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domingo, 13 de março de 2011

O comboio de serviço











1

Por ordem expressa do Führer,
o comboio de luxo expressamente feito para o congresso
do Partido em Nuremberg
recebeu o nome simples de COMBOIO DE SERVIÇO.
Os que o tomam prestam com isso um serviço
ao povo alemão.


2

O comboio de serviço
é uma obra-prima da técnica ferroviária. Os passageiros
têm apartamentos privativos. Pelas largas janelas
vêem os camponeses alemães mourejar pelos campos.
Se por acaso transpirassem nesse momento
poderiam tomar banho
em cabines cobertas de ladrilhos.
Um subtil sistema de luzes permite-lhes
ler à noite, de pé, sentados ou deitados, os jornais
com as grandes reportagens sobre os benefícios do regime.
Os vários apartamentos
comunicam entre si por linhas telefónicas
tal como as mesas dos grandes dancings cujos clientes
podem pedir às mulheres das mesas vizinhas
o preço que cobram.
Sem sair da cama os passageiros também podem
ligar o rádio, que transmite as grandes reportagens
sobre os erros dos outros regimes. Jantam,
se assim o desejarem, no respectivo apartamento, e fazem as
respectivas necessidades
em privadas privativas revestidas de mármore.
Cagam
na Alemanha.

Bertolt Brecht,
Poemas, Lisboa, Editorial Presença, s/d

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um filme do cómico Chaplin





Café no Boulevard
Saint-Michel - Paris
(Foto in www.
polemikos.com)





A um café do Boulevard Saint-Michel
Chegou um jovem pintor numa chuvosa tarde de Outono.
Bebeu quatro ou cinco cálices de um licor esverdeado
E pôs-se a contar aos ociosos jogadores de bilhar o encontro comovido
Com uma amada de outrora, muito meiga mulher
No momento casada com um rico carniceiro.
«Meus senhores, suplicou, dêem-me depressa, por favor,
O giz que colocam na ponta dos tacos.» Depois, de joelhos,
Tentou com a mão trémula fazer o retrato
Da amada dos dias idos. Mas logo desesperado
Apagou o que fizera, começou de novo,
E de novo parou, e outros traços traçou
Enquanto repetia: «Ainda ontem o sabia».
Clientes tropeçaram, resmungando, nele. O gerente, furioso,
Pegou-o pela gola do casaco e pô-lo no olho da rua. Já no passeio,
Ele abanava a cabeça e ainda perseguia com o giz
os traços fugitivos.

Bertolt Brecht, Poemas,
Lisboa, Editorial Presença, s/d

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A árvore em fogo

Na ténue névoa vermelha da noite
Víamos as chamas, rubras, oblíquas
Batendo em ondas contra o céu escuro.
No campo em morna quietude
Crepitando
Queimava uma árvore.

Para cima estendiam-se os ramos, de medo estarrecidos
Negros, rodeados de centelhas
De chuva vermelha.
Através da névoa rebentava o fogo.
Apavorantes dançavam as folhas secas
Selvagens, jubilantes, para cair como cinzas
Zombando, em volta do velho tronco.

Mas tranquila, iluminando forte a noite
Como um gigante cansado à beira da morte
Nobre, porém, em sua miséria
Erguia-se a árvore em fogo.

E subitamente estira os ramos negros, rijos
A chama púrpura a percorre inteira
Por um instante fica erguida contra o céu escuro

E então, rodeada de centelhas
Desaba.

Bertolt Brecht
(Tradução de Paulo César de Souza)

Foto in
http://terresacre.org