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sábado, 18 de outubro de 2008

O firmamento



Glória a Deus! Eis aberto o livro imenso,
O livro do infinito,
Onde em mil letras de fulgor intenso
Seu nome adoro escrito.
Eis do seu tabernáculo corrida
Uma ponta do véu misterioso:
Desprende as asas, retomando a vida,
Alma que anseias pelo eterno gozo!

Estrelas, que brilhais nessas moradas,
Quais são os vossos destinos?
Vós sois, vós sois as lâmpadas sagradas
De seus umbrais divinos.
Pululando do selo omnipotente,
E sumidas por fim na eternidade,
Sois as faíscas do seu carro ardente
A rolar através da imensidade.

E cada qual de vós um astro encerra,
Um sol que apenas vejo,
Monarca d'outros mundos como a terra
Que formam seu cortejo.
Ninguém pode contar-vos: quem pudera
Esses mundos contar a que dais vida,
Escuros para nós qual nossa esfera
Vos é nas trevas da amplidão sumida?

Mas vós perto brilhais, no fundo acesas
Do trono soberano:
Quem vos há-de seguir nas profundezas
Desse infinito oceano?
E quem há-de contar-vos nessas plagas
Que os céus ostentam de brilhante alvura,
Lá onde sua mão sustém as vagas
Dos sóis que um dia romperão na altura?

E tudo outrora na mudez jazia,
Nos véus do frio nada:
Reinava a noite escura; a luz do dia
Era em Deus concentrada.
Ele falou! e as sombras num momento
Se dissiparam na amplidão distante!
Ele falou! e o vasto firmamento
Seu véu de mundos desfraldou ovante!

E tudo despertou, e tudo gira
Imerso em seus fulgores;
E cada mundo é sonorosa lira
Cantando os seus louvores.
Cantai, ó mundos que seu braço impele,
Harpas da criação, fachos do dia,
Cantai louvor universal Àquele,
Que vos sustenta e nos espaços guia!

Terra, globo que geras nas entranhas
Meu ser, o ser humano,
Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas,
E com teu vasto oceano?
Tu és um grão d'areia arrebatado
Por esse imenso turbilhão dos mundos
Em volta de seu trono levantado
Do universo nos seios mais profundos.

E tu, homem, que és tu, ente mesquinho,
Quando soberbo te elevas,
Buscando sem cessar abrir caminho
Por tuas densas trevas!
Que és tu com teus impérios e colossos?
Um átomo sutil, um froixo alento:
Tu vives um instante, e de teus ossos
Só restam cinzas, que sacode o vento.

Mas ah! tu pensas, e o girar dos orbes
À razão encadeias;
Tu pensas, e inspirado em Deus te absorves
Na chama das ideias:
Alegra-te, imortal, que esse alto lume
Não morre em trevas dum jazigo escasso!
Glória a Deus, que num átomo resume
O pensamento que transcende o espaço!

Caminha, ó rei da terra! se inda és pobre
Conquista áureo destino,
E de século em século mais nobre
Eleva a Deus teu hino!
E tu, ó terra, nos floridos mantos
Abriga os filhos que em teu seio geras,
E teu canto d'amor reúne aos cantos
Que a Deus se elevam de milhões d'esferas!

Dizem que já sem forças, moribunda,
Tu vergas decadente:
Oh! não, de tanto Sol que te circunda
Teu Sol inda é fulgente.
Tu és jovem ainda: a cada passo
Tu assistes dum mundo às agonias,
E rolas entretanto nesse espaço
Coberta de perfumes e harmonias.

Mas ai! tu findarás! além cintila
Hoje um astro brilhante;
Amanhã ei-lo treme, ei-lo vacila,
E fenece arquejante:
Quem foi? quem o apagou? foi seu alento
Que extinguiu essa luz já fatigada;
Foram séculos mil, foi um momento
Que a eternidade fez volver ao nada.

Um dia, quem o sabe? um dia ao peso
Dos anos e ruínas,
Tu cairás nesse vulcão aceso
Que teu sol denominas;
E teus irmãos também, esses planetas
Que a mesma vida, a mesma luz inflama,
Atraídos enfim, quais borboletas,
Cairão como tu na mesma chama!

Então, ó Sol, então nesse áureo trono,
Que farás tu ainda,
Monarca solitário, e em abandono,
Com tua glória finda?
Tu findarás também, a fria morte
Alcançará teu carro chamejante:
Ela te segue, e profetiza a sorte
Nessas manchas que toldam teu semblante.

Que são elas? talvez os restos frios
D'algum antigo mundo,
Que inda referve em borbotões sombrios
No teu seio profundo.
Talvez, envolto pouco e pouco a frente
Nas cinzas sepulcrais de cada filho,
Debaixo deles todos de repente
Apagarás teu vacilante brilho.

E as sombras passarão no vasto império
Que teu facho alumia;
Mas que vale de menos um saltério
Dos orbes na harmonia?
Outro sol como tu, outras esferas
Virão no espaço descantar seu hino,
Renovando nos sítios onde imperas
Do sol dos sóis o resplendor divino.

Glória a seu nome! Um dia meditando
Outro céu mais perfeito,
O céu d'agora a seu altivo mando
Talvez caia desfeito.
Então mundos, estrelas, sóis brilhantes,
Qual bando d’águias na amplidão disperso,
Chocando-se em destroços fumegantes,
Desabarão no fundo do universo.

Então a vida, refluindo ao seio
Do foco soberano,
Parará, concentrando-se no meio
Desse infinito oceano;
E, acabado por fim quanto fulgura,
Apenas restarão na imensidade —
O silêncio, aguardando a voz futura,
O trono de Jeová, e a eternidade!
****
Soares de Passos, Poesias,
Porto, Livraria Chardron de Lello & Irmão - Editores, 1984
Foto in blog.uncovering.org
---------------
Este é, sem dúvida, o poema mais belo do romântico Soares de Passos, que o escreveu de algum modo inspirado no Sistema do Mundo de Laplace. Nasceu no Porto a 27 de Novembro de 1826. Diante da sua casa, na Praça Nova, foram erigidas pelos miguelistas, três anos depois, duas forcas onde pereceram, executados, nove liberais. De 1840 a 1845, trabalha ao balcão da drogaria do pai e faz a escrituração da casa.. Entretanto, frequenta aulas de latim e de filosofia elementar e matricula-se, em 1849, na Faculdade de Direito de Coimbra, onde, dois anos volvidos, colabora no jornal de versos Novo Trovador. Colabora, mais tarde, no jornal O Bardo, do Porto, onde publica alguns dos seus mais conhecidos poemas, como a balada do «Noivado do Sepulcro», que viria a tornar-se uma canção popular muito vulgarizada. A publicação do livro Poesias mereceu os melhores encómios de Herculano, que o considerou o sucessor de Garrett.
Sofrendo de tuberculose, tal como acontecia com o seu amigo Júlio Dinis, foi acometido, nos inícios de 1860, por vária hemoptises, acabando por morrer a 8 de Fevereiro, com 33 anos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Gato nocturno


à noite nos beirais

passeia-se a sereia

e a lua violada

sugere cada ideia


jogar à bisca entre os seios da donzela

implantar a anarquia

partir a trela

rasgar os cortinados

pular pela janela

ir cear anjos doces

com canela


José Martins Garcia, in Rui Galvão de Carvalho (prefácio, selecção e notas), Antologia Poética dos Açores, Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1979


Poeta, contista, romancista, dramaturgo, natural da ilha do Pico (1941). Licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. Leccionou Literatura Portuguesa na Brown University, em Providence, Rhode Island (U.S.A). O presente texto é da recolha de poemas intitulada Feldegato Cantabile (1973).

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P'lo menos era o sossego completo... História! era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -
Isto é, p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Paris - Novembro 1915

Mário de Sá Carneiro, «Os últimos poemas de Mário de Sá-Carneiro» in Indícios de Oiro, Sintra, Colares Editora, s/d.
Foto in Orpheu, Vol. 1, Lisboa, Edições Ática, 1971, 2.ª reed.

Este é o meu poema predilecto de toda a literatura: sei-o de cor desde os 15 anos e já o disse em público dezenas de vezes. O título pode parecer estranho, mas o autor explicou, em carta a Fernando Pessoa, que «o estado psicológico de que essa poesia é síntese afigura-se-me em verdade uma verdadeira caranguejola - qualquer coisa a desconjuntar-se, impossível de se manter». De facto, Sá-Carneiro suicidar-se-ia 5 meses depois.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

As minhas noites

As minhas noites são negras,
Negras das insónias,
Dos pensamentos arbóreos
Que se sucedem, saltitantes,
Sem atingir o final.

Negras,
Como negras são as vielas das cidades,
Onde teimam em vaguear
Seres errantes.

As minhas noites
São cor de cinza,
De um cinza desbotado e desfocado,
Como fotos velhas, e recordações...

As minhas noites
São amarelas,
Amarelas como as luzes e letreiros de néon,
Como o ouro sagrado
Das minhas ambições,
Como os pensamentos intensos e febris
Que por vezes dormem comigo no leito.

As minhas noites
São vermelhas,
Vermelhas como os desejos imensos
Encarcerados no peito,
Como o sangue que jorra, que pulsa, que corre!

Nas minhas noites algo vive
Que, à luz do dia,
Morre...

As minhas noites
São ventos
E são marés,
São flores,
São primavera.
Nas minhas noites tudo é
Eterno compasso de espera...

As minhas noites
São risos,
São choros,
Num tempo por desvendar,
São ciclones, turbilhões,
Mistérios por decifrar!

As minhas noites
São sede,
Constante,
Por satisfazer.
E há nelas uma vaga ideia,
Silhueta de mulher...

As minhas noites são lentas,
Absurdas,
Vazias,
Frias,
Até que o sono vier...!

Pensamento enevoado
Que depois se fecha a trancas,
As minhas noites, horas longas,
E nelas as angústias tantas!

As minhas noites são negras...
As minhas noites são brancas!

Luís Filipe Carvalho, Um Outro Olhar,

V. N. Gaia, Corpos Editora, 2003

Com um abraço muito especial para o poeta
e para o companheiro de infinitas noites de poesia,
o excelente diseur que muito aprecio.

Foto A.M.: Luís Carvalho no Púcaro's Bar

The Night Writing

Abrir um caderno (The night writing) e escrever pela noite fora, enquanto não chega o Inverno. Nunca se escreve tudo, nunca se chega ao fim. Agora, que olho os teus olhos, sei como se começa a escrever pela noite fora, como se ouvem os ruídos, como se ouve a respiração. Ao recuperá-la, não se perde de novo, não se adormece sem ouvir essa voz a que sempre se pertenceu. A noite é isto, afinal, chegar e partir, enfrentar as horas, esperar.


Francisco José Viegas, A Noite, o Que É?,
V. N. de Famalicão, Quasi Edições, 2007
Foto A.M.

Sempre a insónia


continuas a atravessar-te no meu sono
e a instilar gotas de vidro nos meus olhos
de que serve pôr-me a contar
inúmeros números inócuos e abstractos
se nada me abstrai dos contornos
que nem a esponja da noite absorve?

os espelhos multiplicam os teus olhos
e os teus olhos vão deflagrando no âmago dos meus
vagaroso cancro que não decide matar-me definitivamente

assisto assim ao silêncio
irmão de todos os teus silêncios
ao afago pungente de umas mãos de sombra
ao bolor que vai esborcinando o teu sorriso
aos ecos do que foi o eco dos teus passos
ao retalhar do burel por traças luminescentes

apuro o olhar
a intrusa afinal é outra
aquela que te sonega
aquela que apenas me traz
a indizível saudade de ti

tu adormecias-me
com o toque ilusionista dos teus dedos
essa outra diverte-se pela noite dentro
a cravar-me alfinetes nas pupilas

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2003

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Insónia


e não esqueço
e não esqueço
e não esqueço

por isso revoluteio
entra-me a dor de permeio
e nem sonhando adormeço

falta-me cantar ainda
teu olhar de angústia e mágoa
essa ânsia que não finda
essa volúpia de água

e sinto que tu só amas
o longe que não atinges
um reino cheio de esfinges
um lago feito de chamas

e vejo que me não vês
que perpassas outra vez
que o teu reino não é este
assim de tédio enfadonho

que tu vives mais a leste
ou a oeste
que interessa
mas que a vida do teu sonho
do teu adejo nocturno
não é essa
não é essa

e não durmo
e não durmo
e não durmo


Anthero Monteiro, Desesperânsia, V. N. Gaia, Corpos Editora, 2003

Um cão ladra...

Um cão ladra ao silêncio
para aumentar a noite.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Dióspiro,
V. N. Famalicão, Quási Edições, 2007

Sete vigílias

Mortos: - hoje vocês
Que dizem? Tantas horas sobrepostas
No tempo desta noite! - Duas, três...
Caídas, como coisas a meus pés
- Melhor: como perguntas sem respostas.

Ó mortos, (desculpai-me a ignorância!)
- O vosso tempo não é isto, não?
Se há horas, lá na vossa estância,
Não têm esta vazia ressonância,
Devem soar como um perdão.

Eu nada sei! De mim, tão pouco
É, que pareço o cábula d'outrora
Perante as leis do Código. Nem louco,
Nem homem de juízo. Choco,
Só sei que o tempo me deteriora.

Quanto ao grito que eu tinha para dar
(Esse tal grito meu, tão diferente),
Não chegou a sair, nem voltou a entrar.
Ficou aqui... - É esta falta d'ar
Que o meu espírito sente.

Contudo, em minha vida há paz e graça.
A noite é que a perturba e transfigura:
Põe no ar um mistério que esvoaça
E gera em tudo quanto eu diga, ou faça,
Sinais de morte, acenos de loucura.

E quando o sono tarda (tal e qual
A tão sonhada amada que não vem)
Então, a noite é sobrenatural
Coisa que pousa como num beiral
Que a minh'alma tivesse - que ela tem...

E nela se debruça. E analisa
O que nela se passa - fria, tendo
O ambíguo sorrir da Mona Lisa.
E tudo quanto me sensibiliza,
Fica gelado e horrendo.

Ah! quem me dera o sono dos mendigos,
Já recolhida a derradeira esmola!
Dos soldados, passados os perigos -
Ou dos meninos, quando os inimigos
Vão, de manhã, chamá-los para a escola!

Carlos Queiroz, Epístola aos Vindouros e Outros Poemas,
Lisboa, Edições Ática, 1989

Desenho de Eduardo Malta

A rival

Se a lua sorrisse seria parecida contigo.
Tu deixas a mesma impressão
Que qualquer coisa bela mas aniquiladora.
Ambos gostam de tomar a luz de empréstimo.
A sua boca em O aflige-se com o mundo; a tua é insensível,

O teu maior dom é transformares tudo em pedra.
Acordo e vejo-me num mausoléu; tu estás aqui,
Os dedos sobre a mesa de mármore, à procura dos cigarros,
Rancoroso como uma mulher, mas não tão nervoso,
E morto por dizer qualquer coisa incontestável.

Também a lua rebaixa os seus súbditos,
Mas à luz do dia nem existe.
As tuas insatisfações, por um lado,
Chegam pela ranhura da caixa do correio com regularidade amorosa,
Brancas e vazias, expansivas como o monóxido de carbono.

Nenhum dia está a salvo das tuas notícias,
Andando por África, talvez, mas a pensar em mim.

Sylvia Plath, Ariel, Lisboa, Relógio d'Água, 1996

Auto-retrato de Sylvia Plath in

O caminho de casa


Volto de noite para casa.
Tudo é memória fora de mim
ou onde em mim alguém conduz
fisicamente o automóvel.

Como não estarei
nem não estarei
em nenhum sítio, voltando
absolutamnte para casa?

Subindo as escadas grave e inocente
como quem volta à noite para casa
e voltando para casa inteiramente
e adormecendo em mim como em casa?

Manuel António Pina, O Caminho de Casa, ed. do autor, 1989

Completas


A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina, O Caminho de Casa, ed. do autor, 1989

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O amor tal qual ele é




vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim

valter hugo mãe, pornografia erudita, Maia, Cosmorama, 2007

Foto: valter hugo mãe na Onda Poética, junto de Rosa Alice Branco.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Oscar Hummel


Foi numa noite de nevoeiro, por volta das nove horas,

poucas estrelas se viam no céu, e eu,

aos esses pela escuridão, tentava orientar-me por elas,

de modo a conseguir chegar a casa.

Mas estava perdido, não percebo como,

pois não me tinha desviado da estrada.

Entrei aos trambolhões por um portão que dava acesso a um pátio

e chamei o mais alto que pude:

«Ó violinista! Ó Sr. Jones!»

(pensei que era a casa dele e que ele me diria o caminho.)

E não é que me aparece o A. D. Blood,

de camisa de noite, a brandir um cajado

e a rugir contra as malditas tabernas

mais os criminosos que nelas se fazem?

«Oscar Hummel, seu bêbado!», disse ele,

enquanto eu cambaleava de um lado para o outro,

recebendo as cacetadas que ele me dava

até que caí morto aos seus pés.


Edgar Lee Masters, Spoon River Uma Antologia, Lisboa, Relógio d'Água, 2003

(tradução e prólogo de José Miguel Silva)


Nasceu em Garnett, Kansas, em 1868. Mudou-se para Petersburg e, mais tarde, para Lewinstown, ambas localidades situadas nas margens do rio Spoon, afluente do Illinois. Spoon River Anthology é uma galeria de retratos-epitáfios de personagens que terá conhecido quando trabalhou como jornalista no Lewinstown News. Morreu em 1950 e, segundo José Miguel Silva, «foi sepultado no cemitério de Petersburg, entre alguns desses mortos a quem tentera insuflar uma segunda alma».

Ode à noite (inteira)


Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).


Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.

Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.

O resto, a vida, fica para outra vez.

Manuel de Freitas, [SIC], Lisboa, Assírio & Alvim, 2002

Insónia


Um dois e três carneiros
saltitam espertos
Mais três como os primeiros
— e eu de olhos abertos…

Sete oito nove dez
fugidos ao seu dono
Já são quarenta pés
— e eu à espera do sono…

Onze bolas de lã
tropeçando à marrada.
Já é quase manhã
— e quanto a dormir nada…

Uma dúzia balindo
(e só sabem balir)
Que rebanho tão lindo
de horas sem dormir!…

Mais cinco dezassete,
mais quatro vinte e um
Esta noite promete
— e eu sem sono nenhum…

Vinte e dois vinte e três…
E mais um par recolho
Já passaram mais dez
— e eu sem pregar olho…

Já lá vão trinta e quatro
se não erro ou não esqueço
Lá vem mais um pacato
— e eu cá não adormeço…

Chega meia centena
a tropeçar na lama
Quem de mim terá pena
sempre às voltas na cama?

Já são oitenta e cinco
mais quinze faz os cem
Eles brincam e eu brinco
sem ter sono também…

Ai se o lobo nocturno
atacasse… — que horror!
Por isso é que não durmo
É que eu sou o pastor…

Anthero Monteiro, A Lia Que Lia Lia, Espinho, Elefante Editores, 1999

Leia-se o que escreveu o crítico literário Serafim Ferreira a propósito deste livro em A Página da Educação:
«Antero Monteiro ou o gosto de escrever para crianças» in

http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=1026

Nocturno


Espírito que passas, quando o vento

Adormece no mar e surge a lua,

Filho esquivo da noite que flutua,

Tu só entendes bem o meu tormento...


Como um canto longínquo - triste e lento -

Que voga e subtilmente se insinua,

Sobre o meu coração, que tumultua,

Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...


A ti confio o sonho em que me leva

Um instinto de luz, rompendo a treva,

Buscando, entre visões, o eterno Bem;


E tu entendes o meu mal sem nome,

A febre do Ideal que me consome,

Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém.


Antero de Quental, Sonetos, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1984


domingo, 12 de outubro de 2008

Nocturno


O desenho redondo do teu seio
tornava-te mais cálida, mais nua,
quando eu pensava nele... Imaginei-o,
à beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
ornar-te o busto de uma renda leve
e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
era um convite lúcido às estrelas...

Imaginei-te assim à beira-mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito...


David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988,
Lisboa, Presença,1996, 2.ª ed.
Óleo s/ tela de Amedeo Modigliani, Reclining Nude: Le Grand Nu, (1919).

A meio da noite

Era na casa a distância do céu
e além do céu silêncio apodrecido
Era no quarto o vazio de um peito
e além do peito um seio intumescido

Era no jardim a marca do vento
e além do vento um verme na memória
Era no meu corpo o afogar do sangue
e além do sangue o ser sem trajectória

Eram na rua passos apressados
e além dos passos beco ou passaporte
Eram mãos invisíveis nos meus dedos
e além das mãos ponto de vida ou morte

Manuela Correia, Poemas Tri Angulares,
Espinho, Elefante Editores, 2002
Foto A.M.

Anoitecer


a noite ser
pois só a noite é verdade
o resto é luz e a luz é capa
de dia tudo nos escapa
julgamos ver
mas quem vê é a claridade

dêem-me a minha treva
inicial
quero estar só comigo mesmo
a luz não me é essencial
e não é ela que me leva:
levo-me eu a esmo

serão caminhos maus
impróprios de um poeta
em horas de duende
mas só me vejo cometa
errante que só o caos
entende

a luz é um preconceito
é peso a mais para ti meu peito
e dói-te

só há uma verdade a sério
o mistério
e haverá maior mistério que a noite?


Anthero Monteiro, Desesperânsia, V. N. Gaia. Corpos Editora, 2003
Foto de Ondina Dominguez