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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ítaca




Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

Contantino Cavafy, 90 e mais quatro poemas,
Porto, Edições Asa, 2003, 3.ª ed.
Tradução de Jorge de Sena



sábado, 7 de novembro de 2009

A cidade


Imagem de Atenas,
onde Cavafy,
natural de Alexandria,
morreu em 1933
(Foto
Anthero
Monteiro)




Dizes: “Vou-me embora para outras terras, vou-me embora para outro mar.
Existirão outras cidades melhores do que esta.
Todos os meus esforços - estava escrito - foram malogrados
e o meu coração jaz enterrado como um cadáver.
Até quando vai minha alma ficar assim estagnada?
Para onde quer que eu olhe, para onde quer que eu dirija a vista,
o que se vislumbra não é mais que a ruína negra da minha vida,
que anos a fio tratei de estragar e dissipar.”

Não encontrarás novas terras, não encontrarás outro mar.
A tua cidade seguir-te-á. As ruas por onde andares
serão as mesmas. Serão os mesmos os bairros, as casas
onde irão encanecer os teus cabelos.
Chegarás sempre à mesma cidade. Não há esperança
de encontrar um barco ou um caminho para outra terra.
Se esbanjaste a vida aqui neste recanto do mundo,
foi no mundo inteiro que tu a dissipaste.

Constantin Cavafy
(Tradução de Anthero Monteiro)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

À espera dos bárbaros

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O que esperamos nós em multidão no Forum?
Os Bárbaros, que chegam hoje.
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Dentro do Senado, porquê tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis haviam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.
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Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
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Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
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E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis e de esmeraldas magníficas?
E porque levaram hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
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Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
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E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
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Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.
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Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
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Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.
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E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


Constantin Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas,
Coimbra, Centelha, 1986 (trad. de Jorge de Sena)