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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

De tarde

Édouard Manet, Le déjeuner sur l'herbe, 1862-63











Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde

Tal como uma tela de Renoir ou este Almoço na Relva, aqui reproduzido, o poema de Cesário Verde aborda o tema do campo relacionado com a simplicidade, a naturalidade, a liberdade e a alegria de viver. Recorde-se que é este poeta quem se antecipa em Portugal para aí introduzir o impressionismo, iniciado em França com a primeira exposição impressionista em Paris de 1874.
A exemplo do que acontece com Manet, ao poeta e à sua sensibilidade plástica interessa mais causar uma impressão de orgia sensorial do que enumerar exaustivamente os objetos e os detalhes.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

De tarde




Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima de uns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda,
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde

Impossível









Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá essa é que eu não caio!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Arrojos

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Cesário
Verde



Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,

Eu domaria o mar que se enfurece

E escalaria as nuvens rendilhadas.


Se ela deixasse, extático e suspenso,
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso

Apagaria o nome das estrelas.


Se aquela que amo mais que a luz do dia,

Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria

O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,

Casando as suas penas com as minhas,

Eu desfaria o Sol como desfaço

As bolas de sabão das criancinhas.


Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,

Eu pararia o curso aos grandes rios

E a terra sob os pés abalaria.


Se aquela por quem já não tenho risos

Me concedesse apenas dois abraços,

Eu subiria aos róseos paraísos

E a Lua afogaria nos meus braços.


Se ela ouvisse os meus cantos moribundos

E os lamentos das cítaras estranhas,

Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.


E se aquela visão da fantasia

Me estreitasse ao peito alvo como arminho,

Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde,
Lisboa, Editorial Minerva, 1975, 12.ª ed.


Quando em 1887, este livro póstumo foi editado por Silva Pinto, ninguém imaginaria decerto que este quase opúsculo, com menos de 50 poemas, fizesse gravar o nome de Cesário Verde (1855-1886) em letras indeléveis nas páginas da nossa Literatura. É simplesmente um dos maiores, e o próprio Fernando Pessoa se rendeu à arte poética deste agricultor.