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terça-feira, 11 de junho de 2013

E depois?














ah quando chegávamos do ateneu
depois de um filme com a máquina
de projeção no meio da sala
tínhamos que contar tudo a minha mãe
que ficara em casa pois havia sempre muito
que fazer mesmo aos domingos à tarde

e depois? e depois? perguntava ela
e a avó contava-lhe a cena do terrível leão
que se ia aproximando do público apavorado
de fauces hiantes um rugido a atroar
já dentro dos nossos ouvidos
aquele bafo já a envolver-nos
como uma nuvem letal
os dentes já cravados no peito e a fera
a estraçalhar-nos membro a membro
enquanto ela a avó fechava os olhos
numa última prece e eu me atirava
para debaixo das cadeiras e me enovelava
como um bicho de conta inteiriçado de medo

e depois? e depois? era ainda minha mãe
a querer saber mais daquela matiné
e a avó na lentidão de quem carrega
um bornal de anos sofridos lá contava
a outra cena aquela do comboio
que ia engolindo a estação e a paisagem
e a tela e o ateneu e o público e iria fazer
da linha e do lugar um lago de sangue
ela fechara de novo os olhos encomendara-se
à virgem e a todos os santos e eu deixara-me
de novo submergir já incrédulo da salvação

e depois? e depois? voltava a curiosidade
já tolhida de espanto a inquirir da pobre velha
sempre vestida de negro e incapaz de entender
os enigmas da luz e daquela lâmpada de aladino
que ia operando prodígios sobre prodígios
até surgir na tela para nosso sossego a palavra fim  

e depois? e depois?
depois fez-se noite e eu já não vi mais nada


Anthero Monteiro

terça-feira, 1 de março de 2011

Quartas Mal'Ditas: POESIA & CINEMA


Quarta-feira, 2 de março 2011
no Piano-Bar do
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega
-
a habitual sessão mensal das
QUARTAS MAL'DITAS
-
Tema:
POESIA & CINEMA
-
Leituras por:
Amílcar Mendes
Ana Almeida Santos
Anthero Monteiro
António Pinheiro
Cláudia Pinho
Diana Devezas
Luís Carvalho
Mário Vale Lima
Rafael Tormenta
-
Convidada especial:
Cláudia de Sousa Dias
-
Guião/Coordenação:
Anthero Monteiro
-
Comparece, participa, divulga, por favor.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Os 27 filmes de Greta Garbo



27, tem certeza? Não importa.
Para mim são 24. Lembra-me bem.
Conto um por um, de 1926
a 1941, de vida contínua.
De minha vida. De The Torrent a Two-faced woman.
Entre os dois, um abismo
onde aprisionei, para meu gozo, Greta Garbo.
Ou ela me aprisionou?
Será que não houve nada disso?
Alucinação, apenas?
O tempo é imperscrutável. São tudo visões.
Greta Garbo, somente uma visão, e eu sou outra.
Neste sentido nos confundimos,
realizamos a unidade da miragem.
É assim que ela perdura
no passado irretratável e continua no presente,
esfinge andrógina que ri
e não se deixa decifrar.

Contei-os todos: 24 filmes americanos. Meus.
Não me interessam diretores.
Monta Bell, Fred Niblo, Clarence Brown,
nem penso em Edmund Goulding, para mim não existem
Victor Seastrom, Sidney Franklin, John S. Robertson.
Esqueço Jacques Feyder, esqueço Robert Z. Leonard,
de que me serve George Fitzmaurice, não careço
de Rouben Mamoulian e Richard Boleslawski,
para o inferno com George Cukor,
e com ele Lubitsch!
Dela quiseram fazer uma ninfa obediente,
autômato de impulsos programados.
Foram vencidos.
E que farei de seus galãs? Tenho pena
de meros circunstantes entulhando
a rota de alva solidão.
Não vou sequer nomeá-los. Sombras-sombras
que um dia tremularam... se apagando.

Todo o espaço é ocupado por Greta Garbo
na mínima tela dos olhos, na imensa
perspectiva do jovem de 24 anos, e de 24 filmes
a desfilarem até o espectador beirando 40 anos,
que já tem suas razões de descrer e deslembrar
e não deslembra. Sempre a seu lado Greta Garbo.
Caminhamos juntos. Não nos falamos. Não é importante.
Súbdito da Rainha Cristina, atento à voz de contralto
de Ana Christie, espião da espiã Mata Hari,
disfarço-me de groom no Grande Hotel
para conferi-la na intimidade sem véus de bailarina.

Não julgo seus adultérios burgueses
nem me revolta sua morte espatifada contra a árvore
ou sob as rodas da locomotiva.
Sou seu espelho, seu destino.
Faço-me o que ela deseja. As you desire me.
e aprofundo a lição de Pirandello
na ambigüidade do cinema. Que é um filme?

Que é a realidade do real
ou da ficção?
Que é personagem de uma história
mostrada no escuro, sempre variável,
sempre hipótese,
na caleidoscópica identidade da intérprete?

Como posso acreditar em Greta Garbo
nas peles que elegeu
sem nunca se oferecer de todo para mim,
para ninguém?
Enganou-me todo o tempo. Não era mito
como eu pedia. Escorregando entre os dedos
que tentavam fixá-la,
Marguerite Gauthier, Lillie Sterling
Susan Lenox, Rita Cavallini,
Arden Stuart,
Marie Walewska, água, água, múrmura água
deslizante,
máscaras tapando a grande máscara
para sempre invisível.
A vera Greta Garbo não fez os filmes
que lhe atribui minha saudade.
Tudo se passou em pensamento.
Mentem os livros, mentem os arquivos
da ex-poderosa Metro Goldwin Mayer.

Agora estou sozinho com a memória
de que um dia, não importa em sonho,
imaginei, maquinei, vesti, amei Greta Garbo.
E esse dia durou 15 anos.
E nada se passou além do sonho
diante do qual, em torno ao qual, silencioso,
fatalizado,
fui apenas voyeur.

Carlos Drummond de Andrade,
Farewell, Porto, Campo das Letras, 1997

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Couraçado Potemkin



(depois de ver o filme de Eisenstein)

Entre a esquadra que aclama
o couraçado passa.
Depois da fila interminável que se alonga
sobre o molhe recurvo na água parda,
depois do carro de criança
descendo a escadaria,
e da mulher de lunetas que abre a boca em gritos mudos,
o couraçado passa.
A caminho da eternidade. Mas
foi isso há muito tempo, no Mar Negro.

Nos cais do mundo, olhando o horizonte,
as multidões dispersas
esperam ver surgir as chaminés antigas,
aquele bojo de aço e ferro velho.
Como os vermes na carne podre que
os marinheiros não quiseram comer,
acotovelam-se sórdidas na sua miséria,
esperando o couraçado.

Uns morrem, outros vendem-se,
outros conformam-se e esquecem e outros são
assassinados, torturados, presos.
Às vezes a polícia passa entre as multidões,
e leva alguns nos carros celulares.
Mas há sempre outra gente olhando os longes,
a ver se o fumo sobe na distância e vem
trazendo até ao cais o couraçado.

Como ele tarda. Como se demora.
A multidão nem mesmo sonha já
que o couraçado passe
entre a esquadra que aclama.
Apenas, com firmeza, com paciência, aguarda
que o couraçado volte do cruzeiro,
venha atracar no cais.

Mas mesmo que ninguém o aguarde já,
o couraçado há-de chegar. Não há
remédio, fugas, rezas, esconjuros
que possam impedi-lo de atracar.

Há-de vir e virá. Tenho a certeza
como de nada mais. O couraçado
virá e passará
entre a esquadra que o aclama.

Partiu há muito tempo. Era em Odessa,
no Mar Negro. Deu a volta ao mundo.
O mundo é vasto e vário e dividido, e os mares
são largos.
Fechem os olhos,
cerrem fileiras,
o couraçado vem.

São Paulo, 23/12/1961

Jorge de Sena, «Peregrinatio ad Loca Infecta», 1969, in
Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI,
Porto, 2009, Porto Editora

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma imagem de Leda













O cinema é cruel
como um milagre. Nós
sentamo-nos na sala
às escuras pedindo só
ao espaço branco
e vazio que se
mantenha puro. E
de repente apesar disso
fica negro. Não pela
mão que segura
a caneta. Não há
mensagem. Somos nós
aparecendo nus
na margem do rio de
corpo em cruz enquanto
a máquina voa
mais perto. Gritamos
tagarelamos saltiamos e
lavamos o cabelo! É
por nossa oração ou
desejo que isto
acontece? Oh que luz
é esta que firme
nos agarra? Até nossos
membros se apressam
levando à desgraça sob
esse olho branco
como se houvesse verdadeiro
prazer em amar
uma sombra e acariciar
um disfarce!

Frank O’Hara in
Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães,

O Bosque Sagrado, Porto, Gota de Água, 1986

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O pé descalço de Ava Gardner



é
um pesadelo, quando não
é já possível afastá-lo

da memória
embora eu nunca mais tenha ido
ver um filme
com Ava Gardner

depois de uma vez
ter visto como o tecido
se abre

para deixar ver um dedo do pé.
Há coisas piores que os dedos dos pés, eu
sei

mas não há nada que
se possa comparar ao
dedo de Ava Gardner.

Abre-
-se uma cortina e eu
penetro no

sonho louco
de seda da China, plissé, tule
e sandálias

leves arremessadas
para o lado. Ela está descalça!
Mas para onde vai o calor

quando se dissipa?
Que significam os dedos abertos sobre
uma coxa? Quem sofreu o

trágico
acidente, quando ele quis entrar
pela primeira vez e não encontrou a chave que

costumava estar sempre debaixo do tapete, e
quem é aquele que agora jaz
meio nu no corredor

sem sangrar?
Quando saí de vez do cinema
ainda um dedo do pé

mexia.
A memória é um dos lados
o outro, nunca lá chegaremos.

Rolf Dieter Brinkmann,
in Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães,
O Bosque Sagrado, Porto, Gota de Água, 1986

O prazer do cinema



Aos domingos
com o calor da tarde
é quando ao homem apetece
montar a mulher.
Como a casa é pequena,
dá cinco paus ao filho
e manda-o ver o Mickey Rooney.
Ainda a fita não vai a meio
e já o rapaz tem no escuro
quem lhe desaperte a carcela.

Assim começa o prazer do cinema.

Eugénio de Andrade,
in Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães,
O Bosque Sagrado, Porto, Gota de Água, 1986

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fuga










Fugir-te.
Mas não hoje - hoje não.
Tenho de preparar-me
para o galope branco da fuga

Não posso dizer-me: parto agora
e partir, pronto.
Pensando que ia, teria ficado todo para trás

Pouco posso contra o teu universo.
Não sou Bogart, não sou Brando
não lutaria por uma ideia política.
Pouco posso - talvez um verso.
Ontem ainda teria ido a tempo.
Oferecia-te a flor que me pedes desde o início
fingiria gostar de animais
e, claro, iríamos ao cinema.
Devia ter convivido mais com o teu Bogart, com o teu Brando.
Devias ter tido o cuidado de investigar a atitude dos príncipes
as certezas dos guerreiros
mas quando cheguei
já o teu universo estava repleto

E agora posso pouco - nem mesmo um verso
Hoje não. Mas quando puder
partirei no primeiro barco.
Procuro o sítio ínfimo
onde os melros se matam sozinhos.

João Habitualmente, in Animais Antigos

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A evocação do chimpanzé



comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e
entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um
cartucho de amendoins e entraste no cinema, sen
támo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu
cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho
de amendoins, com um ruído exactamente igual ao
meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu
voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quan
do a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de a
mendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de
amendoins no colo. com a mão direita comecei a le
vantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu
levantaste levemente as nádegas do assento. com
esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendo
ins. assim que os amendoins acabaram de se espal
har no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas es
queci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me
caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme
a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro
me de que passei o tempo quase todo até ao inter
valo recolhendo amendoins. todo o tempo tu
não deixaste de suspirar e de gemer, embora esti
vesse apenas a decorrer um documentário sobre
o narciso e nenhum drama comovente. a voz do lo
cutor lembro-me que dizia: «no começo da primave
ra, quando montes e vales acordam do longo sono
de inverno, centenas e centenas de narcisos ele
vam as douradas cabeças em todas as frestas e a
brigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos
portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da
floresta.» isto, como certamente te lembras, foi
antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quan
tas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair
os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu,
de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los
com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da
crítica, era daqueles que se não podem perder.

Alberto Pimenta

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um filme do cómico Chaplin





Café no Boulevard
Saint-Michel - Paris
(Foto in www.
polemikos.com)





A um café do Boulevard Saint-Michel
Chegou um jovem pintor numa chuvosa tarde de Outono.
Bebeu quatro ou cinco cálices de um licor esverdeado
E pôs-se a contar aos ociosos jogadores de bilhar o encontro comovido
Com uma amada de outrora, muito meiga mulher
No momento casada com um rico carniceiro.
«Meus senhores, suplicou, dêem-me depressa, por favor,
O giz que colocam na ponta dos tacos.» Depois, de joelhos,
Tentou com a mão trémula fazer o retrato
Da amada dos dias idos. Mas logo desesperado
Apagou o que fizera, começou de novo,
E de novo parou, e outros traços traçou
Enquanto repetia: «Ainda ontem o sabia».
Clientes tropeçaram, resmungando, nele. O gerente, furioso,
Pegou-o pela gola do casaco e pô-lo no olho da rua. Já no passeio,
Ele abanava a cabeça e ainda perseguia com o giz
os traços fugitivos.

Bertolt Brecht, Poemas,
Lisboa, Editorial Presença, s/d

terça-feira, 12 de outubro de 2010

CINEMA & POESIA na Onda Poética


É já na quinta-feira, dia 14/10, a próxima sessão da ONDA POÉTICA
Aparece na Rua 23 (e não 33...) n.º 271.
Dá-nos a alegria da tua presença no início de mais uma temporada.
Ajuda-nos a transformar esta Onda num pacífico e envolvente tsunámi poético.
Ajuda-nos a perpetuar e a universalizar
a POESIA...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pornocine

Ah, deixem-se de abraços e de beijos,
de grandes planos de frentes e traseiros!
Não se lambam sob a luz cruenta
dos projectores.
Poupem-nos a essas cópulas
tecnicolores.
Na posição de «o missionário», denegrida,
ainda se move muita gente, muita vida.
----

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

A gratificação oral, que põe os olhos
do homem iguais aos do carneiro
mal morto,
é barco balanceiro
que encontra, no cinema, alguns escolhos,
por isso não se pisam os canteiros
ao entrar em tal horto.
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

Das cruas sodomias
pé ante pé a câmara se aproxima.
Por ângulos interessantes,
quase se espiritualizam os amantes.
Bertolucci emprega a margarina
no seu escabroso edificante.
Porém, lambe de mais o filme,
lambe de mais a cria,
e é assim - clássico! - que já está na estante...
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

Mais corajoso - e feio - o Pasolini serve-se
do amor com truculência, verve
e poucas ilusões.
Nele, a fornicação é quase sempre assalto
a privilégios.
Talvez por isso não mandem os colégios
ver as suas sessões...
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

De modo que a câmara aguenta
mais depressa a velatura que a franqueza.
Para que Eros durma em nossa casa
É preciso saber abrir-lhe a cama
E pôr-lhe a mesa...
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana,
eroturismo à portuguesa!
---

Alexandre O'Neill,
Anos 70 Poemas Dispersos,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2005

A lua e Marilyn



Tinha duas faces como a lua
Uma que toda a gente conhece
e outra (a que nunca se vê, a que não reflecte o sol)
e que ninguém (ou quase ninguém) está interessado em conhecer
É esse o teu lado que me fascina
que sempre me fascinou
Pousavas sobre as coisas (uma bicicleta, os lábios de Yves Montand)
como uma borboleta
e não pesavas mais do que isso
e o écran ficava amarelo quando te punhas a sacudir
o pólen que trazias agarrado nas mãos
Eu que sempre gostei de ir ao fundo de tudo
(e acabo por me ficar pela superfície de tudo)
custa-me a entender como é que tu ao passares a língua
pela casca de um fruto carnudo
lhe ficavas logo a conhecer o sabor ácido da polpa

90-60-90…

São essas rigorosamente as medidas do universo
em que te movias
as medidas do pesadelo
que faz com que de manhã o céu acorde com olheiras enormes
e eu todo partido como se tivesse levado uma grande surra
Vejo-te a navegar num mar onde milhares de homens
desaguam desesperadamente
O mar está encapelado
Nem me dou conta que está morta –
Subiram o pano
A sessão da tarde vai começar…
Gostaria de me encontrar depois contigo
num dos manicómios desta cidade
(há vários e vai ser difícil escolher)
Talvez nos pudéssemos dedicar aí a cultivar rosas
amarelas e fragrantes
nos jardins da nossa inconsistência

Jorge de Sousa Braga,

O Poeta Nu, Lisboa, Fenda, 1999

Requiem para Pier Paolo Pasolini












Foto in
o homemquesabiademasiado.blogspot.com


Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa; uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira
página, o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida,
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa a nojenta farsa essa continua.

Eugénio de Andrade

Trabalho todo o dia como um monge...




















Trabalho o dia todo como um monge
e à noite vagueio, como um gato
à cata de amor… Vou sugerir
à Cúria que me santifique.
Com efeito, respondo à mistificação
com a mansidão. Olho com olhos
de imagem os que vão linchar-me.
Observo o meu massacre com a coragem
serena de um sábio. Pareço
sentir ódio, mas escrevo
versos cheios de amor atento.
Estudo a perfídia como um fenómeno
fatal, como se dela não fosse objecto.
Tenho pena dos jovens fascistas,
e aos velhos, que são para mim formas
do mais horrível mal, oponho
apenas a violência da razão.
Passivo como um pássaro que, voando,
tudo vê, e, no seu voo para o céu,
leva no coração a consciência
que não perdoa.

pier paolo pasolini, poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim, 2005

As noites de Casarsa




Os pássaros, presas da existência, cantavam na poeira fina numa trama complicada, incerta, ensurdecedora.

pobres paixões perdidas entre as copas humildes de amoreiras e sabugueiros: e eu como eles nos lugares desertos.

reservados aos puros, aos perdidos, esperava que a noite caísse, que se sentissem em redor os mudos
cheiros a fumo, a miséria alegre que o angelus soasse, velado pelo mistério novo, camponês
no antigo mistério consumado.

foi uma paixão breve. Eram servos aqueles pais e aqueles filhos, tão rudes, para mim, que viviam de religião.

as noites de "casarsa": as suas alegrias austeras eram a monotonia de quem, embora pouco, algo possui

a igreja do meu amor adolescente morrera ao longo dos séculos, e só vivia no antigo e doloroso odor.

Pier Paolo Pasolini, Poesie a Casarse

Na morte de Marilyn




















Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou


Ruy Belo,
Poemas de Ruy Belo ditos por Luís Miguel Cintra,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2.ª ed., 2004

Marilyn










Marilyn Monroe
por
Eve Arnold (1954)
in
escritaseleituraseafins.
blogspot.com



Do mundo antigo e do mundo moderno
permaneceu apenas a beleza, e tu,
pobre irmãzinha menor,
aquela que corre atrás dos irmãos mais velhos,
que ri e chora com eles, para os imitar,
e veste os seus cachecóis,
toca sem ser vista os seus livros, os seus canivetes,
tu irmãzinha mais nova,
aquela beleza que humildemente vestias,
que a tua alma de filha de gente pequena,
nunca soube que possuías,
porque de outro modo nunca teria sido beleza,
desapareceu como ouro pulverizado.

O mundo ensinou-te.
Assim a tua beleza passou a ser dele.
Mas continuavas a ser menina
tola como a antiguidade, cruel como o futuro,
e entre ti e a tua beleza possuída pelo poder
meteu-se toda a estupidez e crueldade do presente.
Tu trazia-la sempre contigo, como um sorriso entre lágrimas.
Impudica por passividade, indecente por obediência.

A obediência requer muitas lágrimas engolidas.
Dar-se aos outros,
olhares demasiado alegres, que pedem piedade.
Desapareceu como uma sombra branca de ouro.
A tua beleza que sobreviveu ao mundo antigo,
exigida pelo mundo futuro,
possuída pelo mundo presente,
transformou-se assim num mal…

Pier Paolo Pasolini
(Tradução de Manuela Vieira)

A Dog's Life - Charlie Chaplin (1919)



1.
Charlie Chaplin, nosso Deus e Senhor, criador de todos
os gags, vendo a nossa rigidez, a nossa militância
nas fileiras do orgulho, enviou-nos o Seu Filho bem
amado, a fim de nos salvar da parvoíce, libertar-nos
da empáfia, pondo à prova a nossa agilidade,
a nossa paciência. Servindo-se de gestos, de cinéticos
enredos, quase sem palavras, Charlot desceu à terra
e pregou pelo exemplo. Assumindo mil disfarces
e parábolas, perseguiu-nos com amor, padeceu no surdo
gelo da nossa indiferença, mostrou-nos com que modos
se suportam os maus tratos, instou-nos a romper
com o barril das enteléquias. Não é um deus de amor,
mas de conflito, o nosso Charlie. Por isso é que
Seu Filho nos soterra sob sacos de centeio, nos derruba
de escadotes, nos atira com tijolos e com tartes,
ananases aguçados; por isso nos abate com tábuas e
martelos, ou nos bole com os nervos nas portas giratórias
dos hotéis. Charlie sabe como a dor nos acrescenta,
sobrepondo novos pisos à morada interior, elevando
o sentimento à dimensão da piedade. Por isso é que
Seu Filho veio a nós, neste século de trevas, disfarçado
de ninguém e decido a instalar a confusão por onde
passa. Pois só da confusão pode nascer a liberdade.

2.
Sabei que Charlot, o nosso Salvador, abomina
sobretudo a servidão. Um só mandamento
exprime a sua doutrina: Não te prendas ao pesado.
Que significa, Não te prendas ao pesado?
Significa: Aceita a mudança e livra-te
de converter em velório o festival dos acidentes.
A vida é uma torrente de oportunidades: moeda
no chão, cigana bonita, perna de presunto,
um par de patins. Atentem nestes exemplos,
concedidos pelo nosso Salvador, e compreendam
que não é nos grandes mas nos pequenos lances
que a vida se joga e se transforma e retribui.
A desmesura é o pecado dos pacóvios.
Se o almoço te trouxe meias-solas, alegra-te
primeiro porque não as roubaste a um mais pobre
do que tu; alegra-te segundo porque foram
de graça, e só o que é de graça tem autêntico
sabor; alegra-te terceiro porque a tarde está de sol,
ou de chuva ou de neve, e nada é importante,
nada é decisivo. Neste circo dos graves,
neste palco rotativo, ri melhor quem ri a fundo
e por mais tempo. Até que a morte, de bigodes
retorcidos, nos apanhe e nos aparte do sorriso,
nos expulse do vestíbulo, nos corra a pontapé,
nos desfaça na cabeça o violino.

José Miguel Silva, in blog Achaques e Remoques

Lana Turner desmaiou!



Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na Califórnia
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Frank O’Hara,
Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço