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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Foi para ti que criei as rosas









Foto A.M.





Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do loume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
o corpo aberto como os animais

Eugénio de Andrade, «As mãos e os Frutos» in
Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

A rosa mutável







Foto in
www.booksfactory.com




Quando se abre na manhã,
rubra como sangue está.
O orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta à luz do meio-dia
é dura como um coral.
O sol assoma nos vidros
só para a ver fulgurar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar,
e quando a tarde desmaia
nas violetas do mar.
torna-se branca, tão branca
como uma face de sal.
E logo que a noite toca
branco como de metal,
e as estrelas avançam
enquanto se esconde o ar,
no risco fino da sombra
começa-se a desfolhar.

Federico García Lorca, in
Eugénio de Andrade, Poemas de García Lorca,
Porto, Limiar, 1979, 4.ª ed.

Riqueza







Foto A.M.


Tenho a ventura fiel
e a ventura perdida:
uma é qual uma rosa,
e a outra como um espinho.
De tudo o que me roubaram
nunca fui despossuída:
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida,
e estou tão rica de púrpura
como de melancolia.
Ai, como é amada a rosa
e que amante é o espinho!
Como o duplo contorno
dos frutos que gémeos vivem,
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida…

Gabriela Mistral, trad. José Bento in
Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001

Poeta, diplomata e educadora chilena, n. em Vicuña em 1889 e morreu em Nova Iorque em 1957.
Foi Prémeio Nobel da Literatura em 1945.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Rosa rosae










Foto A.M.



Rosa e todas as rimas
Rosa e os perfumes todos
Rosa no florindo espelho
Rosa na brancura branca
Rosa no carmim da hora
Rosa no brinco e pulseira
Rosa no deslumbramento
Rosa no distanciamento
Rosa no que não foi escrito
Rosa no que deixou de ser dito
Rosa... pétala a pétala.
Despetalatirosada.

Carlos Drummond de Andrade

Não será despropositado ouvir a canção "ROSA" de Jacques
Brel, aqui.

Segue o teu destino














Flor colhida neste jardim

que vale a pena visitar:
florescerem.blogspot.com/


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, «Outras Odes» in
Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
Casais de Mem Martins - Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2007

Prefiro rosas, meu amor...








Foto A.M.





Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que fama e que virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença.

Se a auorora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
Aparecem as folhas
E com o outono cessam?
O resto, as outras cousas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis, «Outras Odes» in
Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
Casais de Mem Martins - Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2007

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Arco-íris








Foto A.M.





Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu, desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda policroma de pavão.


Olegário Mariano, Canto da Minha Terra,
Pimenta de Melo, 1930

Nasceu no Recife - Pernambuco em 1889. Morreu no Rio de Janeiro em 1958.
Foi membro da Academia Brasileira de Letras.
Obra extensa, reunida nos dois volumes de Toda Uma Vida de Poesia, Livraria de José Olympio Editora, 1957.

Som e cor






Imagem in
home-and-garden.webshots.com



Alucina-me a cor! A rosa é como a lira,
A lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, cria a flor que não inspira,
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor dalguma flor, que expira...

Há plantas ideais dum cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
Tem notas marciais: soa como um clarim!

Gomes Leal, Claridades do Sul

segunda-feira, 13 de abril de 2009

História de Portugal


Primeiro, um marialva brutamontes chamado Afonso Henriques – que deixou o seu melhor amigo de infância, o Martim Moniz, entalado na porta do castelo com uma bandeira entre os dentes, a ser cortado às postas pelos selvagens dos árabes – e então a mãe, a dona Teresa, achou que aquilo era uma javardice e foi para a genealogia com um espanhol para mudar a árvore.

O filho pregou-lhe um estaladão e disse:

- Em minha casa quem reina sou eu, e agora, só para não te armares em esperta colonial, não há mais incestos ibéricos. E isto é Portugal, e é meu, e vou montar um negócio em Guimarães e já vais ver!

Mas, depois, teve azar, porque descambou toda a gente e apareceram uns sornas duns sanchos que se limitavam a conquistar mais umas assoalhadas indo a torto e a direito para a palha das lezírias com moçoilas alentejanas.

E morreu tudo com sífilis e Sida por falta de higiene e cuidado. E até chegarem ao Algarve foi preciso esperar séculos para os alemães e os ingleses se interessarem pela indústria do ramo.

Entretanto, quem tomou conta disto foi o Dinis – um poeta que não gostava lá muito de mulheres – e perguntou à esposa, a Isabel,

- O que é que levas no regaço?,

e ela disse

- flores, meu senhor.

De facto, eram papoulas de ópio. Então, o marido canonizou-a imediatamente para ela ir praticar a bondade para bem longe de Leiria.

E pronto, por gostar muito de marinheiros, o homem mandou plantar um pinhal que desse madeira para o barco dos rapazes. Mas só muito mais tarde é que o Henrique, o navegador, percebeu e jogada e abriu, na ponta de Sagres, uma casa de putas de luxo, digna desse nome, e que satisfizesse, também, os seus legítimos e promíscuos desejos.

Claro está que, antes de mais nada, foi preciso ensinar aos mancebos a arte de foder sem preconceitos nem limitações. E por outras razões, por exemplo, porque todas as princesas já estavam acasaladas com os anglo-saxões mais dotados e poderosos da comunidade. Parece que por ali era tudo frígido e ninguém tinha filhos varões...

E lá foi a Ponta de Sagres em peso evangelizar o mundo, teimando sem tréguas – com todo o credo e toda a cor – assegurar esta estranha espécie por inseminação artesanal. Mas, como naquela altura, havia outros interesses em jogo, até o machão do Colombo perguntou a um tal D. João II:

- Que segredo têm as vossas naus que vão a todo o lado?

Mas, coitado, o rei respondeu-lhe:

- Se estás tão seguro que a Índia é aí, filho, aproveita o fraquinho que a Católica tem por ti e lhe baralha a geografia. Olha que para descobrir a América no mapa basta um iate emprestado...

É evidente que por cá a coisa não deu certo e a bagunça degenerou num jovem imberbe e paranóico de olhos azuis, o Sebastião. Estando mais ou menos a par da terapia usada pelos seus antepassados, montou um cavalo branco e levou consigo dois galgos persas de trela bem curta.

Foi para Marrocos tentar verificar se aqueles animais eram assim tão bons na planície como rezam as alcovas e convidá-los a fazer outra vez um cerco apertado. Mas o nevoeiro já só metia ou nojo ou saudade.

E este caso, de tão encoberto, acabou por ser arquivado.

Joaquim Castro Caldas

Euforia



















cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que este milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração

dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado – o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca

o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina

a seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-se
na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões

quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete – fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997

Gravitação universal








Pérgola de roseiras
na casa de Monet.


Foto in
givernews.com/?Maison-de-monet/2008/05/27



De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
bebemos e falámos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
de sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
e a tua mão na minha perna. Lá no céu
um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
e as palavras voam em redor de nós
alagadas em suor. E vem o mar.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002

Primavera











Foto A.M.



As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
- Sangue feroz do tempo possuído

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto,
Lisboa, Salamandra, 1985, 6.ª ed.

sábado, 11 de abril de 2009

Quando eu morrer...













Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudade de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes,
Lisboa, Gótica, 2001

Campo de flores









Foto A.M.




Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001

Cantiga






Foto in
carolinaemauriliodaniel.blogspot.com


Flor verde, na botoeira,
Rosa verde - que magia!
A luz desmaia no verde
Da rosa da botoeira...
Rosa verde, poesia!

E o poeta traz a alma
Toda à mostra, pela rua,
Não sei o quê em o dia...
Anda na brisa um desmaio...
Um vago e fresco desmaio...
E a luz desmaia no verde
Da rosa da poesia.

Cristovam Pavia, Poesia,
Lisboa, Moraes Editores, 1982


Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho,nasceu em 1933 em Alcântara, Lisboa, filho do poeta Francisco Bugalho. Viveu a infância em Castelo de Vide, onde também passava as férias escolares. Frequentou Direito em Lisboa,desistindo a favor de Letras (Filologia Germânica), que conclui aindaq que sem ter feito a tese exigida. Fez várias vezes psicoterapia em Heidelberg, onde trabalha na construção civil. A 13 de Outubro de 1968, morre debaixo de um comboio, em Belém, no mesmo dia em que desaparece Manuel Bandeira no Brasil.
Os organizadores do volume Poesia, editado postumamente em 1982, consideram que o seu único livro publicado em vida, em 1959, - 35 Poemas - tem «uma ressonância cabalística de aviso», pois a morte de Cristovam Pavia ocorre pouco depois de ter completado 35 anos.
Esse volume Poesia contém os 35 poemas e muios esparsos e inéditos.

La rosa de las noches




Foto in

cool.altervista.org



Todas las noches de mi vida, hasta el alba,
sin llegar nunca a nadie,
en ciudades distintas, los ojos en acecho,
son una turbia rosa negra.
Se cumple así la sed que concedo a mi carne,
esta difusa espera, que es la fidelidad de mis cansancios,
o el encuentro de alguna luz pequeña que se abate,
tras el furor, en las cansadas sábanas.
Allí donde los cuerpos se nutren de reposo
que no es mortal aún,
en esta hora tan dura
en que la luz es agria, es una ciega rosa blanca.

Todas las noches de mi vida, envejeciendo,
son una infame rosa negra,
son una rosa negra y solitaria,
una encantada y desvalida rosa.
Si volviera a vivir, yo quisiera aspirarla
de nuevo sin piedad,
pues por ella existí, aunque me devorase.

Yo miraba los astros, su hermosura,
y nada aquel espejo reflejó
que a él se asemejase:
sólo la quemadura del vivir,
que aún sin fulgor, yo sé que existe.

Todas las noches de mi vida,
también las que vendrán,
son una iluminada rosa negra,
un secreto esplendor que aún no es ceniza
y nadie puede ver,
y que este ciego roza
lleno de ardor, com las manos tendidas.

Francisco Brines, El Otoño de las Rosas (1986)

Nasceu em Oliva (Valência, Espanha, em 1932. Licenciado em Direito pela Universidade de Salamanca e em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid. Foi leitor de Espanhol na Univ. de Oxford, de 63 a 65. Reside em Madrid e em Valência, com prolongadas estadas no campo, em Elca (Oliva).

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Floriram por engano as rosas bravas






Foto in
cvc.instituto-camoes.pt




Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor –, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha, Clépsidra e Outros Poemas,
Porto, Anagrama, 1980

Excerto de um poema de "Rose Publique"





Foto in
www.guardian.co.uk



(...)
J'ai vu mon meilleur ami
Creuser dans les rues de la ville
Dans toutes les rues de la ville un soir
Le long tunnel de son chagrin
Il offrait à
Toutes les femmes
Une rose privilégiée
Une rose de rosée
Pareille à l'ivresse d'avoir soif
Il les priait humblement
D'accepter
Ce petit myosotis
Une rose étincelante et ridicule
Dans une main pensante
Dans une main en fleur (...)

Paul Eluard, «La Rose Publique» (1934) in Choix de Poèmes,
Paris, Gallimard, 1941

A rosa





Foto in
moodle.apvm.net




Estou aqui! Estou aqui, não pretendi fugir, nunca!
o meu peito é sólido
o meu nome é sólido
o meu céu é sólido
o meu ar é sólido
as minhas dúvidas são sólidas.

Acabei de jantar no Restaurante Chinês e olhei para as minhas mãos
estão inquietas como ontem
tremem como ontem
e ontem tudo foi
inquieto e trémulo como as minhas mãos.

Não há nenhuma flor que resista à beleza da poesia de Paul Éluard
não é meu filho? repetia aquela mãe que eu nunca tive
E eu afirmava afirmava sempre
que nada neste mundo tem a força de uma rosa

oh a minha mãe era bela
todas as mães são belas
e eu só posso chamar-lhes meu amor!

Quando a minha mãe morreu a cidade não tinha sombras
em Abril tinha recomeçado tudo
até as próprias sombras
e eu vesti-me de branco para dar o último beijo a minha mãe

no dia em que me senti pela primeira vez um homem
porque, ao ficar de novo órfão
disse: É preciso ler Paul Éluard! e não
lhe dei simplesmente a minha rosa

Joaquim Pessoa, 125 Poemas – Antologia Poética,
Lisboa, Litexa-Portugal, 1983

Contradições









Foto A.M.




A Sofia foi-se de tesoura em punho à trepadeira
de flores azuis que tudo invade
-------------------------------- e decidiu libertar
a roseira mais próxima desses coleantes abraços
que a asfixiam.
----------------Pronto!
------------------------ concluiu vingadora.
Libertei as nossas pobres rosas!
-------------------------------- Mas viu no chão
as decepadas campainhas azuis
-------------------------------- que choravam em voz alta.
Que mal te fizemos?!
--------------------- gemeram.
-------------------------------- Ingrata! Trepamos por todo
o lado para melhor alegrar os vossos olhos com as nossas
flores azuis! Nosso destino de trepadeira é este:
subir cada vez mais alto!
------------------------- Abraçámos com muito amor
as tuas rosas. De quem a culpa se lhes falta o ar?

Teresa Rita Lopes, Jogos, Versos e Redacções,
Lisboa, Editortial Presença, 2001