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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Blues da morte de amor






Vasco Graça Moura
in
www.gracamoura.org



já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura, in Inês Pedrosa (org.), Poemas de Amor,

Lisboa, Dom Quixote



segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Presente do indicativo



















entro na cozinha. ela está no meio dos legumes,
lava e enxuga folhas terras de alface, endívias de oblonga contextura, corta a cebola às rodelas, pica um ramo de coentros,
hesita um pouco sobre o roquefort, é certeira no vinagre e no sal,

e prudente no azeite, o ovo cozido espera a sua vez e a
saladeira aguarda na mesa junto aos azulejos brancos.
ela procura os talheres de madeira na gaveta,
pede-me qualquer coisa, a lâmina reluz sobre a tábua, perto do pão.
a preparação da salada requer vários gestos precisos

e uma poética discreta nos brilhos frisados, nos
paladares, pela janela chegam os ruídos da rua,
campainhas de bicicleta, ressaltos de uma bola.
o cão dormita no sofã. Uns versos populares comparam
os olhos dela a azeitonas pretas.

Vasco Graça Moura, Poesia 1963-1995,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2001

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

da vida humana 1

dizem que vais nascer; que há métodos de
determinar-te o sexo. que a tua mãe deseja
respirar o teu sopro, tua mobilidade,
teu mamar; tirar o teu retrato.

para quê prever-te o nome ou preparar
roupas rendadas? ninguém há-de cumprir-te
que te cumpras, e tentarão salvar-te a alma
com água e óleo e sal.

virás a amar alguém? a adoecer
apesar das vacinas? a sentar-te
nas margens do real a contemplá-lo
tristemente? jogarás à bola, ao pião,

mais tarde ao sete e meio?
para quê ser loquaz do teu futuro?

Vasco Graça Moura, Poesia 1963-1995,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2001

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O poeta é um figurador

o poeta é um figurador, não
consta que fernando conhecesse varão (de
ling. lat., 6, 78:
fictor cum dicit fingo figuram imponit)
e a paisagem de alma: uma convenção
retórica

porque a leitura do efémero transcende
sua minúcias próprias, (e ele)
se torna retórica

e a circunstância: um travelling
palíndromo, nestes desvios
a razão se
perde

Vasco Graça Moura, «Recitativos (1977)» in Poesia 1963-1995,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2001