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quinta-feira, 21 de março de 2013

dissuasão
















Foto in  www.fotosantesedepois.com 

também já por lá perpassei e não garanto nada
mas sempre que penso nisso logo me ocorre
a história de inocêncio candidato a suicida

foram três anos de abismo entre os 30 e os 33
abeirou-se múltiplas vezes das linhas dos comboios rápidos
subiu à torre dos clérigos para medir com os olhos os 75 metros da queda
debruçou-se na ponte para imaginar-se levado pela torrente
deambulou toda uma manhã sobre um estreito aqueduto
preparou e escondeu um frasco cheio de narcóticos

foi nesse período depressivo de fins de fevereiro
que o seu maior amigo lhe deu a entender
que decidira também suicidar-se
aconselhou-o então a esperar só mais um mês
pois era mais romântico matar-se na primavera
inventou dezenas de argumentos para o demover
e devem ter sido tão sólidos e irrefutáveis
que ele próprio deles se alimentou
acabando por apagar-se apenas aos 103 anos
enquanto dormia e com um sorriso de beatitude

é fácil agora imaginá-lo no reino celeste
a tentar dissuadir alguns dos anjos mais rebeldes
de se precipitarem lá do mais elevado torreão
da eterna monotonia

Anthero Monteiro

terça-feira, 19 de março de 2013

Agora eu sei















Quando eu era petiz da altura de três palmos,
Falava muito alto para parecer um homem
E dizia: eu sei, eu sei, eu sei, eu sei.

Era o começo, era primavera.
Mas quando cheguei aos dezoito
Disse: Eu sei, aí está, desta vez eu sei.

E hoje, nestes dias em que olho para trás,
Vejo a terra em que andei de um lado para o outro
E nem sequer sei como é que ela gira!

Pelos vinte e cinco tudo eu sabia:
O amor, as rosas, a vida, a maquia.
Sim, claro, o amor era algo que eu sabia de cor!

E felizmente, como os meus companheiros, não tinha comido todo o meu pão.
No meio da vida, aprendi ainda.
O que aprendi, isso resume-se a três ou quatro palavras:

“O dia em que alguém te ama, faz muito bom tempo,
Não consigo dizer melhor: faz muito bom tempo.”

É o que me espanta ainda na vida,
A mim, que estou no outono da vida.
Esquecemos tantas noites de amargura
Mas jamais uma manhã de ternura!

Em toda a minha mocidade, quis dizer Eu sei.
Só que, quanto mais em procurava, menos sabia.

Sessenta batidas soaram no relógio,
Continuo à janela, a olhar e a interrogar-me.

Agora eu sei, eu sei que nunca se sabe nada!

A vida, o amor, o dinheiro, os amigos e as rosas…
Nunca se sabe o ruído nem a cor das coisas.
É tudo o que sei! Mas isso sei-o bem!...

Jean  Gabin (ator e cantor francês, 1904/1976),
tradução de Anthero Monteiro

Anos quarenta, os meus















Foto instravelblogspot.com

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavão alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmão
(como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mão)
Salazar três vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.

Luiza Neto Jorge,
Poemas de Luíza Neto Jorge,  ed. Presença

sexta-feira, 15 de março de 2013

Alzheimer










Foto A.M.





estou triste bem órfão de vontade
afogado num mar morto
de lágrimas estéreis
de tão ácidas

só me vale
ter dado conta de súbito
que nem sequer
existo

a mãe que eu julgava
ter-me trazido ao mundo
esqueceu
o meu nome


Anthero Monteiro
Porto, 7 de Maio de 2005

quarta-feira, 13 de março de 2013

Primeiros passos














tudo poderia ter sido como na tela de Millet
mais tarde reinventada a seu modo por Van Gogh
é como se ambos tivessem presenciado a mesma cena
mas de ângulos diversos ou em momentos diferentes
o primeiro sob a luz fosca de uma manhã fria
o segundo no arredar das nuvens para um sol triunfante

o portão do pátio abre para o campo fronteiro à casa
a vedação em tábuas verticais entre ambos os espaços
suporta uma sebe mais baixa e a roupa estendida
cabriolando ao vento sob a fronde das árvores

a mãe junto à saída segura a criança por baixo
dos braços  que se erguem em direção ao pai
este largara a pá e o carro de mão
e ali está acocorado um joelho no solo
de braços também abertos encorajando o encontro

decerto a criança erguerá um pé titubiante
dará um passo em frente e inaugurará assim
o longo caminho de uns três metros
que o levará ao ancoradouro do abraço paterno

também eu terei assim inaugurado o itinerário
pela vida que me trouxe a esta mesa
onde obrigo as palavras a alinharem-se
como pelotões de submissos soldados

o local terá sido idêntico as personagens
terão  sido outras em vez do pai longíquo
a ganhar o futuro na orla de outros mares
talvez o xaile preto e os zelos da avó

como falaria de outro modo do primeiro passo
como evocar o espanto inicial o primeiro olhar
o primeiro balbucio a primeira sílaba
a primeira palavra a primeira surpresa
o primeiro susto a primeira lágrima
a primeira lembrança o primeiro esquecimento

era o tempo da primeira grande amnésia
do que fui do que vi do que vivi
ficando apenas documentados dois ou três
momentos fugidios e talvez sem préstimo
em retratos da fotografia evaristo

se vivemos outra vida terrena anterior
como creem alguns tudo esquecemos bebendo
do rio letes ao entrar no reino das sombras
voltámos a beber da mesma água do esquecimento
antes de regressar à vida  e retomar um corpo
para não trazer connosco reminiscências
do que viram os olhos no mundo subterrâneo

bebemos certamente em demasia dessa água
sulfúrica que ainda nos faz deslembrar os traumas
do eclodir das águas dos gritos da maior dor
da tesoura da separação da chucha omnipresente
dos cueiros mijados do gatinhar pelo chão
dos pés trôpegos e das quedas e dos choros
e de todas as indecorosas figuras do caloiro
que se matriculou na escola da vida
totalmente ignorante e já desmemoriado

Anthero Monteiro

terça-feira, 12 de março de 2013

últimas palavras











Agonia (1915), 
Edvard Munch in
www.dw.de/popups/popup_gallery/pt_edvardmunch.html


quando a morte se insinuou porta adentro
victor hugo afiançou estar a ver uma negra luz
lorde byron observou que chegara a hora de descansar
beethoven declarou que era já tarde
wagner que estava a sentir-se muito mal
mas h. g. wells proferiu apenas i’m all right
darwin asseverou que não sentia o mínimo medo de morrer
e bernard shaw que isso era mais fácil do que escrever uma comédia
cristo afirmou que tudo estava consumado
e freud que tudo aquilo era absurdo

muitos acharam-se ainda merecedores  de um último obséquio
rosalia pediu que abrissem a janela para ver o mar
goethe que deixassem entrar mais luz
mozart que lhe dessem a ouvir uma vez mais os sons da sua alegria
e o conde de mirabeau que pudesse também morrer ao som da música
george washington que não lhe fechassem o corpo num caixão sem terem passado dois dias depois da morte
beethoven que aplaudissem o fim da comédia
mussolini que o seu executor lhe disparasse para o peito
e picasso que bebessem à sua saúde já que ele não podia beber mais

guilherme braga invocou  deus e disse estar a sofrer mesmo com o céu coalhado de estrelas
cromwell agradeceu a chegada da morte pois assim estava salvo
adam smith gritou liberdade para sempre
e voltaire quando o padre lhe pediu que renunciasse a satã replicou que aquela não era boa altura para fazer inimigos

outros só terão soltado um monossílabo ou nada puderam dizer
sansão apenas terá tido tempo para um ui quando o templo desabou sobre ele
sófocles só conseguiu rir com um ataque de alegria
e aretino morreu às gargalhadas
isadora duncan ia a abrir a boca e foi estrangulada com a écharpe presa a uma roda do descapotável
tennessee williams engoliu as palavras com uma tampa de remédio
e anacreonte nada disse porque uma grainha de uva bastou para o calar para sempre

quanto a mim creio ainda estar vivo e ileso apesar de tudo
mas a avaliar pelo que me aconteceu um dia
em situação de morte iminente
não direi nada que seja edificante
lembro-me bem regresso a casa  hora de ponta
ao volante a cem
de repente uns chuviscos
a prudência a aflorar o travão
o carro a guinar à esquerda
através do trânsito em sentido contrário
o abismo ali diante e já
sem tempo para escolher as palavras
saiu-me apenas esta nobre interjeição
fodeu-se

Anthero Monteiro

quinta-feira, 7 de março de 2013

a outra avó













Foto in blogue
"Diário de um demónio 
apaixonado"





vejo-a ainda sempre dobrada para o chão
que teimava em requisitá-la
e devia ser o de uma ilha perdida
assolada por abalos permanentes

vivera sempre do chão arroteando semeando
plantando adubando regando colhendo 
só espreitava os céus para convidar as nuvens
a empapar os regueiros ou o sol
a vir secar o milho ou o feijão na eira

dessas bênçãos dava graças a um deus
providencial todas as noitinhas
à hora em que as trindades se entornavam
como lágrimas pelos camalhões dos campos
e pelas vielas já desertas da aldeia

o peso dos dias sempre iguais
aproximara-lhe a cabeça e os pés
a memória deve ter resvalado para o chão
e deve ter-se perdido em galerias de toupeira

outro nexo nasceu-lhe nos sulcos da cabeça
e parecia apenas recordar-se do futuro
o marido finara-se muito jovem
mas ela que só conhecera  a cor do luto
fazia-nos rir ainda que amargamente
falando amiúde em casar com um belo rapaz
toucada de flores de laranjeira
iguais às do ramo nupcial

pouco depois desposou dona morte
que soube aquietar-lhe aquelas mãos sísmicas
sempre agitadas por um vento gélido
que rondava o seu cadeirão junto à lareira

e antes de lhe fecharem as duas folhas
do ataúde sobre os olhos voltados aos céus
beijei-lhe a fronte lívida feita das pedras do chão

Anthero Monteiro

quarta-feira, 6 de março de 2013

luto









Foto
A.M.





toda a vida conheci minha avó vestida de noite
e ouvia-a dizer tenho o coração como a noite
como se o maior dos tormentos fosse a noite
enfim foram só cinquenta e dois anos de noite
bem se esmerou o sol mas não conseguiu romper a noite

até que um anjo amigo
(nem sei como tão pobre
conseguira amizades na corte celestial)
mandou chamá-la
para a libertar de tamanha viuvez

fizeram-lhe uma veste diáfana
do tecido de uma nuvem branca
e os seus olhos passaram a ver apenas o dia

para isso bastou que ela os fechasse

Anthero Monteiro

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A besta do diretor










Edvard Munch,
O Grito








o diretor era uma besta
é o que dizem este rancor já cansado
este resquício de raiva inútil
este asco há muito diluído
por meio século de distância
ainda que o ódio segundo balzac
seja mais dotado de memória do que o amor

olho estas mãos e nem elas esquecem
que eram naquele tempo dedinhos de ternura
e que se transformavam num ápice
seviciadas pela fúria  do energúmeno
em manápulas desmedidas que mal cabiam
no vão refrigério dos sovacos

quem há de esquecer a brutalidade
exercida sobre a inocência
o escárnio perante a candura
o ardil para surpreender a falta
o sadismo das punições em série
a adolescência ocupada pela arbitrariedade

quem há de esquecer
que era inútil tentar perceber
o porquê das sanções
o permanente demérito do louvor
do sorriso da indulgênca do estímulo

quem há de esquecer
se a recordação se sobrepõe ao ódio
e é um ferrete indelével
na pele do escravo
basta lembrar um claustro a capela
ou a sala do capítulo daquela casa
para logo perceber como ela ficou
para sempre assombrada
pela figura voluminosa do diretor

morreu enfim como morrem
todos os homens e todas as bestas
mesmo as mais paquidérmicas e diluvianas

este é o panegírico possível
quase já despido de ódios, porque a morte
tudo lava e leva
e talvez leve também
esta negra lembrança

mas aqueles corredores  escadarias
salas e dormitórios e todos os meus íntimos 
corredores e recessos continuarão a ser
sobressaltados pelo seu jurássico espetro

Anthero Monteiro

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

104 palmatoadas
















a infância das mãos nuas e dos pés descalços
era atravessada pelo longo aguilhão da impiedade
a frialdade e as frieiras eram chacais mordendo
os dedos e os calcanhares  inverno e primavera

a crueldade arrombava-nos a porta
comia à mesa connosco e deitava-se
na nossa cama com o medo do outro lado
pesava mais que os livros no saco de pano
que levávamos à escola via-nos saltar
de pedra em pedra o riacho da aldeia
e entrava na sala munida da cólera
do raio das férulas e dos flagelos

espirrava escaldante dos erros do ditado
da ladainha da tabuada dos cognomes
dos monarcas do rol interminável dos rios
das serras e das estações dos caminhos de ferro
era contínua ameaça no ponteiro de cana
e na palmatória sempre pronta a saltar da gaveta

hoje a lembrança de tudo isso é entretecida de glória
como a palma do martírio de um santo
que foi estraçalhado membro a membro
mas seria bom ter esquecido que me obrigaram
repetidas vezes a exercer violência
sobre os meus iguais pois era ao melhor
no ditado que se incumbia de punir os erros
uma palmatoada por cada desacerto

lá estava o jorge de mão submissa
cão ganindo sem verter uma lágrima
e eu condoído verdugo a zurzi-lo
com cento e quatro unidades de castigo
tantas quantos os seus desvarios ortográficos

a mestra ia perguntando a outros qual o sujeito
da frase o melhor aluno espanca o jorge
e eu aproveitava para apressar o ritmo das reguadas
tão rápidas e suaves quanto o bater das asas
de uma borboleta mas tinham que ser todas
contadas e ela lá ia conferindo o número
de vez em quando impondo-me outra severidade
sob pena de trocar de lugar aquele sujeito
e aquele  complemento direto

a vingança chegava depois lá fora
no recreio sob a bênção das tílias
as vítimas habituais adulteravam-me o nome  
e batiam-me sem comiseração
defendia-me atirando-lhes pedras  
mas tudo fazia para não lhes acertar

e só assim me ia redimindo
pois era errando ainda que voluntariamente
que o melhor aluno ganhava um rosto mais humano

Anthero Monteiro