Mostrar mensagens com a etiqueta Arvores para abraçar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arvores para abraçar. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quinta, 12/3, árvores na Onda Poética de Espinho

































Antes de um novo tema, aqui vai o convite para mais uma sessão da Onda Poética, subordinada ao tema ÁRVORES PARA ABRAÇAR, a culminar uma abundante recolha de cerca de seis dezenas de poemas colocados neste blogue no mês passado.
A sessão mantém a tradição de um Momento dos Espontâneos, pelo que todos podem participar com textos da Praça ou quaisquer outros à sua escolha. Além disso, esse momento é sempre destinado a tema livre. Apareçam. Surpreendam-nos!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Epílogo








Foto
Anthero
Monteiro





Estas páginas foram escritas a caminhar sobre a água, E só assim se podem ler.
Não procurei nada, Não retive nada.
Limitei-me a acusar o choque – brutal, por vezes – de um grão de pólen ou de uma brisa inesperada.

Não conheço outro ritmo que não seja o das estações.
Outra música que não a das gotas de chuva nos limoeiros.
Outra fuga que não a de um pássaro assustado com a sua própria sombra.

No fundo, o que me recuso a acreditar é que estejamos condenados.
Apesar dos prados envenenados, da lenta agonia dos rios e do mar.
Da atmosfera cada vez mais carregada das cidades.
Contanto que a poesia seja – continue a ser –

um lugar
onde ainda se pode
respirar

Jorge de Sousa Braga, «Os Pés Luminosos» in O Poeta Nu,
Lisboa, Fenda, 1999, 2.ª ed.

...Epílogo é um termo adequado para encerrarmos esta recolha de poemas sobre o tema que nos propusemos durante o mês de Fevereiro, agora no seu término: "ÁRVORES PARA ABRAÇAR".
Preparámos, assim, a sessão da Onda Poética do mês de Março, que, como habitualmente, se realiza na segunda Quinta-Feira do mês, ou seja, no dia 12, na Junta de Freguesia de Espinho.
A maioris dos textos escolhidos pelos leitores será deste blogue, ainda que os participantes tenham liberdade absoluta para trazerem os poemas que entenderem e donde lhes der mais jeito.
Na próxima sessão, a Onda Poética de Espinho comemorará 11 anos de existência, com sessões mensais quase sem interrrupção, apesar de alguns pequenos acidentes de percurso.

Todo esse tempo, estivemos ao serviço da Comunidade, da Poesia e dos Poetas, sem esperar compensações nem sequer palavras de reconhecimento, que nunca tivemos.
Obrigados, dizemos nós.

O trunfo do tempo











Foto

Anthero Monteiro




As flores que nascem contigo
são o leito onde hás-de morrer.

Neste dia a ilha dispensou o sol.
As águas opacas poderiam esconder
reluzentes peixes que nada
seria hoje revelado.
Respirávamos por baixo da cinza,
vagarosamente,
e crescia uma levíssima morte
que talvez nos lançasse
já noite
nas memórias vivas.

Antes, havíamos conhecido o privilégio.
Tivéramos tempo para construir
a muralha que sustentaria o céu.
Encontrámos as raízes puras
da nossa idade, éramos enormes
diante do fogo, como árvores
que chegassem de muito longe
para povoar o inóspito.
Havia esse saber secreto:
vem das árvores o ar
com que o fogo as consome.

O tempo conhece os seus trunfos.

As flores preparam-se para te receber.
E tu tens os olhos esculpidos pela febre,
a brancura, o frio nas mãos,
todos esses contrastes que antecedem
a chegada da primavera incalculável.
Sentes-te estalar desde o coração.
Há uma tapeçaria de gritos e silêncios
urdindo-se dentro de ti.
Pétalas no chão.

E agora és a primavera
em que todas as aves partiram,
levando consigo a ilha,
as memórias,
a dura revelação do rosto.

Vasco Gato, Imo,
V.N. Famalicão, Quasi Edições, 2003

Árvores















Foto
Anthero Monteiro



São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa:
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde
no corpo do seu gémeo.

Penetra inutilmente
na terra essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende
na húmida manhã dos castanheiros.

Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco

Tu que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado

Gastão Cruz

A um negrilho





















Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

Miguel Torga

Quando eu morrer...









Fot
o Anthero Monteiro




Quando eu morrer batam em latas...
(Mário de Sá-Carneiro)


quando eu morrer
cair abrupto
olhem-me apenas
de olhar enxuto
nem água benta
nem flores de luto

deixem-me ali
sob uma árvore
num chão de folhas
nunca de mármore
não quero então
ter outro cárcere

que a minha morte
não a deplorem
só as magnólias
o orvalho chorem
tristes transidas
só elas orem

elas me amaram
eu as amei
de outros amores
não sei não sei
não digam nada
não vale a pena
deixem que a noite
seja serena

quando eu zarpar
para a viagem
sem a coragem
de me matar

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
V.N.Gaia, Corpos Editora, 2003

Ode à imprescindível beleza












Foto A.M.



aí vem mais um dia para o rol dos perdidos e não achados
bem se esmerou ontem o meteorologista
bem se esmerou o sol para não o defraudar
bem se esmeraram as aves pintando mais azul
bem se apura o silêncio pé ante pé nos ramos
e me insinuo na amplidão vestido de aromas

mas como alçar-me para além de mim
se não posso abstrair-me do chão
desta vala comum onde se debruçam os continentes
onde nos vamos atolando através dos séculos
estrato após estrato

e entristeço como uma raiz doente
volto a olhar a mentira das árvores magníficas
alimentadas desta podridão
sei que desafiam a eternidade
desenhando no ventre impassíveis círculos concêntricos
tudo se prepara para nada modificar
tudo admite como certo o hoje igual ao ontem e ao amanhã

entristeço ainda mais
tudo quero subverter
sobretudo a lógica das raízes
a lógica dos desenhos pueris
com um sol presidindo à natureza

só assim vale a pena existir
ou estarão à espera que eu me fique sentado
apenas a entristecer apenas a desistir
quererão acaso que prescinda de uma outra humanidade
que me resigne a semear no mesmo chão as mesmas sementes
em vez de pôr raízes nas estrelas

convoco este silêncio este sol estas aves estas árvores
esta fragrância para minhas testemunhas
todos viram e sabem que atirei para fora do sofá das nuvens
o indolente criador adormecido logo ao sétimo dia
que rasguei os calendários que perpetuam a fealdade
que bati o pé ao sopé das montanhas que desistiram do voo

deixem-me ao menos pensar
que é possível um mundo mais belo
e que existo apenas por razões estéticas
que é ainda possível fazer dos dias rosas memoráveis
dos segundos compassos de uma nova criação
do sol um sorriso mais cálido e palpável
da água um olhar mais penetrante
da arte um esperanto de esperança
da ingenuidade a arma que desarma o próprio portador
da beleza a clorofila essencial

tirem-me do olhar os paquidermes de combate
de trombas mortíferas e manhas de lagarta
que nada têm de belo
tirem-me daqui os corpos devorados pelos semelhantes
e os troféus de sangue vivo arrastados pelas ruas
que só conseguem fazer brotar cardos de repugnância
poupem-me ao engano das romãs do ódio
porque eu sei que há romãs verdadeiras com sabor a romãs
verdadeiras coerentes inimitáveis
poupem-me aos roncos de estranhas aves
que as verdadeiras sabem entregar-se aos dedos do vento
sem outro fito que não seja recriar a beleza

deixem-me ao menos enquanto exista
que insista em buscar lirismo para os meus versos
para os meus universos

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
V.N.Gaia, Corpos Editora, 2003

O velho poeta







Eugénio de Andrade
a quem o poema de
Jorge Sousa Braga
é dedicado


O seu desejo era que plantassem
um espinheiro numa nesga de

terra frente ao mar e ao rio
e que ele florisse nem

que fosse uma única vez
Esse espinheiro protegê-lo-ia

mais do frio que um edredão
A nesga de terra continua lá

e o mar e o rio e a manhã
Só o espinheiro e o poeta

é que não

Jorge de Sousa Braga

Ninhos












Foto A.M.




Dias antes de morrer, acordou com vontade de ir aos ninhos.
Tentou levantar-se da cama. Que queria trepar às árvores.
Que sabia de um ninho de melro abandonado.
Disseram-lhe que a primavera já tinha passado,
que as árvores estavam escorregadias,
que já não havia árvores,
que os pássaros já não sabiam fazer ninhos...
Mas ele continuava a insistir.
Entrou depois num longo delírio.
De vez em quando pronunciava palavras
como musgo cor-de-rosa, lama seca,
palavras que se foram tornando cada vez mais indistintas.
Por último, parece que chilreava.

Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nu,
Lisboa, Fenda, 1999, 2.ª ed.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A voz da tília















Diz-me a tília a cantar:" Eu sou sincera,
eu sou isto que vês: o sonho, a graça,
deu ao meu corpo o vento, quando passa,
este ar escultural de bayadera...

E de manhã o sol é uma cratera,
uma serpente de oiro que me enlaça...
Trago nas mãos as mãos da Primavera...
E é para mim que em noites de desgraça

toca o vento Mozart, triste e solene,
e à minha alma vibrante, posta a nu,
diz a chuva sonetos de Verlaine..."

E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
"Já fui um dia poeta como tu...
Ainda hás-de ser tília como eu sou..."

Florbela Espanca, Charneca em Flor, 1930

À figueira da Quinta de S. Pedro – S. Lourenço, Azeitão – pedindo à sua dona que nunca a deixe morrer




Natureza morta
com figos, de
Luis Eugenio Melendez
(1716-1780)


Foto in
www.ceja.educagri.fr/




Na profusão dos gestos, a presença: a figueira.
Merecia ir à piscina tomar banho, a figueira.
Merecia mais que muita gente,
que, semovente,
passarinheira,
não passa afinal de estar à beira.

Com seus braços,
nadaria, ao mesmo tempo, em todos os sentidos,
seria a presença inteira
(e nunca, meu Deus!, a D. Maria
ou a D. Fernanda Figueira…)

- Generosa figueira,
quando estiveres doente quem te deita?

Alexandre O´Neill, Coração Acordeão, 1973













Foto in
www.diariodetrasosmontes.com


Dos castanheiros a folhagem árida
já desce no ar morto que se move
dentro da palidez do céu de outono
sobre as aves imóveis

Movem-se as folhas só na tarde escassa
de clareiras do sol movem-se as aves
extintas do outono
dentro dele e do sol

que mais que as aves mortas sob as árvores
se move
e movem-se aves

mais do que as folhas que do alto caem
mas sem sol grande as aves não se movem
nem já não caem com a calma as aves

Gastão Cruz

Imagem









A Macieira,
de Gustav
Klimt




Foto in
http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/106_klimt/index.shtml


Este é o poema de uma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

Miguel Torga

Ressurreição

Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens,
Que guardei na retina
De menino:
O repique do sino
Depois das negras horas da Paixão,
E a brejeira
Canção
Que num toco
Já oco
De cerdeira
- Flauta que um pica-pau lhe dera -
A seiva assobiava à Primavera...

Miguel Torga, Diário VIII, 1959

Da realidade







Foto in

www.cirm.univ-mrs.fr




Que renda fez a tarde no jardim,
Que há cedros que parecem de enxoval?

Miguel Torga, Nihil Sibi (1948)

Fantasia










Foto A.M.




Canto ou não canto o limoeiro
aqui ao lado?
Ele é tão delicado!
Tem um jeito tão puro
de se encostar ao muro
onde vive encostado...

Canto ou não canto as tetas de donzela
que daqui da janela
vejo no limoeiro?
Elas são tão maduras...
E tão duras...
Têm uma cor e um cheiro...
Canto!
Nem serei o primeiro,
nem eu sou nenhum santo!

Miguel Torga, Antologia Poética,
Coimbra, Ed. do Autor, 1981

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O zambujeiro


















Foto in
www.fotodisardegna.it/




Deus disse: "O Zambujeiro nasça".
Viril, rompeu da terra o Zambujeiro.
O tronco é o dum homem das montanhas.
São mãos de cavador seus ramos. Só as folhas,
Delicadas, suaves... Pela noite,
Quando tudo se cala, mesmo os pássaros,
O Zambujeiro canta...

Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos

Vegetação da infância











Onde está a antiga nogueira cujas raízes
entravam pela água? Sei que os seus ramos se partiam
de cada vez que o ribeiro enchia; que as folhas
se espalhavam pelo tanque, antes de se afundarem,
formando um lodo em que os pés escorregavam;
que o barulho das rãs ecoava na sua copa, enquanto
a noite se agitava com o vento frio que trazia
o outono. Mas de nada me serve este conhecimento,
agora que nada me diz se a nogueira existe, ainda,
nessa margem onde me sentei, ouvindo as rãs
e o vento, sem que me apercebesse do trabalho do tempo
no fundo das raízes. Ou antes: o que ele me dá é
uma inquietação áspera como o sabor das nozes
que se colhiam dessa árvore. Atiro-as para o armazém
da memória onde as sombras se acumulam; e
entro nessa árvore, como se fosse uma casa,
ou como se as suas ramagens se abrissem
num bater de asas impotentes para o voo.

Nuno Júdice, Teoria Geral do Sentimento
Lisboa, Quetzal, 1999

A um carvalho













Foto in
www.lookfordiagnosis.com


Forte como um destino,
Calmo como um pastor,
A sarça ardente é quando o sol, a pino,
O inunda de seiva e de calor.

Barbas, rugas e veias
De gigante.
Mas, sobretudo, braços!
Longos e negros desmedidos traços,
Gestos solenes duma fé constante...

Miguel Torga, Diário

A magnólia












Foto A.M.



A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge