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terça-feira, 15 de março de 2011

O farnel

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Foto A.M.




No comboio que me levava para longe
fiz esforço para não chorar quando abri o farnel.
Fora feito no dia anterior
em casa, pela minha mãe.
Mastiguei a tristeza, mastiguei
a angústia, mastiguei a vida
mastigando os rissóis.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
Dióspiro, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2007

segunda-feira, 14 de março de 2011

A meu favor














Foto A.M.




Os meses
menos quentes do ano
são aqueles
em que tenho o vento a meu favor.
Há um comboio
que desliza nos trilhos
pela paisagem plana da linha do sul
e eu exclamo: lá vai ele a meu favor.
Vão a meu favor também todas as aves
mesmo as mais novas já têm instruções
dos pais
ou das dominantes dos bandos
para seguir sempre a meu favor

Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
Dióspiro, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2007

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Lanche de domingo



Anthero Monteiro e Daniel Maia-Pinto Rodrigues
nas Quartas Mal Ditas do Clube Lit. do Porto, em Outubro 2008 (Foto Rafael Tormenta)




Dou uma penúltima trinca
no verdadeiro bolo da Teixeira
do aconchegante lanche de domingo.

Já à luz da porta aberta
corrijo as folgas do vestido da mulher,
Afago, um pouco melancólico,
os acobreados cabelos da cunhada
e vou-me embora
fazendo de conta que vou às putas
com o Toni Parolo.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Dióspiro - Poesia Reunida 1977-2007,
V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2007
(título da nossa responsabilidade)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Dióspiro






Foto
Anthero
Monteiro






Depois do almoço
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna
entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho.

É nessa altura que dizemos:
vou comer este dióspiro
antes que apodreça.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
Dióspiro - Poesia Reunida 1977-2007,
V. N. Famalicão, quasi edições, 2007
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"Dióspiro" ou "diospiro"?
Os dicionários registam as duas formas.
Na minha zona prefere-se a segunda.
A palavra provém do grego e significa "fogo de deus".

(Ver, neste blogue, o meu poema "Tentação").

segunda-feira, 23 de março de 2009

À noite





In

www.partecipiamo.it



À noite
à ilharga do tempo
de mãos separadas
olhamos as estrelas.

Perdeste o isqueiro
e estás perturbada.
Tens razão:
deixaste para trás
um qualquer pertence
da realidade.

Hesitas se hás-de regressar
ao seu encontro
mas talvez te percas
exactamente aí
ao regressares.

Olha melhor as estrelas
é noite
e estamos à ilharga do tempo.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Dióspiro,
V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2997

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Gostava que as noites...


Gostava que as noites não me transportassem
ao dia seguinte, gostava que nelas houvesse um trilho,
um atalho que as levasse a um outro tempo.
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Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
Dióspiro - Poesia Reunida 1977-2007,
V. N. Famalicão, quasi edições, 2007
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Poeta convidado para a sessão das Quartas Mal-Ditas de 22/10/08,
a realizar no Clube Literário do Porto.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Um cão ladra...

Um cão ladra ao silêncio
para aumentar a noite.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Dióspiro,
V. N. Famalicão, Quási Edições, 2007