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sexta-feira, 22 de novembro de 2019
ECLIPSE TOTAL

era
quase meio-dia e a professora
mandou-nos
embora que fôssemos
depressa
para casa porque dentro
de meia
hora iria ficar noite cerrada
mas no
caminho para casa ficava o nosso
habitual
estádio um longo carreiro
de
quatro metros de largo
nem
tanto entre dois pinhais
algum
receio tomara conta do coraçãozito
de cada
rapaz o sol começara a empalidecer
ia
decerto desmaiar de chofre por completo
mas uma
pequena bola de trapos começou
a rolar
na congosta e aos pontapés
volvidos
breves minutos já o medo fora
fintado
uma centena de vezes
a bola
já passara repetidamente
os
marcos de pedra
já se
gritara e repetira golo
e como
sempre o sentido de jogo
de cada
equipa mudava aos cinco
para
tudo terminar aos dez
a noite
prometida ficara por um vago
crepúsculo
o sol desmaiado voltara
a si
lentamente não fora o fim do mundo
apenas um
delíquio de alguns minutos
na aula
seguinte explicou-nos a professora
que a
lua se colocara de permeio entre a terra
e o sol
mas houve quem acreditasse
que
fora um astro diminuto a que chamávamos bola
que nos
eclipsara o medo a lua a terra o sol
e o
próprio eclipse
Anthero
Monteiro, 21 novembro 2019
quinta-feira, 20 de junho de 2013
o possesso ("diavolo in corpo")
"diavolo in corpo"
(foto A.M.)
certo dia
boca da noite
do fundo
da cozinha
uma
cadeira decidiu dirigir-se no seu vagar
para a
porta que abria para o quintal
à luz
soturna do candeeiro de petróleo
minha mãe
que passava a ferro
só deu
pelo fenómeno quando uma perna
do errante
animal roçou nas suas
gritos de
terror trespassaram a noite
eram
imprecações esconjuros
invocações
de nomes divinos
persignações
bênçãos maldições
uma fiada
estrídula de incoerências
logo
acorri do lado de fora em seu auxílio
tão
espavorido quanto ela alucinada
trazia
porém na mão a ponta do cordel
que
servira de arreata ao quadrúpede ambulante
um fio
tisnado extraído à cana de um foguete
minha mãe
olhou-me e apesar do desvario
logo
entendeu o porquê do insólito
ao ver
aonde se prendia a outra ponta do barbante
sim tinha
diante de si uma vez mais
o causador
de sobressaltos o sobressalto em pessoa
o diabo o
belzebu o mafarrico o tentador
uma legião
completa de demónios
ensaiei
uma explicação uma desculpa um álibi
mas a voz
jorrou muito de dentro
mais
gutural e cavernosa do que nunca
há muito
minha mãe que nada entendia
das
transformações da infância para a adolescência
acreditava
que essa voz me golfava não da garganta
mas das
fauces infernais que me habitavam
o autor
dessa disfonia era o mesmo
que
trepava como um felino às árvores
e se
enroscava nos ramos mais altos
como a
serpente tentadora do éden
era o
mesmo que voava descalço
sem se
magoar nas pedras soltas da aldeia
e ninguém
conseguia acompanhar
era o
mesmo que só não ganhava
a figura
do inimigo que ela via horrorizada
nas
pagelas de santa gemma galgani
porque
apesar da juvenil idade era já capaz
de
transfigurar-se como qualquer diabo experiente
ela sabia
também que os espíritos malignos
dos
possessos são dificilmente expulsos
apenas
pela oração e pelo chamamento
de deus de
cristo da virgem e dos anjos
e uma boa
bateria de açoites
é sempre
eficaz complemento
exigiu-me
por isso fosse buscar o chicote
reservado
para os superiores corretivos
ora o
chicote nome dado lá em casa
a um
látego de tiras de pneu de bicicleta
tinha-o
enterrado julgava eu que o sepultara
para
sempre debaixo da laranjeira
anjos
caídos não merecem piedade
o
azorrague tinha por força que comparecer
e se o
tinha escondido mais uma razão
para
apanhar dobrado
e
lá foi o dócil diabrete
exumá-lo
do fundo do quintal
sob o luar
e sob a laranjeira
para o
entregar pouco depois
para os
devidos efeitos
à
exorcista lá de casa
escrevo
este poema para esconjurar
de vez a
lembrança de cada chicotada
e nunca me
esquecer
do
maternal amor
Anthero Monteiro
quarta-feira, 19 de junho de 2013
benilde
foi benilde
o seu primeiro grande amor
conheceu-a
na festa de agosto
passeou
com ela de mãos dadas o olhar obcecado
pela
luz que irradiava aquele rosto
mais
grácil e doce do que o da santa do andor
fascinava-o
mais do que todas as ruas ornamentadas
de
chão fragrante das hidrângeas pisadas da procissão
seduzia-o
mais que o carrossel e a pista de carros
e refulgia
mais que o templo engastado
de
mil lâmpadas a realçar-lhe os contornos
viera
de longe com os pais andaram juntos
toda
aquela tarde de verão para ele um braseiro
sobretudo
de deslumbramento até que ela se despediu
até
quando com um beijo inocente à hora em que o sol
disse
também adeus àquele dia rememorável
prometeu
que só adormeceria quando a imagem dela
se
desenhasse nos seus olhos íntimos ela
veio
esplendorosa
e sem estorvo revisitá-lo para fechar-lhe
os
outros olhos e inaugurar um sonho
diferente
tentou
manter bem acordados aquele lume e a febre
daquelas noites em que buscava e rebuscava
reencontrá-la
nos labirintos interiores e trazê-la
bem
nítida à tona clara da consciência
ao
fim de uma semana perdia-se nessa babilónia
ela
escapava-se-lhe jogava às escondidas
escorregava
como um peixe que se apanha
recupera
a água e regressa ao esconderijo do lodo
as
horas escorriam dolorosas negavam-lhe
o
ansiado rosto apenas entrevia efémeros retalhos
lampejos
que eram esgares e mais escárnio
que
assentimento mais zombaria que esperança
o
assombro imbricou na tortura depois na resignação
e
enfim o olvido repôs o equilíbrio
inicial
aquele
estúpido bem-estar de quem já nada anseia
tinham
ambos dez anos e ele pediu em casa
que
o deixassem ir estudar para padre
já
tinha aberto assim o inventário penitencial
com
aquela grande e pungente renúncia
Anthero Monteiro
quinta-feira, 30 de maio de 2013
o promontório
in diebus illis
o infante
tinha um promontório
que se
erigia emproado e orgulhoso
contra as
vagas e os ventos dominantes
era ali
que se sentava apostado
em dilatar
ainda mais os horizontes
pois sonhava
acordado
e à
revelia do velho do restelo
que a ponta
de sagres
se haveria
de retesar
muito para
além de si própria
e assim
fez o infante que até dobrou o cabo
para o
meter no caminho para a índia
mas agora quem
se senta no promontório
é mesmo o
velho do restelo
incapaz de sonhar acordado
decrépito
e sem tesão
está
apenas sentado e logo adormece
com
pesadelos povoados de adamastores
e o
próprio promontório
é incapaz
de se erigir contra as marés
por isso o
velhote em vez de se sentir a existir
só é capaz
de se sentar a desistir
e nos
intervalos do sono e dos pesadelos
recorda o
fausto do passado
aos
infantes incrédulos
o país das
maravilhas é agora
a terra
das maravalhas e dos maravelhos
e há mesmo
quem proponha
que o
promontório
passe a
chamar-se
busílis
Anthero
Monteiro
terça-feira, 7 de maio de 2013
notas para um epitáfio (à maneira de Edgar Lee Masters)
Foto
A.M.
nasci decerto do ventre de um incunábulo
ou do ovo de um livro de asas abertas
como qualquer pássaro sedento de horizontes
os meus livros que fariam uma torre de babel
vazando as nuvens acotovelavam-se lá em casa
por um lugar nas estantes empurravam-se
encavalitavam-se uns sobre os outros
das prateleiras por cima da janela que dá para a rua
debruçavam-se as mais volumosas lombadas
sobre o sítio onde lia ou desenhava
os sulcos dos meus versos
sentado nos autocarros nos comboios
nas dunas nos rochedos ou à sombra das tílias
foi sempre um livro a minha irrevogável testemunha
escrevi livros publiquei livros fundei bibliotecas
vivi entre estantes dois terços da existência
li poemas e histórias para centenas e centenas
a vida foi um espesso tomo dedicado
à leitura à poesia à escrita à bibiofilia
naquela noite sentado no lugar dos meus labores
prosseguia eu a leitura do livro negro do padre dinis
e ali pela página duzentos e trinta e cinco
ouvi alguns ligeiros estalidos que se repetiram
era talvez a traça algum bibliófago a tosar
papel tenrinho mas não fiz caso pois essa
é uma entidade tão invisível quanto deus
alguns parágrafos adiante aquela frase do duque
de cliton: “quando o pressentimento da morte
nos fala muitas vezes não devemos desprezá-lo”
mal virei a página um estrondo de derrocada
sobre a mesa de leitura e o seu ocupante
ainda tentei apanhar a vida mas ela escoou-se
de repente como um peixe dos limos
que nos resvala das mãos
Anthero Monteiro
ou do ovo de um livro de asas abertas
como qualquer pássaro sedento de horizontes
os meus livros que fariam uma torre de babel
vazando as nuvens acotovelavam-se lá em casa
por um lugar nas estantes empurravam-se
encavalitavam-se uns sobre os outros
das prateleiras por cima da janela que dá para a rua
debruçavam-se as mais volumosas lombadas
sobre o sítio onde lia ou desenhava
os sulcos dos meus versos
sentado nos autocarros nos comboios
nas dunas nos rochedos ou à sombra das tílias
foi sempre um livro a minha irrevogável testemunha
escrevi livros publiquei livros fundei bibliotecas
vivi entre estantes dois terços da existência
li poemas e histórias para centenas e centenas
a vida foi um espesso tomo dedicado
à leitura à poesia à escrita à bibiofilia
naquela noite sentado no lugar dos meus labores
prosseguia eu a leitura do livro negro do padre dinis
e ali pela página duzentos e trinta e cinco
ouvi alguns ligeiros estalidos que se repetiram
era talvez a traça algum bibliófago a tosar
papel tenrinho mas não fiz caso pois essa
é uma entidade tão invisível quanto deus
alguns parágrafos adiante aquela frase do duque
de cliton: “quando o pressentimento da morte
nos fala muitas vezes não devemos desprezá-lo”
mal virei a página um estrondo de derrocada
sobre a mesa de leitura e o seu ocupante
ainda tentei apanhar a vida mas ela escoou-se
de repente como um peixe dos limos
que nos resvala das mãos
Anthero Monteiro
(inédito)
segunda-feira, 15 de abril de 2013
questão de espaço
Foto
A.M.
deus existe
impossível esquecer que mo afiançaram
sempre e com vastas provas
sempre e com vastas provas
reside mesmo dizem em toda a parte
e de todos os modos possíveis
em pé sentado de bruços
de braços cruzados deitado
sobre a linha férrea ou a do horizonte
conheço quem atravanque
o céu e a terra só com as pernas
com a voz sábia e irrefutável
com a voz sábia e irrefutável
ou mesmo a dormir ressonando
deus tem reconheço uma enorme vantagem
existe em toda a parte
perubique partout dappertutto everywhere
mas não ocupa espaço nenhum
Anthero
Monteiro
quarta-feira, 3 de abril de 2013
desculpa centopeia
desculpa centopeia era talvez suficiente
calcar-te apenas uma pata
para deixares a parede
onde não ficas bem como obra de arte
mas à razão manietada pelo medo
só lhe resta o recurso à extrema violência
envolve-se num papel a massa informe
de um corpo todo patas todo fuga
e desapareces no gesto de puxar o autoclismo
desapareces mas não a marca da repulsa
no papel de parede não o eco crepitante
da quitina esmagada não o fantasma multípede
que espreita em cada recanto húmido da vida
desculpa centopeia e vê lá se me entendes
era eu inocência e tu malignidade
era eu indefeso e tu eras a insídia
era eu vida borbotando e tu o malefício
a morte subreptícia ameaçando
as defesas do crânio no sono escancaradas
assim me ensinaram as mulheres da casa
para quem eras o maior dos sobressaltos
rapidamente a vítima da vassoura do chinelo
de outro qualquer expediente do arsenal doméstico
de nada vale agora saber do equilíbrio
necessário aos ecossistemas
certo dia e já adolescente ou tu ou uma irmã
miriápode das tuas de súbito irrompeu
do meio do meu livro
de francês
um salto da carteira um grito angustiado
olhou-me a turma atónita sem nada compreender
mas logo o professor o padre rubicundo
desencadeia ali um turbilhão de riso
as-tu peur
d’un mille-pattes mon bébé
foi a noite completa a revolutear no leito
e aquela frase às voltas na cabeça
as-tu peur
d’un mille-pattes mon bébé
e o eco da chacota e outra vez a frase
outro bicho com patas correndo no meu corpo
as tu peur
d’un mille-pattes mon bébé
prometi a mim mesmo que o escárnio
não ficaria impune e a vingança terrível chegaria
no habitual passeio de domingo
um pequeno empurrão e um precipício
nos montes da falperra era o bastante
desculpa centopeia não ter sido capaz
era um tonel repleto de peçonha
e injusto é recair em ti a represália
lá porque tens mil patas cem ou trinta
e aquela exígua fábrica de veneno
no primeiro segmento do teu corpo
pardon pardon mille-pattes
Anthero Monteiro
segunda-feira, 1 de abril de 2013
a cadeira de rodas
vamos
mãezinha eu empurro a cadeira
de rodas
vamos fazer uma longa viagem
até à
varanda que dá para nascente
o sol já
lá canta para saudar-te e um verdilhão
virá
perguntar-te onde tens andado lá do cimo
da grande
japoneira debruçada sobra o tanque
(já não se
lembra decerto do nome da passarada
que
pululava no quintal e que me ensinou a distinguir
verdilhões
pintassilgos carriças chascos cerezinas
cucos andorinhas e lavandiscas sagradas
já nada
lhe diz a história da japoneira secular
onde se
reúnem em concílio as pombas e os pardais)
olha vai
ali mãezinha a filha do antigo sapateiro
que já
morreu há tantos anos ainda te lembras
de que a
oficina era ali do outro lado da rua
será que ainda sabes o nome de alguns dos utensílios
que o pai
dela usava para te fazer ou arranjar o calçado
coser as
gáspeas bater as solas pregar os tacões
(dentro
dela entrou o simum e espalhou um deserto
o silêncio
habita quase sempre este corpo inexpressivo
sabe lá do
senhor angelino sapateiro ou da sua bancada
e ela
outrora sabia e mostrava-me na oficina a turquês
o tripé de
formas os ferros de bornir o martelo
e a pedra
de bater sola a lixa a grosa e a sovela)
pronto não
queres apanhar sol a luz incomoda-te
vamos para
dentro vais ficar ali diante da tv
pode ser
que te distraias um pouco aprendas
algo ainda
e te mantenhas acordada
ou te
acudam à memória algumas lembranças
ou algum
sorriso te aqueça um pouco a alma
(vou ter é
de acender o aquecedor a que ela chama
a caixa de
fogo e esta outra caixa da televisão
não é mais
do que uma janela para o quintal
se vê uma
tourada avisa-me que anda um touro
lá fora
tem cuidado se vê um filme de guerra
o campo de
batalha é logo ali debaixo do limoeiro)
não por
favor não vais adormecer outra vez
espera um
pouco apenas vou trazer-te
cevada e
um pão com geleia ontem gostaste
ah queres
que chegue um pouco para trás
a cadeira
de rodas sim é uma cadeira de rodas
isto
mãezinha não se chama uma carreta
(ontem
reencontrou por acaso a palavra geleia
que deve
ter adoçado um pouco a sua infância
mas a
minha mãe já morreu aliás matou-me repetidamente
depois de
me ressuscitar por momentos com a palavra filho
está morta
por antecipação e quando chama carreta
à cadeira
de rodas está só a dizer-me a minha pobre mãe
que só
falta ir-se embora na carreta funerária)
Anthero Monteiro
quinta-feira, 28 de março de 2013
um estranho na cama
foto
A.M.
aflitíssimo
tocou o telefone pela manhã bem cedo
do outro
lado irrompeu suplicante a voz da mãe
estava um
homem na sua própria cama nunca o vira
não o
conhecia viesse depressa antes que despertasse
saltou para
o volante
fez voar a
máquina
estacou
bruscamente
precipitou-se
no quarto
lá estava
um desconhecido
bem
conhecido afinal
o próprio
pai
o tal que ela
desposara em dia tão sonhado
aquele
cujas feições devia saber de cor
e cujos
lábios bebera vezes impossíveis de contar
aquele que
lhe ensinara a febre do ciúme
o delírio
da espera a labareda estreme do amor
com ele
congeminara e realizara
em dor
pungente e em grito lancinante
o filho
agora ali especado atónito
sem sangue
sem riso e sem lágrimas
reclamara
aquele homem como seu
o mesmo que
agora a ruína galopante
da memória
transfigurara em estranho
e mais que
estranho em perigo iminente
regressou ao
volante
fez voar a
máquina
por
estradas à sorte
quilómetros
sem conta
desvairado
desvairado
buscando
pelas ruas
no
labirinto da vida
o túnel de
regresso
ao útero do
mundo
Anthero
Monteiro
segunda-feira, 25 de março de 2013
obrigado sou feliz
Anthero
Monteiro
em noite de
poesia em
Ovar no bar
Paralelo 38
sou feliz sou feliz não se preocupem
porque hão-de estar sempre a
perguntar
como vou se estou bem se tudo
corre
não há dia que eu não vá para
oeste
não há dia que não corra para a
foz
como todos os rios e não veja
o sol a pôr-se a noite a impor-se
e não sinta as estrelas a
ferverem-me na cabeça
já há gente em demasia a
preocupar-se comigo
e esse é o meu único motivo de
preocupação
saber que tudo existe para o meu bem
desde o senhor presidente da
república
e o primeiro ministro e o segundo
e os demais
todos absorvidos na minha inteira
satisfação
no meu sucesso no meu bem-estar
até aos dezoito ou quarenta e
sete já não sei
partidos políticos apostados em
cuidarem de mim
a fazerem-me chegar promessas de
conforto
e saúde e alegria e a
garantirem-me
que não serei esquecido um único
segundo
pelo menos até ao dia das
eleições
e depois o presidente da câmara e
o da junta
que me asseguram pleno apoio e
solidariedade
e as seguradoras e empresas de
alarmes
a afiançarem-me proteção e
segurança
e os bancos sempre focados no meu
sucesso financeiro
e as múltiplas organizações
internacionais
sempre de olhos fitos na minha realização
e a onu e os americanos e imensos
exércitos
a combaterem pela minha defesa e
sobrevivência
lá longe nos confins da
democracia imposta
e o senhor padre e o senhor bispo
e o senhor papa
e a igreja do sétimo dia e a do
oitavo
que rezam por mim e me garantem a
salvação
e as entidades divinas que me
enviam pombas
ou andorinhas para voarem à minha
frente
nos caminhos das melhores opções
e a ubiquidade do anjo-da-guarda
e dos arrumadores de carros
e da coca-cola e da seven-up e da
danone
que me formatam as linhas do
sorriso
e o euromilhões e o comprimido
azul
e o ácido acetilsalicílico e
muitos outros fármacos
que velam pelos meus sonhos e os
meus delírios
bem sei que a gratidão tem
memória curta e eu não quero
ser ingrato muito obrigado por
tudo o que fizeram
mas também não é preciso exagerar
talvez
eu consiga sorrir sem me fazerem
mimos ou cócegas
e sem me enviarem continuamente
anedotas para ler
a sério não se preocupem não
percam tempo comigo
não venham a toda a hora pé ante
pé ao meu quarto
ver se é sossegado o meu sono
porque é certo
que estou a sonhar com o paraíso
e no deleite dos brandos braços
de eva
estou condenado a ser feliz a ser
feliz a ser feliz
e até o portal das finanças não
deixa de pensar em mim
Anthero Monteiro
05.09.2012
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