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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Carpe diem






Anthero Monteiro
lendo este seu poema
ontem, na sessão das
Quartas Mal Ditas,
no Clube Literário
do Porto (foto A.M.)








aproveita o momento


quando os olhos falam uma língua
que a língua não sabe
quando as mãos seguram o instante
como se fossem avaras de eternidade
quando os ouvidos apenas suportam
a música dos ansiados passos
e há um único aroma que se não repugna
quando o teu sorriso é o reflexo
do sorriso à tua frente
quando as estrelas são todas convocadas
para iluminar o rosto desejado
então é a hora o minuto o segundo
de fechar os olhos e ganhar asas

aproveita o momento

a vida só é curta quando não subimos
o estribo da carruagem que parte
quando ficamos a ver passar todos os comboios
a vida só é aventura quando se busca a ventura
que não tem pés para vir ter connosco
é preciso partir dar as mãos ao inédito
e assumir que quando caminhamos
nem todo o terreno é um pântano assustador
é preciso acreditar

aproveita o momento

porque outros momentos virão
em que nada pode acontecer
porque o tempo resvala inexorável
e o instante seguinte é muito tarde
e pelo menos tão desconhecido quanto este
porque os cabelos encanecem
e as mãos ficam murchas de esperança
e o peito qualquer dia é um assento de pedra
porque só agora é agora e logo o sol já se deitou
e amanhã já perdeste metade dos ensejos

aproveita o momento
e eterniza-o o mais que puderes
aproveita o momento
e dá-lhe as boas vindas
sorri-lhe manda-o entrar
e adormece no seu ombro

Anthero Monteiro (inédito)
S. Paio de Oleiros, 17 de Dezembro 2009

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Poema extra-tema do mês

Poesia aliou-se à Filosofia nas Quartas Mal Ditas












































Imagens da sessão de ontem das Quartas Mal Ditas no Clube Literário do Porto, coordenadas por Anthero Monteiro (Poesia) e Tomás Carneiro (Filosofia).
A sessão foi subordinada ao tema Carpe Diem. Na primeira parte, foram lidos vários poemas sobre o tema pelos elementos da tertúlia. Na segunda parte, foi feito, em permanente debate, o tratamento filosófico do tema e de alguns dos poemas.
Os interlúdios musicais estiveram a cargo dos guitarristas Ricado Gomes e Tiago Sousa.
A sala, como as fotos comprovam, estava apinhada de público, interessado e participativo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Carpe diem

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Meto-me para dentro...






Foto in
cigarranapaisagem.
blogspot.com






Meto-me para dentro e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites,
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


Alberto Caeiro, in Gastão Cruz (selecção), Ao Longe os Barcos de Flores -
Poesia Portuguesa do Século XX, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Pequeno poema sobre o fim do mundo




Foto
Anthero
Monteiro








Quando chegar o fim do mundo,

A abelha estará sobrevoando a espora-de-galo,
O pescador estará consultando a rede brilhante,
Os delfins estarão saltando alegres no mar,
Os pardais estarão a reunir-se sobre o telhado,
A pele da cobra brilhará como sempre.

Quando chegar o fim do mundo,
As mulheres irão para debaixo dos guarda-sóis,
O bêbado adormecerá em algum lugar sobre a relva,
Os verdureiros farão suas vendas gritando,
O barco de vela amarela chegará à ilha,
As violas soarão no ar,
Abrindo a noite estrelada.

Quem esperar raios e trovões
Vai decepcionar-se;
Quem aguardar um sinal e trombetas de anjos,
Nem acreditará que o fim já chegou.

Enquanto o sol e a lua brilharem lá em cima,
Enquanto o insecto visitar a rosa,
Enquanto crianças coradas ainda se alegrarem,
Ninguém acreditará que o fim já chegou.

Até que o velhote grisalho, que poderia ser profeta,
Mas não é profeta, porque o seu trabalho é outro,
Dirá ao amarrar tomates:
Nem haverá um outro fim do mundo.

Czeslaw Milosz


Poeta e ensaísta polaco, nascido em Kédainiai, na Lituânia, em 1911.
Foi Prémio Nobel da Literatura em 1980.
Faleceu em Cracóvia em 2004.

Não é tarde




Foto by
Anaas






O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
---------
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
---------
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão
---------
de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.

José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui, &etc.

Encontro



















Jonathan,
se resolvermos que o céu
é este lugar onde ninguém nos ouve,
quem poderá salvar-nos?
Quanto tempo resistiríamos
sem falar a ninguém deste acontecimento?
Acompanhei com os dedos
o desenho miraculoso do teu lábio,
contornei-lhe as gengivas, bati-lhe no dente escuro
como um cavalo,
um cavalo meu na campina.
Pedi-lhe: faz com tua unha um risco
na minha cara,
o amor da morte instigando-nos
com nunca vista coragem.
Vamos morrer juntos
antes que o corpo alardeie
sua mísera condição.

Agora, Jonathan
neste lugar tão ermo,
neste lugar perfeito.

Adélia Prado, A Faca no Peito, 1988

Escritora brasileira, nascida em 1935 em Divinópolis
- Minas Gerais: «Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis.» (Carlos Drummond de Andrade).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Carpe Diem




Rafael
Sânzio de

Azevedo






Daqui a alguns anos,
todas as novidades serão velhas.

E ainda mais tarde, quando os calendários
marcarem outro século,
e quando esse outro século for velho,
lápides testemunharão nossa passagem,
efémera passagem pelo mundo.

É incrível admitir que este momento,
este instante de agora,
novo, actual, moderno,
será passado um dia...

os últimos modelos de automóvel
(que já hoje raros chamam de automóvel)
e os mais modernos aviões
(que um dia se chamaram aeroplanos),
tudo será futuramente
atracção de museu...

Colhamos (doce ou amargo) o momento presente
antes que ele se torne antigamente...


Rafael Sânzio de Azevedo

Historiador da literatura cearense, crítico, poeta, contista, ficcionista.

Bacanal


Bachus,
Diego
Velásquez,
oil on
canvas,
Museu
do Prado







Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
—Vinhos!.., o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua,
Por decolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu estático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!

Manuel Bandeira

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cada dia sem gozo...

Foto do espectáculo
da última 6.ª feira, dia
13/11, no
Pavi-
lhão Multiusos

de Montalegre, um deslum-
brante hino

à alegria

(Foto A.M.)



Cada dia sem gozo não foi teu:

Foi só durares nele. Quanto vivas

Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que ames, bebas ou sorrias:

Basta o reflexo do sol ido na água

De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas

Seu prazer posto, nenhum dia nega

A natural ventura!

------------

Ricardo Reis, «Outras Odes» in

Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,

Rio de Mouro, Círcuolo de Leitores, 2007

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Instantes










Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito.
Relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria até menos higiénico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos sopa.
Teria mais problemas reais
e menos problemas imaginários.
Eu fui uma destas pessoas que viveu sensata
e produtivamente cada minuto de sua vida.
Claro que tive momentos de alegria
mas, se pudesse voltar a viver
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida,
só de momentos. Não percam o agora.
Eu era um desses
que nunca ia a parte alguma sem um termómetro,
uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva,
um pára-quedas.
Se voltasse a viver viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram,
tenho oitenta e cinco anos,
e sei que estou morrendo...

Nadine Stair

Este poema circulou vários anos atribuído a Jorge Luís Borges, embora não se encontre na sua obra completa. Descobriu-se depois que, afinal, foi escrito por uma escritora norte-americana, mais ou menos desconhecida, chamada Nadine Stair, que o publicou em 1978, oito anos antes da morte, em Genebra,com 86 anos, do célebre escritor invisual argentino.
O poema foi publicado por uma revista argentina atribuído a Jorge Luís Borges, mas a viúva do poeta, Maria Kodama, obrigou-a a rectificar o erro, ainda que só 8 anos depois, após investigações. Kodama acha que o poema não tem valor literário e desvirtua a mensagem da obra de Borges, pois tenta transmitir um sentido da vida completamente materialista, sem nenhuma busca de perfeição espiritual ou inquietação intelectual.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mãos dadas








Foto
José Oliveira











Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade

Hoje é o primeiro dia...










A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebem-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Carpe diem

Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio — nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice

Eu, Rosie, se eu falasse...







Renoir,
Dance at Bougival,
oil on canvas,
1882-1883











Eu, Rosie, se eu falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso
e o que tu sentes
A ponte que nos une — é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira
__________

Nascido em Barcelona, a 20 de Março de 1922, , era filho do jornalista Reinaldo Ferreira, o famoso Repórter X.
Tendo vindo para Moçambique (Lourenço Marques) em fins do ano de 1941 e aqui feito o sétimo ano dos liceus, por lá se conservou, com raras e breves escapadas à Metrópole, até Junho de 1959, data do seu falecimento com um cancro no pulmão.
É autor da letra da célebre canção "Menina dos olhos tristes", cantada por José Afonso.

Com a essência das flores





Ingres,
Le Bain Turc

1862
Pintura a óleo
sobre madeira
(Museu do Louvre)








Com a essência das flores mais coniventes
Na formosura, prepara o banho, Lídia.
Os anos murcham e só no corpo sentes
Quente e fagueira a passagem da vida.

Não digas, céptica, que a carne é vã e passa
Desfeita em sombra, o negro rio. O Orco
Perséfone raptou rendido à graça.
Talvez no além precises do teu corpo.

Estima-o; e à beleza mais demora
Darão os fados na vida passageira.
Tépida a água, rescenda a musgo e a rosa.
De Paros seja o mármore da banheira.

Nua e rosada imerge na carícia
Emoliente da água perfumada,
E as folhas lassas dos membros espreguiça
Como uma humanizada flor aquática.

Não te esqueças porém de no amavio
Da água verter um brando óleo de malvas
Que te aveluda as coxas e mais brilho
Te dá ao polimento das espáduas.

E saindo do banho como a deusa
Sai, das macias ondas, nacarada,
Ergue-te para o amor, estátua de seda
Toda coberta com pérolas de água.

Por fim veste a camisa mais picante;
Com pó de ouro empoa o teu cabelo.
E vai para a alcova onde o teu amante
Te espera radioso e fiel como um espelho.


Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II,
Lisboa, 1993

Carpe Diem (Yellow Generation)

domingo, 8 de novembro de 2009

If...








- - - - - - - - -
with a slight bow
- - - - - - - - - towards Rudy







Se, porventura,
a qualquer ponto do caminho
te surgir o instante de loucura
através do qual te possas libertar
num maravilhoso exercício de alegria
e exaltação

e tu resistas e renuncies

(é preciso, é preciso
aprender a não viver).

Se, casado
e rodeado de filhos,
souberes renunciar ao amor e à aventura
e manter a estabilidade
perante a solicitação de fugires
com a mulher do teu melhor amigo,
ou a extorquires com dor,
a puta ao chulo,
num tinir de copos e móveis partidos
pelo chão do cabaret.

Se, contabilista,
resistires à falsificação da escrita
à tentação da «caixa»;
se, empregado,
souberes oferecer ao patrão
o sorriso e a vénia modelares,
em vez do gesto indecente, descarado,
do gesto português

(é preciso, é preciso
aprender a não viver).

Se, perante o absinto,
o brandy, o gin com água tónica,
o uísque ou a mera aguardente de cana,
optares
pela moderação de um drink ocasional,
numa situação excepcional.

Se, à aventura e ao risco,
opuseres o sossego e a rotina,
se te souberes afeiçoar
à norma certinha, à teia
das relações familiares, sociais,
políticas e administrativas
num respeito deferente
para com a ordem estabelecida
e, ao próprio verso
- ainda uma ilusão de liberdade,
um exercício de íntima alegria
- responderes
com as formas prosaicas convenientes,

então, meu filho, serás um homem
geralmente respeitado e admirado
pelos teus concidadãos.

Entretanto, formulo um obscuro voto
para que, nalguma destas alternativas,
te percas, meu filho, sem remissão.

Rui Knopfli, Memória Consentida,
Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982

Se...





If by Rudyard Kipling

in the Dave Wood Art Gallery
(4umi.com/kipling/if/)






Se tu podes impor a calma, quando aqueles
Que estão ao pé de ti a perdem, censurando
A tua teimosia nobre de a manter.

Se sabes guardar sem ruga e sem cansaço.
Privar com Reis continuando simples,
E na calúnia não recorres à infâmia
Para com arma igual e em fúria responder,
- Mas não aparentar bondade em demasia
Nem presumir de sábio ou pretender
Manifestar excesso de ousadia, -

Se o sonho não fizer de ti um escravo
E a luz do pensamento não andar
Contigo no domínio do exagerado,

Se encaras o triunfo ou a derrota
Serenamente, firme, e reforçado
Na coragem que é necessário ter
Para ver a verdade atraiçoada,
Caluniada, espezinhada, e ainda
Os nossos ideais por terra. - Mas erguê-los
De novo em mais profundos alicerces
E proclamar com alma essa Verdade!

Se perdes tudo quanto amealhaste
E voltas ao princípio sem um ai,
Um lamento, uma lágrima, e sorrindo
Te debruças sobre o coração
Unindo outras reservas à Vontade
Que quer continuar, e prosseguindo
Chegar ao infinito da razão,

Se a multidão te ouvir entusiasmada
E a virtude ficar no seu lugar,
Se amigos e inimigos não conseguem
Ofender-te, e se quantos te procuram
Para estar com o teu esforço não contarem
Uns mais do que outros, - olha-os por igual!,

Se podes preencher esse minuto
Com sessenta segundos de existência
No caminho da vida percorrido
Embora essa existência seja dura
À força das tormentas que a consomem,

Bendita a tua essência, a tua origem
- O Mundo será teu
E tu serás um Homem!

Rudyard Kipling

Versão portuguesa de António Botto
in "Poesia Mais-que-pefeita", A Mar Arte, Coimbra, 1994