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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Cinema












Foto in
leocinemaevideo.
blogspost.com


I

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

III

Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua aquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético,
Braga/Coimbra, Angelus Novus, 1996

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Dunas








Foto A.M.





Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:

«O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem».

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético (Antologia),
Braga, Editora Angelus Novus, 1996

sábado, 11 de outubro de 2008

Estrelas


O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.

Chamo um astrólogo amigo:

«Então?»

«O céu parou. É o fim do mundo».

Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:

«Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão».

Sigo o conselho: e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.


Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Braga-Coimbra, Angelus Novus, 1996