sábado, 30 de julho de 2011

Migração do amarelo





Foto

A.M.
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Não fales. Morre sempre um segredo
quando falas:
o amarelo das maias, do tojo, das acácias,
o amarelo com que é feito o verde.
O funeral é bonito com todas as cores presentes
mas o vermelho nunca mais será o mesmo.
As papoilas abandonam as margens do comboio
onde escrevo este poema. Emigram talvez,
o que lhes resta?
O frio que lhes entra no corpo encontra cerradas
as portas da alma: «volto já»,
a esperança pendurada onde devia estar:
«já fui» com o amarelo, com as papoilas
neste comboio que repete, como quem anda sobre trilhos.
«Não fales. Deixa vir a mim o amarelo».

Rosa Alice Branco, «O único traço do pincel» in
Soletrar o Dia, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2002

Receita para fazer o azul



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Foto de
Loulé
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Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão Ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice, Poesia Reunida, 1967 – 2000,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A última pincelada



Viveu em tempos um pintor que nunca conseguia acabar de pintar uma ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça. Quando se preparava para dar a última pincelada, ela levantava voo.

E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la com o pincel no céu azul...

Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu,
Lisboa, Fenda, 1991, 2.ª ed.

Para fazer o retrato de um pássaro














Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro

Jacques Prévert
(tradução de Eugénio de Andrade)

Pintura

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Picasso,
Auto-retrato,
1972


Noutro dia no museu
expôs-se lá uma tela
e logo o povo foi vê-la
quando o facto conheceu.

Mas o grande problema
era ao vê-la adivinhar
qual seria enfim o tema
que o seu autor quis pintar.

Um disse: - Aquilo é um pardal!
Outro disse que o não era:
- O senhor vê muito mal.
Aquilo é burro ou é fera.

E assim porfiavam todos
com os mais diversos modos
com o mais diverso trato
até que veio o artista
e disse: - Que fraca vista!
É o meu auto-retrato!

Anthero Monteiro, A Sara Sardapintada,
Porto, Corpos Editora, 2004

(Epigrama escrito pelo autor aos 16 anos,
altura em que ainda nada entendia de pintura modernista.
Ainda hoje não sabe se entende...)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Estudo para um quadro



Foto
A.M.

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O lápis, o pimento e o alho francês juntaram-
-se por acaso, em cima da mesa da cozinha. En-
tão, poderiam ter servido para uma natureza
morta; e um outro sentido nasceria, da sua
coincidência, se a toalha fosse azul e vermelha.
No entanto, o lápis acabou a fazer a lista das
compras, o pimento foi parar à panela do arroz
e o alho francês, cortado às rodelas, ferveu
durante uns minutos até a sopa acabar de cozer.

Nuno Júdice, Poesia Reunida, 1967 – 2000,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

O menino desenha




O menino desenha
O pólen do seu lápis cai nas folhas maltratadas;
No papel, a mãezinha é apenas uma bolha.
O menino risca e pede a Deus que o seu pai venha
Ver estas coisas desenhadas.

A irmãzinha mais moça quer o lápis e olha,
Uma lágrima em bico o seu olhar envidraça;
A chuva do menino são uns pontos tão depressa
Que o lápis se estilhaça.

O menino faz o galo, a torre, a casa e o judeu,
Que mostra aos outros meninos:
Mas a casa é que tem as pernas e o galo é que abre janelas,
A torre é que usa as barbas e o judeu tem os sinos
Por não ter nada de seu.
Oh meu rico menino, que fazes as coisas belas!

A irmã mais velha do menino há-de
Ser a mãe dos sobrinhos que desenharão também
O tio com uma bolha, como ele vê em bolha a sua mãe.
"Tem óculos, não está quieta e é muito boa";
O menino garatuja,
E vê-se a luz e os vidros, e até se vê a bondade
Que veio à sua mão suja
Do lado em que estava a pessoa.

O irmãozito do menino
Também está metido, e bem, neste quadrado:
É aquela figura de que o avô disse: -"É um pepino!",
Sem se lembrar que o artista podia ficar magoado.

Ah, meu menino, minha estrela a arder de dia,
Não deixes que te mexam no traço virginal que aprendeste
Quando eras o fio de sol na escuridão que enchia
A tua mãe - bolhinha, enquanto te não desprendeste.

Vitorino Nemésio, Antologia Poética,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1988