sexta-feira, 29 de julho de 2011

Pintura

-
-
-
-
-
-
-
Picasso,
Auto-retrato,
1972


Noutro dia no museu
expôs-se lá uma tela
e logo o povo foi vê-la
quando o facto conheceu.

Mas o grande problema
era ao vê-la adivinhar
qual seria enfim o tema
que o seu autor quis pintar.

Um disse: - Aquilo é um pardal!
Outro disse que o não era:
- O senhor vê muito mal.
Aquilo é burro ou é fera.

E assim porfiavam todos
com os mais diversos modos
com o mais diverso trato
até que veio o artista
e disse: - Que fraca vista!
É o meu auto-retrato!

Anthero Monteiro, A Sara Sardapintada,
Porto, Corpos Editora, 2004

(Epigrama escrito pelo autor aos 16 anos,
altura em que ainda nada entendia de pintura modernista.
Ainda hoje não sabe se entende...)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Estudo para um quadro



Foto
A.M.

-
-
-
-
-
-
-
-
-
O lápis, o pimento e o alho francês juntaram-
-se por acaso, em cima da mesa da cozinha. En-
tão, poderiam ter servido para uma natureza
morta; e um outro sentido nasceria, da sua
coincidência, se a toalha fosse azul e vermelha.
No entanto, o lápis acabou a fazer a lista das
compras, o pimento foi parar à panela do arroz
e o alho francês, cortado às rodelas, ferveu
durante uns minutos até a sopa acabar de cozer.

Nuno Júdice, Poesia Reunida, 1967 – 2000,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

O menino desenha




O menino desenha
O pólen do seu lápis cai nas folhas maltratadas;
No papel, a mãezinha é apenas uma bolha.
O menino risca e pede a Deus que o seu pai venha
Ver estas coisas desenhadas.

A irmãzinha mais moça quer o lápis e olha,
Uma lágrima em bico o seu olhar envidraça;
A chuva do menino são uns pontos tão depressa
Que o lápis se estilhaça.

O menino faz o galo, a torre, a casa e o judeu,
Que mostra aos outros meninos:
Mas a casa é que tem as pernas e o galo é que abre janelas,
A torre é que usa as barbas e o judeu tem os sinos
Por não ter nada de seu.
Oh meu rico menino, que fazes as coisas belas!

A irmã mais velha do menino há-de
Ser a mãe dos sobrinhos que desenharão também
O tio com uma bolha, como ele vê em bolha a sua mãe.
"Tem óculos, não está quieta e é muito boa";
O menino garatuja,
E vê-se a luz e os vidros, e até se vê a bondade
Que veio à sua mão suja
Do lado em que estava a pessoa.

O irmãozito do menino
Também está metido, e bem, neste quadrado:
É aquela figura de que o avô disse: -"É um pepino!",
Sem se lembrar que o artista podia ficar magoado.

Ah, meu menino, minha estrela a arder de dia,
Não deixes que te mexam no traço virginal que aprendeste
Quando eras o fio de sol na escuridão que enchia
A tua mãe - bolhinha, enquanto te não desprendeste.

Vitorino Nemésio, Antologia Poética,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1988

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor!


Foto A.M.






Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

José de Almada Negreiros, Obras Completas 4/ Poesia,
Lisboa, Editorial Estampa, 1971

Novo tema: POESIA & PINTURA





António Joaquim, Porta,

Acrílico sobre tela, 2003









Muitos poetas escrevem sobre desenho, pintura, sobre obras de arte de todas as épocas, de todas as escolas e técnicas.
Esta poesia designa-se por poesia ecfrástica, ou seja, a representação verbal de representações visuais (do grego "ekphrasis", derivado de um verbo que significa "descrever com elegância"). Diz respeito também à escultura.


Mas é do desenho e da pintura que queremos falar por ora, colecionando textos de muitos autores sobre o assunto. Ocorrem-nos desde já alguns nomes que se dedicam à poesia ecfrástica: Al Berto, Nuno Júdice, Jorge de Sena, Vasco Graça Moura, João Miguel Fernnades Jorge, José Jorge Letria, entre muitos outros.


Então, comecemos:

POESIA & PINTURA

Os amantes















Marc Chagall,
Les amoureux
aux marguerites



Os amantes calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais trémulo, o mais insuportável.
Os amantes buscam,
os amantes são os que abandonam,
são os que mudam, os que esquecem.

O coração diz-lhes que nunca hão-de encontrar,
não encontram, buscam.
Os amantes andam como loucos
porque estão sós, sós, sós,
entregando-se, dando-se a cada momento,
chorando porque não salvam o amor.

Preocupa-os o amor. Os amantes
vivem o dia-a-dia, não podem fazer mais, não sabem.
Estão sempre a ir,
sempre, para qualquer parte.
Esperam,
não esperam nada, mas esperam.

Sabem que nunca hão de encontrar.
O amor é o adiamento perpétuo,
sempre o passo seguinte, o outro, o outro.
Os amantes são os insaciáveis,
os que sempre – que bom! ¬– hão de estar sós.
Os amantes são a hidra do mito.

Têm serpentes em lugar de braços.
As veias do pescoço dilata-se-lhes
também como serpentes para asfixiá-los.
Os amantes não podem dormir
porque se adormecem são comidos pelos vermes.
Abrem os olhos no escuro
e cai neles o espanto.
Encontram escorpiões debaixo do lençol
e a sua cama flutua como sobre um lago.

Os amantes são loucos, apenas loucos,
sem Deus e sem diabo.
Os amantes saem das suas grutas
trémulos, famintos,
para caçar fantasmas.
Riem daqueles que tudo sabem,
dos que amam para sempre, veridicamente,
dos que acreditam no amor
como uma lâmpada de azeite inesgotável.

Os amantes brincam a agarrar a água,
a tatuar o fumo, a não se irem.
Jogam o longo, o triste jogo do amor.
Ninguém se há-de resignar.
Dizem que ninguém se resignará.
Os amantes envergonham-se de toda a conformidade .
Vazios, mas vazios de uma costela à outra,
a morte fermenta-lhes por detrás dos olhos,
e eles caminham, choram até à madrugada
em que comboios e galos se despedem dolorosamente.

Chega-lhes por vezes um odor a terra recém-nascida,
a mulheres que dormem com a mão no sexo,
deleitadas,
a arroios de água terna e a cozinhas.

Os amantes põem-se a cantar entre lábios
uma canção não aprendida,
e vão-se embora chorando, chorando,
a formosa vida.

Jaime Sabines, Poemas del Alma
(Tradução de Anthero Monteiro)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MAR / MULHER: tema para a Onda Poética de Julho


Sessão da Onda Poética de 20/7/2011

Tema: MAR / MULHER

Coordenação: ANTHERO MONTEIRO

Música: CARLOS ANDRADE

Leituras: COLETIVO DA ONDA

21.30 horas

Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva
ESPINHO

Entrada livre