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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Escafandro





Foto in
plongeur.romandie.com








Fosse eu em ti, dentro de ti, escafandro,
Ao fundo mais fundo do mar sem fundo!
E lá, com léguas d'água sobre mim,
Cortasse o cabo de ligar-me ao ar
Um peixe horrorosamente belo,
Maravilhosamente desconhecido,
Com a sorte divina de nunca ter sido classificado
Pela prosaica sabedoria dos homens.

Fosse eu em ti, dentro de ti, escafandro,
Levando comigo, ao fundo do mar,
Um processo roubado aos sábios do futuro
De já não ser preciso os poetas comerem,
Porque o Sonho possui inesgotáveis vitaminas
E mais oxigénio do que toda a atmosfera.
(Ah! se algum dia a Ciência visse isto,
Acabava de vez com a fome dos pobres.)

Fosse eu em ti, dentro de ti, escafandro,
Iluminado pela incrível fosforescência dos peixes,
No fundo mais fundo do mar sem fundo,
Com léguas e léguas d'água sobre mim,
Sem outro medo que não fosse descobrir
Carcaças de navios torpedeados
Ou idênticas coisas diabólicas
Com que os homens maculam a pureza das águas.

Fosse eu em ti, dentro de ti, escafandro!
(Ah! como eu vejo o belo itinerário
E sinto o espanto e a maravilha dos encontros!)
Fosse eu em ti, já sem memória, já sem nome,
Com gestos e passos de monstro inofensivo,
Ébrio de sonho e solidão,
Anos e anos e anos a andar,
- Eterno «globe-trotter» do fundo do mar!

Carlos Queiroz, Epístola aos Vindouros e Outros Poemas,
Lisboa, Edições Ática, 1989

Ver também neste blogue, o Poema do Homem-Rã, de António Gedeão

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Teatro da boneca

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabia se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.

A boneca.

Carlos Queiroz

Inagem: Jeune fille à la poupée, de Paul Cézanne

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sete vigílias

Mortos: - hoje vocês
Que dizem? Tantas horas sobrepostas
No tempo desta noite! - Duas, três...
Caídas, como coisas a meus pés
- Melhor: como perguntas sem respostas.

Ó mortos, (desculpai-me a ignorância!)
- O vosso tempo não é isto, não?
Se há horas, lá na vossa estância,
Não têm esta vazia ressonância,
Devem soar como um perdão.

Eu nada sei! De mim, tão pouco
É, que pareço o cábula d'outrora
Perante as leis do Código. Nem louco,
Nem homem de juízo. Choco,
Só sei que o tempo me deteriora.

Quanto ao grito que eu tinha para dar
(Esse tal grito meu, tão diferente),
Não chegou a sair, nem voltou a entrar.
Ficou aqui... - É esta falta d'ar
Que o meu espírito sente.

Contudo, em minha vida há paz e graça.
A noite é que a perturba e transfigura:
Põe no ar um mistério que esvoaça
E gera em tudo quanto eu diga, ou faça,
Sinais de morte, acenos de loucura.

E quando o sono tarda (tal e qual
A tão sonhada amada que não vem)
Então, a noite é sobrenatural
Coisa que pousa como num beiral
Que a minh'alma tivesse - que ela tem...

E nela se debruça. E analisa
O que nela se passa - fria, tendo
O ambíguo sorrir da Mona Lisa.
E tudo quanto me sensibiliza,
Fica gelado e horrendo.

Ah! quem me dera o sono dos mendigos,
Já recolhida a derradeira esmola!
Dos soldados, passados os perigos -
Ou dos meninos, quando os inimigos
Vão, de manhã, chamá-los para a escola!

Carlos Queiroz, Epístola aos Vindouros e Outros Poemas,
Lisboa, Edições Ática, 1989

Desenho de Eduardo Malta