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domingo, 20 de setembro de 2009

Oração







Foto
A.M.








Outono. Morre o dia.
Cai sobre as coisas plácidas e calmas
um véu de sombra e de melancolia
que dulcifica e embrandece as almas.

Todo o meu ser se invade
de enervantes e místicas doçuras,
de mansidão, de paz, de suavidade,
de sentimntos bons, de ideias puras.

No coração perpassa
uma piedade e compaixão serena
por todos os validos da desgraça,
por tudo quanto sofre e quanto pena:

pelos pequenos entes,
sem abrigo, sem lar e sem carinho,
que são como avezinhas inocentes
postas por mão cruel fora do ninho;

pelos encarcerados
que lançam, dentre as grades da cadeia,
ao ar, à luz, aos montes afastados
a vista aflita e de amargura cheia;

pelos que vão pedindo
de porta em porta o pão de cada dia,
tristes, que sempre a morte olham sorrindo
porque ela unicamente os alivia;

pelos que andam distantes,
entre cruezas, fomes e perigos,
sentindo a nostalgia lancinante
da família, da pátria, dos amigos;

e numa emoção crente,
numa fé viva, forte e benfazeja,
a Deus suplico fervorosamente
que os guie, que os socorra, que os proteja.


Augusto Gil, Musa Cérula, 1894

terça-feira, 17 de março de 2009

O passeio de Santo António















Imagem in
minhaitalia.blogspot.com/





Saíra Santo António do convento,
a dar o seu passeio costumado
e a decorar, num tom rezado e lento,
um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando,
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando...

E andando, andando, viu-se num outeiro,
com árvores e casas espalhadas,
que ficava distante do mosteiro
uma légua das fartas, das puxadas..

Surpreendido por se ver tão longe,
e fraco por haver andado tanto,
sentou-se a descansar o bom do monge,
com a resignação de quem é santo...

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia... o coração no peito.

Sem suspentarem de que alguém os visse,
trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
— Ó Frei António, o que foi aquilo?...

O santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu numa voz doce como o mel:
— Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada...

Uma risada límpida, sonora,
vibrou em notas de oiro no caminho.
— Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
— Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho...

— Tu não estás com a cabeça boa...
Um passarinho a cantar assim!...
E o pobre Santo António de Lisboa
calou-se embaraçado, mas, por fim,

corado como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora:
— Se o Menino Jesus pergunta mais,
... queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
e contra aquele amor sem casamento,
pegou-lhe ao colo e acrescentou: — Jesus,
são horas...
------------ E abalaram prò convento.

Augusto Gil, Luar de Janeiro,
Sintra, Manuscrito Editores, 1984

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Toada para as mães acalentarem os filhos


Ó Desgraça! Vai-te embora,
Que esta linda criancinha
Andou no meu ventre e agora
Trago-a nos braços. É minha!…

Do berço, segue-me os passos;
Onde eu vou, seus olhos vão…
E quando a aperto nos braços
- Abraço o meu coração.

Quando o seu choro receio,
Embalo-a, faço que aceite
A alegria do meu seio
Na brancura do meu leite…

E quando assim não descansa,
Que tristezas me consomem!
- Mas antes chore em criança
Que depois, quando for homem…

Se ao dá-lo ao mundo sofri
Tormentos, ânsias mortais,
Desgraça, vai-te de aqui,
O que pretendes tu mais!?

Bate as asas, mas ao voares
Não me apagues esta estrela.
Se alguém de aqui precisares,
- Aqui me tens, em vez dela.

Tocam às ave-marias.
Foi-se o sol. Não vem a lua.
Luzinha que me alumias,
Que sorte será a tua?…

Riquezas tenhas tão grandes,
E tal bondade também,
Que ao redor donde tu andes
Não fique pobre ninguém.

Que a todos chegue a ventura:
Toda a boca tenha pão,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dor, consolação…

Mas se o oiro é mau caminho,
- Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.

Iremos por esses montes
Altos e azuis como os céus…
Que onde há frutos e onde há fontes,
Está a mesa de Deus!

E, quando a neve cair
E as seivas adormecerem,
Iremos então pedir…
(Aceitar o que nos derem!)

Andaremos à mercê
Dos génios bons e dos falsos,
Léguas e léguas a pé,
Rotinhos, magros, descalços…

E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pele,
Porei o corpo de rojos
- Passarás por cima dele!

Dorme, dorme, meu menino,
Foi-se o sol. Nasceu a lua.
Qual será o teu destino?
Que sorte será a tua?…

Se um crime tens de fazer,
Antes fique vago um trono,
Antes um palácio a arder,
Do que uma enxada sem dono…

Se, porém, no teu destino,
Há tão cruentos sinais,
Dorme, dorme, meu menino,
- Não tornes a acordar mais!…

Augusto Gil, Luar de Janeiro,
Sintra, Edições Mnuscrito, 1984
Lordelo do Ouro, 1873 / Lisboa, 1929. Alguns consideram-no um poeta menor e, de facto, Eugénio de Andrade não o incluiu na sua Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, nem sequer na sua selecção de Poemas Portugueses para a Juventude. Mas, tirando João de Deus, algum outro poeta escreveu poesia com tanta naturalidade e simplicidade como ele? Além disso, poucos poemas da nossa literatura, exceptuando talvez o "Cântico Negro" de José Régio, obtiveram mais popularidade do que a sua "Balada da Neve".