Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Bukowski. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Bukowski. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Como uma flor sob a chuva




















cortei a unha do dedo
médio
da mão direita
bem curta
e comecei a esfregar-lhe a racha
enquanto ela sentada na cama
ia pondo creme nos braços
na cara
e nos seios
depois de tomar banho.
então acendeu um cigarro
«continua»,
e foi fumando e foi-se untando
com creme.
continuei a esfregar-lhe a racha.
«queres uma maçã?» perguntei-lhe.
«bom», disse, «tu vais comer uma?»
mas foi a ela que eu comi…
começou a rodar,
depois colocou-se de lado,
ia ficando cada vez mais húmida e abrindo- se
como uma flor sob a chuva.
depois virou-se de boca para baixo
e o seu formosíssimo cu
levantou-se para mim
e eu meti a mão por baixo
até alcançar de novo a racha.
esticou um braço e apanhou-me
a gaita, rodou e virou-se,
montei em cima
fundia-se a cara na mata
de cabelo vermelho
derramada em redor da sua cabeça
e a minha gaita tesa entrou
no milagre.
mais tarde brincamos acerca do creme
e do cigarro e da maçã.
depois fui à rua e comprei frango
e gambas e batatas fritas e bolinhos
e puré e molho
e salada de couve, e comemos, ela disse-me
como lhe soube bem e eu disse-lhe
como me soube bem e comemos
o frango e as gambas e as
batatas fritas e os bolinhos
e o puré e o molho
e até a salada de couve.

Charles Bukowski, 20 poemas
(tradução de Anthero Monteiro)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

3 horas, 16 minutos e 30 segundos











Bukowski in






supõe-se que sou um grande poeta
e tenho sono pela tarde
sei que a morte é um touro gigantesco
disposto a investir contra mim
e tenho sono pela tarde
sei que há guerras e homens que lutam no ringue
sei que há boa comida, bons vinhos, boas mulheres
e tenho sono pela tarde
sei que há uma mulher que me ama
e tenho sono pela tarde,
inclino-me para o sol atrás de uma cortina amarela
e pergunto a mim mesmo para onde terão ido as moscas de verão
recordo a morte tão sangrenta de Hemingway
e tenho sono pela tarde.

virá um dia em que não tenha sono pela tarde
qualquer dia escreverei um poema que incendiará vulcões
lá fora nas colinas
mas agora mesmo tenho sono pela tarde
e alguém me pergunta Bukowsky, que horas são?
e eu respondo 3 horas, 16 minutos e 30 segundos.
sinto-me muito culpado, sinto-me asqueroso, inútil,
demente e tenho sono pela tarde
estão a bombardear igrejas, bem, isso está bem,
as crianças montam em póneis nos parques, isso está bem,
as bibliotecas estão cheias de livros sábios,
há música grandiosa encerrada dentro da rádio
e tenho sono pela tarde,
tenho uma tumba dentro de mim dizendo
bah, deixa que os outros o façam, deixa que os outros ganhem,
deixa-me dormir,

o engenho está às escuras
limpando a escuridão como uma escova,
vou até onde foram as moscas de verão,
tentem apanhar-me.


Charles Bukowski
20 Poemas, Mondadori

(tradução de Antero Monteiro)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Alguém










Charles Bukowski in
www.izdiham.com



oh deus, tinha uma tristeza espantosa
aquela mulher estava ali sentada
e disse-me
você é realmente Carlos Bukowsky?
e eu respondi
deixemos isso
não me sinto bem
tenho uma tremenda tristeza
e a única coisa que me apetece
é dar-te uma queca

ela riu
pensava que eu estava a armar-me em esperto
e eu só olhava para as suas pernas longas delgadas
celestiais
via-lhe o fígado e as entranhas tremendo
via Cristo lá dentro
a dançar um folk-rock.

todas as minhas carências interiores
sublevaram-se
e fui direito a ela
empurrei-a para o sofá
e levantei-lhe o vestido até ao pescoço

queria lá saber
se se tratava de uma violação
ou do fim do mundo.
voltava a estar ali
num sítio
real

sim
os seus trajes íntimos
jaziam por terra.
e a minha gaita entrou, a minha gaita entrou
oh deus, a minha gaita entrou

eu era Carlos
Alguém.


Charles Bukowski, 20 Poemas, Mondadori
(tradução de Anthero Monteiro)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Então queres ser escritor?

Se não sai de ti a arder
apesar de tudo o resto,
não o faças.
a menos que sem quereres saia do teu
coração e da tua mente e da tua boca
e das tuas tripas,
não o faças.
se tens de estar horas sentado
a olhar para o ecrã do computador
ou curvado sobre a
máquina de escrever
à procura de palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes porque queres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens de estar sentado a
reescrever e a reescrever,
não o faças.
Se te cansa só de pensar nisso,
não o faças.
se estás a tentar escrever
imitando alguém,
esquece.
se tens de esperar até que saia de ti
aos berros,
sê paciente.
se nunca sair de ti aos berros,
faz outra coisa qualquer.

se primeiro o tens de ler à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou aos teus pais ou seja lá a quem for,
não estás preparado.

não sejas como tantos escritores,
não sejas como tantos milhares de
pessoas que se julgam escritores,
não sejas monótono e aborrecido e
pretensioso, não te sufoques
com amor próprio.

As bibliotecas do mundo
bocejaram e adormeceram
por causa de tipos como tu.
não os sigas.
não o faças.
a menos que te saia
da alma como um míssil,
a menos que estar parado te
leve à loucura ou
ao suicídio ou ao homicídio,
não o faças.
a menos que o sol que tens dentro de ti
te esteja a queimar as entranhas,
não o faças.

quando chegar o momento,
e se tu foste escolhido,
vai acontecer
por si mesmo e assim continuará
até que morras ou ou que isso morra em ti.

não há alternativa.

e nunca houve.

Charles Bukowski
(tradução de Anthero Monteiro)

Como ser um grande escritor


tens que apanhar muitas mulheres
belas mulheres
e escrever uns tantos poemas de amor decentes

e não te preocupes com a idade
nem com os novos talentos

bebe apenas mais cerveja
cada vez mais cerveja

vai até ao hipódromo
pelo menos uma vez por semana

e ganha nas apostas
se for possível

aprender a ganhar é difícil,
qualquer um pode ser um bom perdedor

e não esqueças o teu Brahms,
o teu Bach
e a tua cerveja.

não sejas exigente contigo
dorme até ao meio-dia

evita os cartões de crédito
ou pagar seja o que for a prazo

lembra-te que não há neste mundo
um pedaço de cu que valha mais do que 50 dólares (isto em 1977)

e se tens capacidade de amar
ama-te a ti mesmo primeiro
mas permanece sempre consciente
da eventualidade de total derrota
seja por boas seja por más razões

um sabor prematuro da morte
não é necessariamente uma coisa má

Fica fora das igrejas e dos bares e dos museus
e sê paciente como a aranha
o tempo é a cruz de todos nós
mais o exílio a derrota e a traição

Fica com a tua cerveja
a cerveja é sangue contínuo
uma amante contínua

agarra numa boa máquina de escrever
e enquanto os passos vão e vêm
para além da tua janela

bate forte bate forte
nessa coisa

faz disso uma luta de pesos pesados
faz como o touro na primeira investida

e recorda os cães velhos
que lutaram de maneira excelente:
Hemingway Céline Dostoievsky Hamsun

Se acreditas que não se tornaram loucos
em minúsculos quartos
como está a acontecer-te agora
sem mulheres
sem comida
sem esperança

então ainda não estás pronto

bebe mais cerveja
há tempo
e se não há
tudo bem na mesma


Charles Bukowski
(tradução de Antero Monteiro)