sexta-feira, 25 de março de 2011

O comboio correio das 10 da noite


-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
O comboio correio das 10 da noite partia da
minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes
com o meu pai levar as cartas. Esperávamos
na gare. Se havia chuva ouvíamos o apito
quando passava à Granja vindo de Óbidos e

depois de correr o vale de S. Mamede.
O que mais me seduzia era o seu peso o negro
da máquina o movimento do êmbolo a nuvem de vapor
correndo toda a gare. Chegava entre videiras e
pântanos. O chefe da estação de

bandeirinha verde dava o sinal de entrada. Era
o intenso barulho os ferros da travagem
o bater das portas as carruagens verdes
enegrecidas, os castanhos wagons. Máquinas de carvão,
a diesel depois. O degrau de madeira ao

longo da carruagem, o romano nas portas I, II, e III.
Anos depois, já de mim se dizia «um homenzinho»
viajei nesse comboio das 10. Partia de
Coimbra, às cinco horas. Pelos campos do Mondego

a água, a matéria do ferro, confundi
com o caos. Reconheço neste comboio a forma
obscura, a intuição ridícula das imagens. A noite
corria de mistura com a triste lâmpada do
corredor, benefício do mistério, fogo fechado pela

trovoada sobre os campos do arroz, sobre o pinhal de Leiria.
Viajava em segunda. Vinha para casa no natal.
Eu tinha um emblema, vermelho e branco dos suíços,
na lapela do sobretudo. O meu irmão, as mãos
gretadas das frieiras sob umas luvas azuis. No

banco em frente,
uma professora de geografia rezava o terço
atenta à formação do espírito científico nascente.
Descolorido amor humano,
fornalha de comboio, coração das coisas a noite
corria fora e dentro da carruagem verde.

Meu pai estava na gare.
A longa fita de cabedal para fechar, abrir as
janelas. A rede onde pousava as malas.
Os corridos bancos de madeira ficavam na III.
Um guarda republicano cerrava todas as

noites sobre o azul do capote a portinhola.
O traço do comboio separa o céu da terra sob as estrelas
sob o limite da chama
a arte tanta vez a natureza.

João Miguel Fernandes Jorge, «Exposição» in O Regresso dos Remadores,
Lisboa, Editorial Presença, 1982

No comboio de Florença a Roma














No comboio de Florença a Roma
Mil pessoas, mil destinos
Cada um olhando por sua janela
Ou lendo um livro
Cada qual pensando nos seus
Ou nas suas coisas que não estão ali
Mas alhures.
Ali cada um tem consigo tão só o essencial
O verdadeiramente essencial
O seu próprio corpo
Uma pequena bagagem
Quase aquilo com que a morte os recolherá um dia
Quase só aquilo que os acompanhará
Por toda a eternidade, um dia,
o corpo esse
alguma roupa que o cubra
o anel de noivado. Pouco mais.

No comboio de Florença a Roma
uma velha senhora lê o jornal
como quem lê a vida
passando as folhas das notícias lidas
e esperando que algo exista ainda que
a comova e incite nas folhas que restam
que já vão sendo poucas
ante as folhas passadas
folhas soltas também de Florença a Roma
esquecidas, desperdiçadas, avidamente lidas
distantes já.

Uma casa antiga lá fora
no comboio de Florença a Roma
Janelas trífores e derredor ciprestes
os campos que a luz da lua visitará mais tarde.
Alguém fuma entre carruagens.
Alguém atende o telefone e fala
numa conversa para algures
Ciao cara, nos veidiemi. Augiri.
Outeiros, rios, fios, aves
um castelo velho
choupos debruçados sobre a água
à sombra das ameias destruídas
a torre em ruínas assaltada pela hera.

No comboio de Florença a Roma
Cada destino uma partida
e talvez, quem sabe, uma chegada também
de todos os mais ignorada
Uma vida cada vida, das outras gémea
das outras desconhecida
E apesar disso sentados vão lado a lado
mil destinos
frente a frente mil pessoas
almas passageiras de cidade a cidade
olhando-me e olhando-as eu a elas
cada de nós vendo os outros como eles são
e a si próprio como pensa ser ou gostaria de ser
não como é na verdade e os outros o vêem
ilusões vãs como a paisagem vã escorrendo o vidro.

No comboio de Florença a Roma
longa vai a hora sobre os trilhos
e o silêncio de encontro à chuva
Deixemos que o sono nos vença e nos convoque
Deixemo-lo que se alongue sobre nós
como a tarde cai
e que nos dê sombra e paz, como a primavera
que nos embale no doce contorno das colinas
lá fora
à velocidade das casas
à velocidade das árvores
à velocidade do sonho
No comboio de Florença a Roma.

Fernando Cabrita, in
Revista de Poesía Aullido 15

(Advogado, n. Olhão, 1954)

quinta-feira, 24 de março de 2011

O revisor

-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
Foto in
www.libertytv.com


Vamos vamos
Toca a despachar
Vamos vamos
Toca a despachar
Há muitos passageiros
Muitos passageiros
Toca a despachar
Há gente na fila
Por toda a parte
Muita gente
Ao longo do cais
Ou nos corredores da barriga da mãe
Vamos vamos toca a despachar
Toca a apertar no gatilho
Tem que haver lugar para todos
Matem-se então uns aos outros
Vamos vamos
Vamos lá
Há que ser decente
Há que dar lugar
Bem sabem que não podem ficar cá muito tempo
Demasiado tempo
Tem que haver lugar para todos
Disseram-vos que era só uma voltinha
Uma pequena volta ao mundo
Uma pequena volta aqui no mundo
Uma pequena volta e... pronto
Vamos vamos
Toca a despachar
Sejam educados
Não empurrem.

Jacques Prévert, Palavras/Paroles,
Lisboa, Sextante Editora, 2007 (1949)

quarta-feira, 23 de março de 2011

O lado errado da noite


Santa Apolónia arrotava magotes de gente
do seu pobre ventre inchado, sujo e decadente
quando Amélia desceu da carruagem dura e pegajosa
com o coração danificado e a cabeça em polvorosa
na mala o frasco de 'Bien-Etre' mal vedado
e o caderno dos desabafos todo ensopado
Amélia apresentava todos os sintomas de quem se dirige
ao lado errado da noite

Para trás ficaram uma mãe chorosa e o pai embriagado
o pequeno poço dos desejos todo envenenado
a nódoa do bagaço naquela farda republicana
que a queria levar pra cama todos os fins de semana
e o distinto patrão daquela maldita fundição
a quem era muito mais difícil dizer não
Amélia transportava todas as visões de quem se dirige
ao lado errado da noite

Amélia encontrou Toni numa velha leitaria
entre as bolas de Berlim com creme e o sol que arrefecia
ele falou-lhe de um presente bom e de um futuro emocionante
e escondeu-lhe tudo o que pudesse parecer decepcionante
mais tarde, no quarto de pensão, chamou-lhe sua mulher
seria ele a orientar o negócio de aluguer
Toni tinha todas as qualidades pra ser um rei
no lado errado da noite

Jonas está agarrado ao seu saxofone
a namorada deu-lhe com os pés pelo telefone
e ele encontrou inspiração numa notícia de jornal
acerca de uma mulher que foi levada a tribunal
por ter assassinado uma criança recém-nascida
o juiz era um homem que prezava muito a vida
e a pena foi agravada por tudo se ter passado
no lado errado da noite

Jorge Palma

segunda-feira, 21 de março de 2011

Cópula



-
-
-
-
-
-
-

In
www.24heures.ch


No prado, onde as vacas imóveis,
esperam a passagem do comboio, ouve-se um ruído
de ramagens fustigadas pelo vento. Não sei se
é o outono que chega, ou se o verão ainda resiste
à chegada da breve estação. No entanto,
o comboio demora-se; e a vaca que não quis
esperar parou no meio da linha, como uma raiz
metafisica que se meteu na terra e a prendeu,
impedindo-a de fugir à investida da locomotiva.
(O resultado, meses depois,
foi um bezerro a vapor).
-
Nuno Júdice, Poesia Reunida (1967 – 2000),
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

El tren de los heridos


-
-
-
-
-
-
-
-
in
Scrapbook
pages blog
-
-
Silencio que naufraga en el silencio
de las bocas cerradas de la noche.
No cesa de callar ni atravesado.
Habla el lenguaje ahogado de los muertos.

Silencio.

Abre caminos de algodón profundo,
amordaza las ruedas, los relojes,
detén la voz del mar, de la paloma:
emociona la noche de los sueños.

Silencio.

El tren lluvioso de la sangre suelta,
el frágil tren de los que se desangran,
el silencioso, el doloroso, el pálido,
el tren callado de los sufrimientos.

Silencio.

Tren de la palidez mortal que asciende:
la palidez reviste las cabezas,
el ¡ay! la voz, el corazón la tierra,
el corazón de los que malhirieron.

Silencio.

Van derramando piernas, brazos, ojos,
van arrojando por el tren pedazos.
Pasan dejando rastros de amargura,
otra vía láctea de estelares miembros.

Silencio.

Ronco tren desmayado, envejecido:
agoniza el carbón, suspira el humo
y, maternal, la máquina suspira,
avanza como un largo desaliento.

Silencio.

Detenerse quisiera bajo un túnel
la larga madre, sollozar tendida.
No hay estaciones donde detenerse,
si no es el hospital, si no es el pecho.

Silencio.

Para vivir, con un pedazo basta:
en un rincón de carne cabe un hombre.
Un dedo solo, un solo trozo de ala
alza el vuelo total de todo un cuerpo.

Silencio.

Detened ese tren agonizante
que nunca acaba de cruzar la noche.
Y se queda descalzo hasta el caballo,
y enarena los cascos y el aliento.

Miguel Hernández, El Hombre Acecha
(1937-1939)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Poema da gare da Astapovo








Gare de Astapovo,
onde Tostoi se refugiou
para morrer
in

http://sobreorisco.blogspot.com/


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

Mário Quintana

Leia sobre Tosltoi (F. em 20 de Novembro de 1910)
"Um escritor fora do tempo" o meu amigo Manuel Poppe in
http://sobreorisco.blogspot.com/2010_11_01_archive.html