domingo, 24 de outubro de 2010

Deficiência













os pais inconsoláveis
a família inundada de mágoa
o recém-nascido alvo do espanto dos vizinhos
que vêm espreitar o fenómeno

o parto decorreu sem problemas
mas a criança saiu afinal
com defeito de fabrico

cabeça dotada de um sorriso inteligente
tronco escorreito
articulações eficientes

apenas os dedos
os pobres dedos das mãos
não trazem consigo
o habitual
tele-
móvel

Anthero Monteiro (inédito)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A janela



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Foto in
http://www.faraonepvc.com/


Todos os dias na rua
defronte de uma janela.
Que barbaridade a tua,
porque não chegas a ela?
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O quente sol no horizonte
com todo o peso d'agosto
e eu na rua e eu defronte
da tua janela posto.
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Dezembro, o mês inclemente,
o sangue nas veias gela,
e eu na rua e eu em frente,
em frente dessa janela.
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Sempre esta ideia constante!
Ah! meu Deus! Se hoje a visse...
Se ao menos um só instante
a janela hoje se abrisse...
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E nunca se abre, Senhor!
Abrem-se os lábios num riso;
o botão abre-se em flor;
abre-se o teu paraíso;
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abre o seu cálice a rosa;
Abre-se o mar tão profundo:
só tu, janela teimosa,
nunca te abriste um segundo.
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Pois fica sempre fechada
como a noite mais escura,
como a alma condenada,
como negra sepultura.
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Mas o que estou a dizer?
Meu Deus, meu Deus, o que disse!
Ai, que infinito prazer
se a janela hoje se abrisse!
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Guilherme Braga,
in Correio da Feira, 22/o1/1919

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dia da Mãe


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Gustav Klimt,
Mother and Child


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mãe.
por dentro da mãe o filho habita o mundo, por fora
um sorriso alto, caminhos de sangue.
e eu penso que o nada pode ser outra coisa.
esse azul coagulado no trono de uma reticência etérea,
que se debruça por onde o leite da linguagem
enche um copo. pelas aves envio
o silêncio em pedra. onde os lugares ardem
no seu movimento impossível. construo
a morte que espreita pela própria agonia
e flores, as doces flores que se abrem
até ao centro da estufa do seu umbigo.
seu sonho delicado em círculo, mãe,
consagrando a fala lírica que se funde
em sílabas novas. sem direcções impressas.
e eu penso que o nada pode ser outra coisa.
e eu dei-te nadas no espírito de outra coisa.

Sylvia Beirute
in Uma Casa em Beirute

http://networkedblogs.com/9fOav

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A evocação do chimpanzé



comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e
entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um
cartucho de amendoins e entraste no cinema, sen
támo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu
cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho
de amendoins, com um ruído exactamente igual ao
meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu
voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quan
do a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de a
mendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de
amendoins no colo. com a mão direita comecei a le
vantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu
levantaste levemente as nádegas do assento. com
esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendo
ins. assim que os amendoins acabaram de se espal
har no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas es
queci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me
caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme
a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro
me de que passei o tempo quase todo até ao inter
valo recolhendo amendoins. todo o tempo tu
não deixaste de suspirar e de gemer, embora esti
vesse apenas a decorrer um documentário sobre
o narciso e nenhum drama comovente. a voz do lo
cutor lembro-me que dizia: «no começo da primave
ra, quando montes e vales acordam do longo sono
de inverno, centenas e centenas de narcisos ele
vam as douradas cabeças em todas as frestas e a
brigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos
portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da
floresta.» isto, como certamente te lembras, foi
antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quan
tas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair
os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu,
de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los
com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da
crítica, era daqueles que se não podem perder.

Alberto Pimenta

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um filme do cómico Chaplin





Café no Boulevard
Saint-Michel - Paris
(Foto in www.
polemikos.com)





A um café do Boulevard Saint-Michel
Chegou um jovem pintor numa chuvosa tarde de Outono.
Bebeu quatro ou cinco cálices de um licor esverdeado
E pôs-se a contar aos ociosos jogadores de bilhar o encontro comovido
Com uma amada de outrora, muito meiga mulher
No momento casada com um rico carniceiro.
«Meus senhores, suplicou, dêem-me depressa, por favor,
O giz que colocam na ponta dos tacos.» Depois, de joelhos,
Tentou com a mão trémula fazer o retrato
Da amada dos dias idos. Mas logo desesperado
Apagou o que fizera, começou de novo,
E de novo parou, e outros traços traçou
Enquanto repetia: «Ainda ontem o sabia».
Clientes tropeçaram, resmungando, nele. O gerente, furioso,
Pegou-o pela gola do casaco e pô-lo no olho da rua. Já no passeio,
Ele abanava a cabeça e ainda perseguia com o giz
os traços fugitivos.

Bertolt Brecht, Poemas,
Lisboa, Editorial Presença, s/d

terça-feira, 12 de outubro de 2010

CINEMA & POESIA na Onda Poética


É já na quinta-feira, dia 14/10, a próxima sessão da ONDA POÉTICA
Aparece na Rua 23 (e não 33...) n.º 271.
Dá-nos a alegria da tua presença no início de mais uma temporada.
Ajuda-nos a transformar esta Onda num pacífico e envolvente tsunámi poético.
Ajuda-nos a perpetuar e a universalizar
a POESIA...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pornocine

Ah, deixem-se de abraços e de beijos,
de grandes planos de frentes e traseiros!
Não se lambam sob a luz cruenta
dos projectores.
Poupem-nos a essas cópulas
tecnicolores.
Na posição de «o missionário», denegrida,
ainda se move muita gente, muita vida.
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
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A gratificação oral, que põe os olhos
do homem iguais aos do carneiro
mal morto,
é barco balanceiro
que encontra, no cinema, alguns escolhos,
por isso não se pisam os canteiros
ao entrar em tal horto.
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
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Das cruas sodomias
pé ante pé a câmara se aproxima.
Por ângulos interessantes,
quase se espiritualizam os amantes.
Bertolucci emprega a margarina
no seu escabroso edificante.
Porém, lambe de mais o filme,
lambe de mais a cria,
e é assim - clássico! - que já está na estante...
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
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Mais corajoso - e feio - o Pasolini serve-se
do amor com truculência, verve
e poucas ilusões.
Nele, a fornicação é quase sempre assalto
a privilégios.
Talvez por isso não mandem os colégios
ver as suas sessões...
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
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De modo que a câmara aguenta
mais depressa a velatura que a franqueza.
Para que Eros durma em nossa casa
É preciso saber abrir-lhe a cama
E pôr-lhe a mesa...
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana,
eroturismo à portuguesa!
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Alexandre O'Neill,
Anos 70 Poemas Dispersos,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2005