segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Lana Turner desmaiou!
Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na Califórnia
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te
Frank O’Hara,
Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço
domingo, 10 de outubro de 2010
A tuberculose da alegria
- - - - - - - - - À Vanessa Redgrave (depois de ver o filme Isadora)
Ah! Vanessa, os teus seios, os teus seios
minúsculas e mágicas laranjas
atravessaram a sala do Coliseu
encheram todas as bocas
foram suspensos nos sorrisos
para casa de toda a gente.
Deixa-me dizer-te que enquanto dançavas
dançavas, dançavas e as pessoas adormeciam
eu vi-te em convulsões de desejo
a lamberes com o corpo
o pénis da poesia.
E vi a cópula desesperada e violenta
e aquela seiva doce e quente
a escorrer-te pele boca, pelos seios
pelas coxas magras esqueléticas
e… ah! grande puta
ainda tiveste forças para te masturbares
com a batuta do camarada Stravinsky.
Talvez pensasses que não te pudessem ver
mas eu vi tudo, juro que vi
por isso continuaste tempo fora
a dançar dentro de mim
essa música de musgo e carne e pele
a que eu gosto de chamar
a tuberculose da alegria.
Álvaro Magalhães,
Entre Uma Morte e Outra
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Cena de um filme talvez para Truffaut

Beethoven está sentado de cabeça levemente inclinada para os joelhos.
Os pares aristocráticos dançam.
O príncipe X olha repetidamente a figura
gloriosamente apagada do artista.
Com desdém.
Profere palavras que Beethoven não ouve mas entende.
Os pares olham furtivamente.
Beethoven levanta-se de súbito e avança, lento,
os olhos dominados por um fulgor único,
capaz de derreter toda a banha orgulhosa dos príncipes da Terra.
Silêncio aterrado.
Beethoven, calmo e possuído do seu Espírito Santo,
diz, em voz baixa, firme, sem demagogia:
PRÍNCIPES, HOUVE, HÁ E HAVERÁ MUITOS.
BEETHOVEN HÁ SÓ UM.
O salão despeja-se, lentamente.
Beethoven emborca três copos seguidos.
Levi Condinho, Roteiro Cego
Como num filme

Foto in
omundoeumblog.
blogspot.com
uma mulher com seus passos sonâmbulos
numa rua deserta de lisboa,
tendo, como num filme, a lua a modelá-la,
a acetinar um halo em sua pele
de calcário e centeio e a alucinar a noite
entre cheiros de sombra e lúcia-lima,
quando de uma janela se entreabriam
espumas de uma música impossível,
circunstâncias anódinas impressas
algures na alma, rimando e desrimando.
era helena de tróia, briseida, pentesileia,
uma figura do desejo outra vez iluminada,
causadora de mortes, cóleras, poemas,
tumultos da paixão, no último olhar?
houve sempre uma voz rouca e abandonada
para falar de vida e desespero,
num blues, num fado, num tango, num flamenco,
por esquinas e bares, é quando fumo e álcool
têm um travo certeiro na garganta
e os olhos um fulgor líquido intenso.
é quando a solidão se encorpa nas palavras
e as palavras se encadeiam no destino
e o destino infeliz pode cantar-se então
e as metáforas têm um rumor de rosas enlouquecidas.
Vasco Graça Moura, Poesia 1997 – 2000,
Círculo de Leitores, 2001
Balada do amor através das idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Cinema

Foto in
leocinemaevideo.
blogspost.com
I
O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.
II
A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.
III
Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua aquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.
Carlos de Oliveira, Trabalho Poético,
Braga/Coimbra, Angelus Novus, 1996
Humphrey Bogart
Era a cara que tinha e foi-se embora
mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
devassa-nos dá nome mesmo à mágoa.
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
não é verdade meu irmão humphrey bogart?
Ruy Belo, Homem de Palavra(s)

