quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Cruzamentos



















Tenho saudades da chuva
do meu Largo da Carvalha. Uma chuva
cinzenta e mole que abria longos riachos no meu peito de ansiedade
Tenho saudades do vento
do meu Largo da Carvalha. Um vento
agreste e serrano que agitava os plátanos
fazendo estremecer as folhas amarelecidas
no meu quintal de ternuras.
Tenho saudades das noites
do meu Largo da Carvalha. Noites passadas á mingua
de um abraço amigo e forte
noites de antigas vizinhas que me diziam
menina toma cuidado com os outros porque
tu és diferente e eles não gostam dos diferentes
histórias de lobisomem
cantigas do São João
rezas no adro da Sé.
Tenho saudades dos dias do outro lado do mar
dias de areia e de espuma a salpicarem-me o rosto
dias de barco sem cais nos escaleres da vida
dias de longe e de perto
a cruzarem o meu destino mestiço
entre as tílias do Rossio
e a ilha do chocolate.

Olinda Beja

Olinda Beja nasceu em Guadalupe - São Tomé e Príncipe, a 12 de Fevereiro de 1946. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade do Porto, sendo actualmente professora do ensino secundário. A sua obra tem incidido principalmente sobre temas africanos, com títulos como Bô Tendê (poesia), Leve, Leve (poesia), Quinze Dias de Regresso (romance), No país do Tchiloli (poesia) e Pingos de Chuva (ficção) em que a presença da sua Mãe África é profunda e plena de sentir...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Chove









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Foto: A. M.



A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Ana Cristina César,
Inéditos e Dispersos

Chuva na Hauptstrasse










Hotel Schöneberg







Enrodilhados neste disforme
edredão de penas, sofre-se o conceito
germânico de leito, ouvindo chegar
um Junho humedecido, no Balcon envidraçado
do quarto do Hotel Schöneberg. Desistimos
da visita à sepultura de Marlene, num
pequeno cemitério aqui próximo, que dizem
bastante arborizado e apetecivelmente
deserto. E ficámos a olhar
a mulher turca de cabeça velada, com
a filhita pela mão, vestida em tons
berrantes. No passeio em frente,
os grandes contentores da Rotes Kreuz,
para donativos de roupas usadas,
atestam a organizada caridade
do povo alemão. Até a chuva
parece aderir organizadamente a todas
as formas estáticas ou animadas, com
o seu antigo manto.

Berlim, 96

Inês Lourenço, Um Quarto com Cidades ao Fundo,
V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2000

Inês Lourenço acaba de editar mais um belo livro de poemas com um sugestivo título: Coisas Que Nunca, da &etc.

Como uma flor sob a chuva




















cortei a unha do dedo
médio
da mão direita
bem curta
e comecei a esfregar-lhe a racha
enquanto ela sentada na cama
ia pondo creme nos braços
na cara
e nos seios
depois de tomar banho.
então acendeu um cigarro
«continua»,
e foi fumando e foi-se untando
com creme.
continuei a esfregar-lhe a racha.
«queres uma maçã?» perguntei-lhe.
«bom», disse, «tu vais comer uma?»
mas foi a ela que eu comi…
começou a rodar,
depois colocou-se de lado,
ia ficando cada vez mais húmida e abrindo- se
como uma flor sob a chuva.
depois virou-se de boca para baixo
e o seu formosíssimo cu
levantou-se para mim
e eu meti a mão por baixo
até alcançar de novo a racha.
esticou um braço e apanhou-me
a gaita, rodou e virou-se,
montei em cima
fundia-se a cara na mata
de cabelo vermelho
derramada em redor da sua cabeça
e a minha gaita tesa entrou
no milagre.
mais tarde brincamos acerca do creme
e do cigarro e da maçã.
depois fui à rua e comprei frango
e gambas e batatas fritas e bolinhos
e puré e molho
e salada de couve, e comemos, ela disse-me
como lhe soube bem e eu disse-lhe
como me soube bem e comemos
o frango e as gambas e as
batatas fritas e os bolinhos
e o puré e o molho
e até a salada de couve.

Charles Bukowski, 20 poemas
(tradução de Anthero Monteiro)

Chuva oblíqua (II)




















II

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...

Fernando Pessoa
(excerto de “Chuva Oblíqua”, in Orpheu n.º 1, 1915)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Il pleure dans mon coeur...



Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits !
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie !

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?...
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !


Paul Verlaine

Trapo



O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: O sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.


Álvaro de Campos