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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Domingo




Foto in
www.kleine-gallier.de







As vozes das crianças sobem altas no jardim,
Verticalmente e, como as flores,
De várias cores.
O Sol dir-se-ia estar parado e a tarde não ter fim.

Quantas vezes hei visto
Na minha vida este cenário ideal
E sempre igual!

Mas as flores são outras
E as crianças são outras
E nunca é o mesmo dia.

Tudo mudou. Nada mudou.
Tudo se foi. Nada se foi.
Se alguma coisa alguém perdeu,
Esse fui eu.

Cabral do Nascimento, Cancioneiro,
Porto, Editorial Inova, 1976

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A ostra

A ostra, com os peixes conversando,
não teve mão em si que não dissesse:
- Que vida preciosa, a minha! Quem merece
Mais cuidados do que eu? Sabei que mil fulgores
Se me acumulam nas entranhas...
Crio jóias sem par... jóias estranhas...
Numa palavra: pérolas, senhores!

O céu, o mar, os astros,
Solícitos, de rastros,
Vêm ofertar-me as suas cores.
Tenho dentro de mim reflexos diamantinos
E cristalinos... argentinos...
Cintilações... lucilações a esmo,
Enfim, é o mesmo
Que dar à luz o Sol! Talvez melhor, a Lua.

- Ah! (um peixe responde), ouvi dizer
Que até te comem crua!

Cabral do Nascimento, Cancioneiro,
Porto, Editorial Inova, 1976

sábado, 9 de maio de 2009

O relógio




















Cordas, ponteiros, números e tanta
Coisa lá dentro! Finas rodas de aço!
Ao seu comando, débil de cansaço,
Ora a gente se deita, ora levanta.

A voz do tempo! Sossegada canta
Imperturbável, dominando o espaço.
Nova manhã desperta no regaço
Da noite, como surge a flor na planta.

O Passado, o Presente sempre iguais!
O mesmo giro, sempre, sempre... Aquela
Pontualidade que não pára mais!

Já nem te oiço sequer! Nem sinto o mundo!
Vai-se-me a vida sem eu dar por ela...
Um segundo, um segundo, outro segundo...

Cabral do Nascimento, Cancioneiro,
Porto, Editorial Inova,1976

João Cabral do Nascimento, poeta e novelista madeirense, nasceu em 1897 (Sé - Funcahal) e morreu em Lisboa em 1978. Formado em Direito, dedicou-se, todavia, ao ensino.