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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Dois cigarros









Foto
A. M.





Cada noite é a libertação. Contemplam-se os reflexos
no asfalto das avenidas que se abrem luminosas ao vento.
Cada raro transeunte tem um rosto e uma história.
Mas a esta hora deixa de haver cansaço: os milhares de luzes
são todos para quem pára para riscar um fósforo.

A chamazinha apaga-se contra o rosto da mulher
que me pede lume. Apaga-se com o vento
e a mulher, frustrada, pede-me outro,
que também se apaga: a mulher agora ri-se baixinho.
Aqui podemos falar em voz alta e gritar,
que ninguém ouve. Erguemos os olhar
para todas as janelas - olhos apagados que dormem -
e esperamos. A mulher encolhe os ombros
e queixa-se de que perdeu o xaile às cores
que a aquecia à noite. Mas basta apoiar-se
contra a esquina e o vento não é mais do que um sopro.
No asfalto gasto há já uma beata.
Este xaile veio do Rio, diz-me a mulher,
que está contente por tê-lo perdido, pois me encontrou.
Se o xaile veio do Rio, atravessou de noite
o oceano inundado de luzes pelo grande transatlântico.
Noites de vento, sem dúvida. É um presente dum seu marinheiro.
O marinheiro desapareceu. A mulher sussurra-me
que, se for com ela, me mostra o retrato
de caracóis e bronzeado. Viajava em vapores sebentos
e limpava as máquinas: eu sou mais bonito.

No asfalto há duas beatas. Olhamos para o céu:
a janela lá em cima - aponta com o dedo - é a nossa.
Mas lá em cima não há aquecedor. De noite, os navios perdidos
têm poucas luzes ou apenas as estrelas.
Atravessamos o asfalto de braço dado, brincando a aquecer-nos.


Cesare PaveseTrabalhar Cansa, Lisboa, Cotovia, 1998
(Tradução de Carlos Leite)


domingo, 17 de maio de 2009

A estrela da manhã



















O homem só levanta-se quando o mar ainda está escuro
e as estrelas vacilam. Uma tepidez de hálito
eleva-se da margem, onde o mar tem o seu leito
e adoça a respiração. Esta é a hora em que nada
pode acontecer. Até o cachimbo entre os dentes
pende apagado. Nocturno é o marulhar tranquilo.
O homem só acendeu já um grande fogo de ramos
e vê-o avermelhar o terreno. Também o mar
dali a pouco será como o fogo, flamejante.

Não há coisa mais amarga do que a aurora dum dia
em que nada acontecerá. Não há coisa mais amarga

do que a inutilidade.
Pende cansada no céu
uma estrela esverdeada, surpreendida pela madrugada.
Vê o mar ainda escuro e a mancha de fogo
a que o homem, para fazer alguma coisa, se aquece;
vê e cai de sono entre as pardas montanhas
onde há um leito de neve. A lentidão da hora
não tem piedade de quem já nada espera.

Vale a pena que o sol se levante do mar
e o longo dia comece? Amanhã
voltará a cálida aurora com a diáfana luz
e será como ontem e nada mais acontecerá.
O homem só apenas gostaria de dormir.
Quando a última estrela se apaga no céu,
o homem prepara lentamente o cachimbo e acende-o.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa,
Lisboa, Cotovia, 1997

As frases do poema de Pavese, autor também de Ofício de Viver, que tomei a liberdade de colocar a negro, são para mim orientações de vida: obsessões permanentes.

Recomenda-se a leitura do poema seguinte da autoria de Vasco Graça Moura.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Dois cigarros

Cada noite á a libertação. Contemplam-se os reflexos
no asfalto das avenidas que se abrem luminosas ao vento.
Cada raro transeunte tem um rosto e uma história.
Mas a esta hora deixa de haver cansaço: os milhares de luzes
são todos para quem pára para riscar um fósforo.

A chamazinha apaga-se contra o rosto da mulher
que me pede lume. Apaga-se com o vento
e a mulher, frustrada, pede-me outro,
que também se apaga: a mulher agora ri-se baixinho.
Aqui podemos falar em voz alta e gritar,
que ninguém ouve. Erguemos os olhar
para todas as janelas - olhos apagados que dormem -
e esperamos. A mulher encolhe os ombros
e queixa-se de que perdeu o xaile às cores
que a aquecia à noite. Mas basta apoiar-se
contra a esquina e o vento não é mais do que um sopro.
No asfalto gasto há já uma beata.
Este xaile veio do Rio, diz-me a mulher,
que está contente por tê-lo perdido, pois me encontrou.
Se o xaile veio do Rio, atravessou de noite
o oceano inundado de luzes pelo grande transatlântico.
Noites de vento, sem dúvida. É um presente dum seu marinheiro.
O marinheiro desapareceu. A mulher sussurra-me
que, se for com ela, me mostra o retrato
de caracóis e bronzeado. Viajava em vapores sebentos
e limpava as máquinas: eu sou mais bonito.

No asfalto há duas beatas. Olhamos para o céu:
a janela lá em cima - aponta com o dedo - é a nossa.
Mas lá em cima não há aquecedor. De noite, os navios perdidos
têm poucas luzes ou apenas as estrelas.
Atravessamos o asfalto de braço dado, brincando a aquecer-nos.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Lisboa, Cotovia, 1998
(Tradução de Carlos Leite)