernas
de cadeiras e por fim volvidos
largos minutos ergueu-se
caído então em desânimo
já nem sequer me lembro daquilo
que ando à procura
algo que tinha deixado cair
ajoelhou-se gatinhou numa pequena
floresta de pernas
de cadeiras e por fim volvidos
largos minutos ergueu-se
caído então em desânimo
já nem sequer me lembro daquilo
que ando à procura
ela observou-o minuciosamente
de alto a baixo e perguntou apenas
como é que queres encontrar
os óculos sem os óculos?
de alto a baixo e perguntou apenas
como é que queres encontrar
os óculos sem os óculos?
Anthero Monteiro
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HUMOR,
Poemas de Anthero Monteiro
Tortilha
quando regressou das exéquias
absolutamente só e esfomeado
pôs a sertã ao lume e começou a cortar
as batatas e a cebola em rodelas
bateu dois ovos preparou
pequenas porções de queijo e chouriço
e desencaroçou as azeitonas para a sua tortilha
como só ele sabia fazer
absolutamente só e esfomeado
pôs a sertã ao lume e começou a cortar
as batatas e a cebola em rodelas
bateu dois ovos preparou
pequenas porções de queijo e chouriço
e desencaroçou as azeitonas para a sua tortilha
como só ele sabia fazer
desde que casara
nunca mais confecionara aquele seu prato predileto
porque ela teimava em cozinhar a seu modo
sempre ciosa de excecionais dotes culinários
nunca mais confecionara aquele seu prato predileto
porque ela teimava em cozinhar a seu modo
sempre ciosa de excecionais dotes culinários
deixou tostar por baixo em fogo médio
foi sacudindo a sertã para nada agarrar no fundo
e também se foi descolando alguma da tristeza
que trazia presa ao rés da alma
foi sacudindo a sertã para nada agarrar no fundo
e também se foi descolando alguma da tristeza
que trazia presa ao rés da alma
como ao virar a tortilha com o auxílio de um prato
é imprescindível apurar a atenção
para não queimar as mãos
esqueceu por instantes algum do seu pesar
e lá deixou o fogo dourar a outra face do pitéu
é imprescindível apurar a atenção
para não queimar as mãos
esqueceu por instantes algum do seu pesar
e lá deixou o fogo dourar a outra face do pitéu
depois sentou-se à mesa para provar
a si próprio que ainda sabia fazer uma tortilha
estava deliciosa como antigamente
apesar de uma pitada de sal a mais
e o intrometido sabor de duas lágrimas
a si próprio que ainda sabia fazer uma tortilha
estava deliciosa como antigamente
apesar de uma pitada de sal a mais
e o intrometido sabor de duas lágrimas
Anthero Monteiro
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Eleutério
Anthero Monteiro
by Luís Abrunhosa
ninguém acredita mas ele continua
a sustentar aquela vaga lembrança
de ter ouvido junto da pia iniciática
entre os sustos da água e do sal
do primeiro sacramento
a música da palavra eleutério
era um nome esdrúxulo mas bem promissor
infelizmente todos lhe chamam
desde sempre e apenas silva
Anthero
Monteiro
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NOMES,
Poemas de Anthero Monteiro
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Beatriz
Beatriz só sabe dizer
pai
mãe
pão
não
e tim
em vez de sim
e em vez de dizer
Beatriz
diz apenas
tiz
(só não acerta
a última sílaba
por um triz)
ainda só anda pelos monossílabos
não diz copo
nem faca
nem boca
nem olhos
e pra dizer nariz
fica-se pelo niz
os dissílabos só se forem partidos
aos bocados
e os polissílabos ainda vêm longe
de tão complicados
o pai
a mãe
o tio
impacientam-se
eles queriam que ela
que ainda não sabe dizer
desobediente
nem adolescente
nem afluente
nem presente
nem dente
nem pente
nem gente
aparecesse ali a dizer de repente
anticonstitucionalissimamente
Anthero Monteiro
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NOMES,
Poemas de Anthero Monteiro,
Poesia infantil
terça-feira, 28 de abril de 2015
Fidelidade
A peça terminava com um beijo apaixonado
do protagonista e da amante.
Mas como o ator descobriu
a verdadeira mulher entre a assistência
acabou por dar um beijo
na boca de cena.
do protagonista e da amante.
Mas como o ator descobriu
a verdadeira mulher entre a assistência
acabou por dar um beijo
na boca de cena.
Anthero Monteiro
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Pulga na orelha
ora uma pulga expedita
irrequieta e irritante
que saltita que saltita
e que se põe num instante
no lugar mais eminente
um dia deu-lhe na telha
sem convite e sem pergunta
de saltar mesmo prá orelha
do presidente da junta…
sim senhor, do presidente!
foi aí que o secretário
que estava a fazer a ata
viu o salto extraordinário
daquela pulga acrobata
mas tão desavergonhada
e pra livrar o colega
do inseto e afugentá-lo
no cachaço lhe pespega
um tremendíssimo estalo…
sim senhor, mas que estalada!
estatelou-se redondo
o presidente no chão
e ao ouvir aquele estrondo
a pulga decide então
pular pró outro parceiro
estava a contar a maquia
que por acaso era escassa
somava e subtraía
ele era o dono da massa…
sim senhor, o tesoureiro!
o secretário espiara
com os olhos o trajeto
do salto da pulga ignara
desse infamíssimo inseto
tão malquisto e ordinário
e zás acerta na nuca
do homem do capital
que até lhe arranca a peruca
e quebra em três um cristal…
sim senhor, lá num armário!
secretário e presidente
presidente e tesoureiro
envolvem-se de repente
com violento berreiro
num terrível pugilato
depois pararam os três
e como belos rapazes
lá decidiram de vez
fazerem ali as pazes…
sim senhor, é mais sensato!
sentaram-se os três à mesa
merendaram conversaram
riram daquela proeza
e finalmente tomaram
junto duma escrivaninha
uma grande decisão
que era a única acertada
pediram a demissão
também não se perdeu nada…
não senhor, nada nadinha!
perder é como quem diz
não é bem como se julga
perdeu a vila de Avis
o rastro daquela pulga.
se ela não estiver defunta
decerto que a esta hora
fugida àquela razia
foi há muito lá pra fora
morder noutra freguesia
sim senhor, ou noutra junta!
Anthero Monteiro
(inédito)
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Poesia Juvenil
João dos Biscoitos
Fui à lata dos biscoitos
tirei um
p’ra não ficar em jejum
não, tirei dois
pra comer outro depois
ou seja, tirei três
dois pra mim, um para a Inês
quer dizer, tirei foi quatro
mais um pra calar o gato
ou melhor, tirei os cinco
a pensar no ornitorrinco
perdão, tirei foi seis
mais um pró dono dos carrocéis
não, ao todo tirei sete
mais um para a Bernardete
desculpem lá, tirei oito
é mais biscoito menos biscoito
tirei um
p’ra não ficar em jejum
não, tirei dois
pra comer outro depois
ou seja, tirei três
dois pra mim, um para a Inês
quer dizer, tirei foi quatro
mais um pra calar o gato
ou melhor, tirei os cinco
a pensar no ornitorrinco
perdão, tirei foi seis
mais um pró dono dos carrocéis
não, ao todo tirei sete
mais um para a Bernardete
desculpem lá, tirei oito
é mais biscoito menos biscoito
Por isso tirei o nono
às escondidas do dono
que é o senhor meu pai
que esconde a lata
sempre que sai
às escondidas do dono
que é o senhor meu pai
que esconde a lata
sempre que sai
E prà conta ficar certa
tirei o número dez
pra dar de oferta
ao meu amigo Moisés
tirei o número dez
pra dar de oferta
ao meu amigo Moisés
E não tirei mais nenhum
como queria
porque a lata
ficou vazia.
como queria
porque a lata
ficou vazia.
Anthero Monteiro
(inédito)
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Poemas de Anthero Monteiro,
Poesia infantil
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Glicínia
Foto in
http://plantasdecasa.blogspot.pt/
é um rosto fechado a tua casa
nem os lábios da porta se entreabrem
nem sorriem seus olhos hialinos
por mais que eu use o pó do teu caminho
por mais que eu aprofunde essa vereda
e dela faça o álveo desta mágoa
a tua casa é concha de refúgio
calcificou o caracol da espera
mal deflagrou o pólen nos espaços
emaranhou-se ao muro uma glicínia
marinhou pelo mês de março fora
e em minha vez foi ver-te na janela
na tua vez floriu em mil sorrisos
e sempre que aí passo lá me acena
a desdobrar-se em ânsias de infinito
línguas de fogo a rescender a azul
queria eternizar a primavera
e ser a tua rua para sempre
Anthero Monteiro,
Canto de Encantos e Desencantos
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Lost paradise
Miguel Ângelo,
"A expulsão do Paraíso"
(Capela Sistina)
o paraíso era o paraíso
mas para isso não era lá necessária
nenhuma serpente
não por ser serpente mas por ser a insídia
a aleivosia a emboscada a artimanha
a polícia
e quando se quer um paraíso
dispensa-se bem qualquer proibição
nem sequer um letreiro a interditar
que se calque a relva se trepe a uma árvore
ou se colha uma flor
ou um fruto
dispensa-se bem qualquer proibição
nem sequer um letreiro a interditar
que se calque a relva se trepe a uma árvore
ou se colha uma flor
ou um fruto
e sobretudo
sobretudo no paraíso
era bem escusado haver um ditador
munido de ardil
de polícia de normas invioláveis
e de um tremendo castigo inapelável:
a negação do próprio paraíso
sobretudo no paraíso
era bem escusado haver um ditador
munido de ardil
de polícia de normas invioláveis
e de um tremendo castigo inapelável:
a negação do próprio paraíso
ANTHERO MONTEIRO, inédito
terça-feira, 6 de maio de 2014
Testemunho – Contributo para a apresentação da obra “Sulcos da Memória e do Esquecimento”, de Anthero Monteiro
JOÃO AREZES
por
Amílcar Mendes
Deslinda-se desde logo na obra de Anthero Monteiro um caudal
de escrita poética de cariz misto, em termos de conteúdo temático, algo entre o
ficcionado e o real autobiográfico. O autor parece querer, por um lado devorar
a memória de algumas cicatrizes que emergem, pretende de algum modo
exorcizá-las e pôr em evidência aquilo que está bem tracejado na mente,
enquanto coisa positiva.
O regresso à infância está bem patente, sobretudo nas
primeiras páginas. Há como que um cordão umbilical do pensamento a convocar o
autor até à mais tenra idade, disso faz prova o poema “os primeiros passos”, um
quadro de visão imagética que questiona, sem deixar de o aceitar, um certo
misticismo e é até possível vislumbrar um namoro ao conceito de Alegoria da
Caverna, o mistério da vida possibilita estas divagações. Um poema de todo em
todo fotográfico, num certo preto e branco que sorri.
Em “104 palmatoadas” há toda uma descrição de ambiência
escolar punitiva para com os alunos, paradigma e apanágio do Antigo Regime. O
autor, face a uma notável vocação para as lides das letras, superiorizava-se
aos demais colegas nos ditados e é, consequentemente e a contragosto, investido
da condição de carrasco no castigo aos que mais erros davam. Em vez de um
machado, ao algoz era fornecida uma régua, instrumento com o qual se mediam os
erros ortográficos dos outros, numa estatística de contabilidade dolorosa.
Escusado será dizer com o que contava o autor no exterior do estabelecimento de
ensino.
A esta jornada vivencial convertida em obra poética soma-se a
chegada do seu primeiro grande amor. A primeira dona do “ás de copas” do autor
foi “benilde”. (…) Conheceu-a na festa de
agosto, passeou com ela de mãos dadas, o olhar obcecado pela luz que irradiava
aquele rosto mais grácil e doce do que o da santa do andor.
Os amores precoces são voláteis na duração, mas perduram na
memória para todo-o-sempre. Aos 9 anos de idade a desilusão tem mais ênfase que
a consciência. O resultado de um amor não correspondido degenera num pedido
para ir estudar para padre.
E a exorcização do mal passa das reguadas com que brindava os
outros na sala de aula para o chicote com que era tatuado maternalmente quando
se portava mal, falamos de “diavolo in corpo”.
“a besta” é um exercício de quem não perdoa e não esquece um
período negro no seminário. Reporta-se à figura de um diretor cuja fotografia
neuronal tirada pelo autor, é verdadeiramente e na essência um momento Kodak:
para mais tarde recordar.
Quem há de esquecer se
a recordação se sobrepõe ao ódio e é um ferrete indelével na pele do escravo.
Basta lembrar um claustro, a capela ou a sala do capítulo daquela casa para
logo perceber como ela ficou para sempre assombrada pela figura voluminosa do
diretor.
“o meu ribeirinho” é uma recordação lamentada e
simultaneamente conformada, preenchida de um valor telúrico de outros tempos
vividos e da clivagem que se opera face às mudanças entretanto ocorridas. Há uma
boa dose de nostalgia e aqui se releva o papel recorrente da memória, porque só
ela consegue dar vida às coisas que já desapareceram.
No caso de “um domingo e muitos mais” trata-se de um poema
seminal da obra, pleno de candura, a evocar o romance que o une à sua
companheira de há meio século. Por conseguinte, as páginas 36 e 37 são um
sublinhado estético do quanto uma história de amor se renova numa declaração
contínua a esse mesmo sentimento e acabam por tornar o poema num imperativo de
leitura.
“a confissão” é um relato de quem inocentemente espera uma
redenção suave e sofre uma sentença inesperadamente castigadora. De algum modo,
o autor tributa-a como inversamente pedagógica para o penitente: E foi remédio sacrossanto, emendei-me para
sempre, nunca mais disse a verdade.
Logo a seguir surge o episódio poético que dá pelo nome de “páscoa”,
moldado em lembranças, deambula entre o religioso temático e o paganismo de
situação. Irónico, mas nostálgico, pois enquanto criança não se questiona a
validade das asserções: Como era bom
acreditar sem nada questionar. Os olhos outra vez surpresos por tudo se repetir
cada ano (…).
“questão de espaço” remete para o ateísmo do autor, segundo
ele “Deus tem, reconheço, uma enorme vantagem, existe em toda a parte mas não
ocupa espaço nenhum”.
“fatal esquecimento”, “luto” e “alzheimer” e “cadeira de rodas”
que enquadram a doença e a morte e dissertam sobre a perda dos nossos entes
queridos. São uma espécie de pontos de paragem, sendo também pontos de passagem
existencial dos outros que marcam as nossas vidas.
Por outro lado, “o promontório” é o país das glórias passadas
a fazer uma análise introspetiva, a conjugar-se no pretérito, mas também no
presente do indicativo. A antítese entre a História grande da nação versus a
memória curta dos que a habitam.
“obrigado sou feliz” é outro dos poemas essenciais da obra, impregnado
de ironia ácida, faz-se compreender pela razão inversa entre a palavra e o
propósito. Uma espécie de drama cómico situacional, essa relação de
tragicomédia em que todos estão dispostos a ajudar e a fazer com que sejamos
felizes…deixando-nos nas cordas! Dir-se-ia que é um poema de final infeliz, mas
com humor conclusivo bem recortado.
“olvido” estabelece o contraponto entre a memória e o
esquecimento. Na incidência de conteúdo prevalece o esquecimento, mas o que é o
esquecimento senão a ausência de memória? Este esquecimento que reside no poema
é personificado por Olívio que assume a alcunha de Olvido.
“um poeta amnésico” poderia denominar-se por “poema do medo
de perder a memória” e “poema do homem sentado” bem poderia ser uma peça de
Beckett ao jeito de “À Espera de Godot”. “notas para um epitáfio” e “últimas palavras”
são uma antevisão parodiada da morte.
Como rodapé deve dizer-se que “Sulcos da Memória e do
Esquecimento” tem um desenho poético-literário bem alicerçado, rico em
sugestões metafóricas que auxiliam à assimilação da obra. Embarcamos num navio
da memória, que tenta sulcar as ondas de esquecimento: a saudade, a tristeza,
as injustiças e uma certa impotência em lutar contra Kronos, o eterno vencedor.
Conquanto que as boas recordações de infância, adolescência e idade adulta
sejam enfatizadas com sábias doses de ironia e sátira, há também alegria e
humor. Mas sobretudo subsiste um virtuosismo de escrita que conferem à obra o
elã de criar o apetite para a fruição de uma boa dose de nutrição poética.
João Fernando Arezes (jornalista)
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Anthero Monteiro - Bibliografia
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Um domingo e muitos mais
será exíguo o fio da minha vida
mas foi urdido
com algumas eternidades
foram eternidades os minutos da minha espera
debaixo das palmeiras do adro
naquela tarde de domingo
lembras-te certamente: dois enormes exemplares
emolduravam a igreja da nossa terra
nos primeiros anos da década de sessenta
dali via-se ao longe o oceano e contemplando-o
ensaiava a intimidade com o absoluto
mal chegaste começou a vida do mortal
que assiste à vertigem das horas no relógio da torre
afoguei os meus olhos no mar que trazias nos teus
e deixei-me submergir nos sobressaltos da surpresa
partimos pelas ruas atónitas da aldeia
com as palmeiras a flabelar adeuses
e os pássaros nas tílias interpretando vivaldi
foi o nosso primeiro passeio lado a lado
duas brevíssimas horas daquela semana diferente
porque passou finalmente a haver domingo
enfim reparaste que eu sobraçava um livro
(se me conhecesses bem saberias que o livro era inevitável)
e pudeste ler-lhe o sugestivo título:
davam grandes passeios aos domingos
hoje régio há-de interrogar o seu deus e o seu diabo
para entender como afinal o nosso passeio ainda dura
já lá vão mais de quarenta anos pelas caminhos
da nossa aldeia com horizontes líquidos ao fundo
arrancaram as palmeiras arrancaram as tílias
mas ninguém conseguiu arrancar o meu olhar do teu
prefiro continuar a ver o atlântico nos teus olhos
foram eternidades os minutos da minha espera
debaixo das palmeiras do adro
naquela tarde de domingo
lembras-te certamente: dois enormes exemplares
emolduravam a igreja da nossa terra
nos primeiros anos da década de sessenta
dali via-se ao longe o oceano e contemplando-o
ensaiava a intimidade com o absoluto
mal chegaste começou a vida do mortal
que assiste à vertigem das horas no relógio da torre
afoguei os meus olhos no mar que trazias nos teus
e deixei-me submergir nos sobressaltos da surpresa
partimos pelas ruas atónitas da aldeia
com as palmeiras a flabelar adeuses
e os pássaros nas tílias interpretando vivaldi
foi o nosso primeiro passeio lado a lado
duas brevíssimas horas daquela semana diferente
porque passou finalmente a haver domingo
enfim reparaste que eu sobraçava um livro
(se me conhecesses bem saberias que o livro era inevitável)
e pudeste ler-lhe o sugestivo título:
davam grandes passeios aos domingos
hoje régio há-de interrogar o seu deus e o seu diabo
para entender como afinal o nosso passeio ainda dura
já lá vão mais de quarenta anos pelas caminhos
da nossa aldeia com horizontes líquidos ao fundo
arrancaram as palmeiras arrancaram as tílias
mas ninguém conseguiu arrancar o meu olhar do teu
prefiro continuar a ver o atlântico nos teus olhos
Anthero Monteiro,
Sulcos da Memória e do Esquecimento,
Porto, Corpos Editora, 2013
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
O riso de Felismundo
Quero rir-me mas em vão
que vida
assim não dá riso
pois já lá
diz o rifão
que quem se
ri sem razão
é porque
tem pouco siso.
Assim meu
riso é só um:
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
Meio doido
da cabeça
não me
responsabilizo
se me sair
este riso
que talvez
choro pareça
e não tem
jeito nenhum:
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
Ser feliz eu bem queria
e ainda que tenha fome
sou-o ao menos de nome
e finjo a enorme alegria
dos foguetes pum pum pum:
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
Mas é com
grande alvoroço
que rio mais
do que um momo.
Até parece
que como
riso ao
jantar e ao almoço
e assim não
fico em jejum:
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
Rir assim até me custa.
Pareço dono do mundo
mas sei bem que lá no fundo
pra muitos a vida é injusta.
Rir assim não é comum:
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
Mas não
quero entristecer
tudo quanto
me rodeia.
Por isso
tenho esta ideia
de rir sem
me apetecer
e sem ter
motivo algum:
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
ferrum fum
fum
Anthero Monteiro (inédito)
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Poesia infantil
domingo, 2 de fevereiro de 2014
A Lia que lia lia
Capa do livro
em que se insere
o poema seguinte
que lhe serviu
de título
Minha boa amiga Lia
muito lia muito
lia
Lia de noite e de dia
lia lia lia lia
Lia tudo o que queria
Zoologia Geologia
lia até Psicologia
livros de Filosofia
mapas de Geografia
temas de Pedagogia
problemas de Economia
tratados de Biologia
volumes de Biografia
coisas da Tecnologia
e tanta bibliografia
que já ninguém avalia
quantas páginas a Lia
tinha lido ao fim do dia
Minha boa amiga Lia
muito lia muito lia
lia de noite e de dia
lia lia lia lia
De manhãzinha ela lia
só parava ao meio-dia
sopa de letras comia
mas quase nem engolia
À tarde nem se mexia
lia tudo o que podia
lia tudo por mania
tudo o que na estante havia
na biblioteca existia
ou então na livraria
À noite pouco dormia
lia à luz da almotolia
e sempre que adormecia
sonhava que lia lia
lia relia treslia
sempre sem uma arrelia
sempre a sorrir de alegria
sem sentir monotonia
ou sofrer de miopia
ou de qualquer alergia
Minha boa amiga Lia
muito lia muito lia
lia de noite e de dia
lia lia lia lia
A mãe lavava e cosia
espanejava e varria
e ela lia lia lia
O pai gastava a maquia
ia ao casino e perdia
e ela lia lia lia
A irmã pouco fazia
pois tinha paralisia
e ela lia lia lia
O irmão era só folia
só folguedo e romaria
e ela lia lia lia
A avó coitada dormia
esperando a morte fria
e ela lia lia lia
O avô que quase não via
em vão chamava pla Lia
e ela lia lia lia
O primo só televia
todos os canais que havia
e ela lia lia lia
E enquanto a prima Maria
ia prà Cova da Iria
ela lia lia lia
O tio era uma apatia
era uma vida vazia
e ela lia lia lia
Melhor do que ele
era a tia
mas morreu com anemia
e ela lia lia lia
E enquanto eu escrevia
esta longa poesia
a Lia toda crescia
em grande sabedoria
porque lia lia lia
lia lia lia lia
Ler como ela ninguém lia
ler como ela só a Lia
Anthero Monteiro
“A Lia Que Lia Lia”, 2.ª edição, Corpos Editora, Porto,
2010
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