segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Natal


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Foto; Noya Maria
Dias Florêncio


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
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Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
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Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.
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Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.
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Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.
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Manuel Alegre

Felina


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Foto in
Blog Palavras e Imagens




Galgam os gatos, guturais, gritando,
Nas gotejantes, glácidas goteiras,
As julietas maltesas namorando,
Em mios sensuais pelas trapeiras.

Chora, chapinha, chuviscando a chuva!
No deserto beiral do meu telhado,
Uma cinzenta graziela viúva
Contempla o seu «miau» envenenado...

Há lamentosos, lutulentos lances,
Por sobre a telha de Marselha, oblonga...
Sonhos, idílios, infernais romances,
Cavaleiros de Malta e barba longa!

Dum, conheço uma história muito triste,
Dum que lembrava o D. João doutrora,
Sempre com o bigode e a cauda em riste...
Mas era longo referi-la agora.

Pelos sítios escusos dos telhados
Há gatas sem pudor fazendo vistas,
Traições, banzés, focinhos arranhados,
Baralhas de saloios e fadistas.

Ouvindo-se, entre insónias horrorosas,
Paroquiais, pesados pesadelos,
Guloso, gloso gloriosas glosas,
E faço caracóis com os cabelos!...

António Feijó, Poesias Completas,
Edições Caixotim, Porto, 2004

Chuva















Foto
Anthero Monteiro




Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
“Que Inverno!”; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.

Nuno Júdice,
Um Canto na Espessura do Tempo, 1992

domingo, 28 de novembro de 2010

Eu canto a chuva, a terra, o verme


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Toda a chuva a cair me torna grata
por ela e pela que tem caído sobre mim
nos anos sem tacto, sem vista, sem olfacto.
Aqui, bebo-a misturada com os resíduos
que o vento traz do fundo do pomar,
gravetos, folhas e as flores perdidas.
O cheiro da flor de laranja perfumou
esta água, para a ablução dos pés
de um poeta que antes fora nómada.
Depois, porque não hei-de vestir-me com a túnica
da chuva, que me envolva como árvores
ou um corpo humano vivo e natural?
Dormir, onde esta lama doce e insonora
calidamente me vista e me sepulte?
Verme, que constróis o altar da chuva
com os teus pequenos montículos e covas
e sob o córtex da nogueira velha
escondeste a tua vida, como oferenda
que vai ser recolhida pelas mãos
de uma criança que ame os dons naturais;
verme, que sabes que eu outrora
já fui muda, não-gerada e ausente,
mostra-me o que mais sabes da chuva,
como és sinuoso nela, vivente,
e eu que devo fazer na pura terra
contigo, lado a lado, ó laborioso?
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Fiama Hasse Pais Brandão, Âmago,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

sábado, 27 de novembro de 2010

Dona Doida















Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Adélia Prado

Escritora e poeta brasileira, nasceu em Divinópolis em 1935. Foi professora durante 24 anos e formou-se em Filosofia. O último livro que publicou intitula-se Coração do Dia (Record, 2010).

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Poeta Albano Martins nas Quartas Mal Ditas


No próximo dia 1 de dezembro, pelas 22 horas,
o poeta Albano Martins será o convidado especial das Quartas Mal Ditas do Clube Literário do Porto, no ano em que completa 80 anos de vida e 60 de actividade literária.
Serão lidos poemas da sua autoria por Amílcar Mendes, Ana Almeida Santos, Anthero Monteiro, António Pinheiro, Cláudia Pinho, Isabel Marcolino, Mário Vale Lima e Rafael Tormenta.
Voz e guitarra acústica de Carlos Andrade.
Coordenação de Anthero Monteiro.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Chove lá fora



Há um silêncio enevoado e triste
a saber a demora
sobre tudo o que existe.

Minha alma recolhe-se do frio
e une as mãos às mãos do sentimento.
Chove lá fora. Engrossa o rio
do meu pensamento.

O dia agora é um lençol molhado
estendido ao longo dos caminhos.

Eu sou este dia de março
a arrefecer o amor dos primeiros ninhos.

Albano Martins, Assim São As Algas,
Porto, Campo das Letras, 2000, 1.ª ed.
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Albano Martins, natural do Telhado, Fundão, e residente em Vila Nova de Gaia, fez em Agosto 80 anos e está a comemorar os 60 anos de vida literária. Por isso mesmo, será o convidado especial da próxima sessão das Quartas Mal Ditas, no Clube Literário do Porto, na quarta-feira, dia 1 de Dezembro 2010.