quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os noivos voadores de Chagall

Marc Chagall, Les amoureux en gris, 1960















como se escrevesse um poema pinto a mulher
que irrompe da plumagem azulínea do galo
por cima das pontes anoiteceu onde flutuam
o bode e os noivos lancei por terra barreiras
entre elementos e leis físicas
para que o meu país se tornasse mais real
mais próximo de mim quando no exílio pouso
os lábios nas cores de avelã ou das nozes e
fico com o sabor delas na boca

recordo assim a casa paterna em vitebsk os nevões
de s. petersburgo aquela criança no mercado
apanhando moedas atiradas ao tapete e a cabra triste
em equilíbrio - bailando - em cima do gargalo da garrafa
os músicos de acordeão e violino sob o clarão da lua
estes noivos que toda a minha vida esvoaçaram felizes
de pintura em pintura pelos nocturnos céus do país

Al Berto, O Medo, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997
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NOTA: Apesar de o título e o texto do poema parecerem remeter para outra obra de Chagall (e são muitas as que se reportam a noivos voadores ou não), a que aqui se reproduz é aquela que consta, ainda que a preto e branco, da edição de 1997 de O Medo (p. 425).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Poema da noiva de Chagall

Marc Chagall, Bride with blue face, 1932















Tenho os olhos repletos de ventura.
E isto simplesmente
por ver na minha frente um tanque de água,
bancos de pedra à volta
e uns modestos arbustos sem grandeza.
Como a ventura é fácil quando tudo
se mede em desventura!

Tudo se junta neste quadro ameno
para dar felicidade momentânea;
e o que falta, que é tudo, isso, imagino.
A luz do Sol escondido a jorros brota,
caustica a pele e afogueia o rosto;
nos arbustos despidos as flores rescendem;
e no tanque parado, de águas sujas,
o transparente líquido se eleva
e em parábolas cai na morta superfície.

Desce um pombo do alto em voo lento
e na borda do tanque poisa, e olha.
Finjo que sou de pedra; e o pombo olha-me.
Finge-se ele de pedra enquanto o olho,
e assim nos demoramos, um e outro,
até nos convencermos
que só de mútuo amor se vive em paz.

Um roçar de asas vem do alto e desce.
É ela, a pomba, o número que faltava
no programa das festas dos meus olhos.
Ao lado dele poisa, e tão chegada
que as penas dele em mim se sobressaltam.

Foi então que um rumor tão insensível
como um abrir de pétalas
roçou por entre as folhas dos arbustos.
A noiva de Chagall,
micro-onda violeta, espuma de detergente,
flutuando ao sabor de uma suposta brisa,
alegre e rápida, voluptuosa e breve,
em círculos de renda me envolveu.

De vassoura de esparto, o homem do jardim
juntava as folhas secas,
e ao juntá-las,
diluía rumores no silêncio da tarde
enquanto ia pensando noutra coisa.

António Gedeão, Poemas Póstumos,
Lisboa, Ed. João Sá da Costa, 1983

Última carta de van Gogh a Théo

Vincent van Gogh, Auto-retrato com orelha ligada, 1889















nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar

o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe contra mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada

por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol.

Al Berto, O Medo,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997



A última carta de van Gogh foi escrita em 23 de Julho de 1890. Poucos dias depois, a 27/7, o pintor terá dado um tiro a si próprio, de que resultaria a sua morte na noite do dia 29/7. O episódio da auto-ablação da orelha ocorreu em dezembro de 1888. Mas, recentemente, investigadores alemães, consideraram que a auto-mutilação terá sido inventada pelo amigo pintor Gauguin para se ilibar da responsabilidade do ato: na sequência de uma discussão entre ambos por causa de uma prostituta (Rachel), Guaguin ter-lhe-ia cortado a orelha e desaparecido.


Cf. http://fina-sintonia2.blogspot.com/2009/05/historia-e-outra-van-gogh-nao-cortou.html

Van Gogh: "Campo de Trigo com Corvos"

Vincent van Gogh: Campo de trigo com corvos, 1890






É cedo em Auvers-sur-Oise,
mas os malfeitores permanecem vigilantes.

Desde que me lembro a minha vida
é uma fuga
– fujo dos malfeitores
e, por isso, a minha cabeça não aguenta,
a minha cabeça treme,

e estou só,
e atravesso a terra de ninguém
como se fosse perseguido pelo demónio
e o demónio se aliasse aos anjos,
e tudo fosse, na terra de ninguém,
essa conjura.

É cedo em Auvers-sur-Oise,
e noto as cores
da perseguição,
verdes, azuis e cinzentos
convocam-me os sentidos,

mas estou alerta,
alerta como só um louco pode estar,
ou um profeta.

Theo,
tal como as nossas brigas,
também o sangue que me corre nas veias é eléctrico,
e é preciso que eu parta,
é preciso que eu parta,
definitivamente.

As paixões enervam-me,
destroem-me.
E já não sei como dormir,
como cuidar que a navalha
esteja num lugar em que a não veja,
porque a navalha, Theo,
fascina-me,
e, às vezes, odeio esta maldita pintura
que fez soçobrar o meu amor
e a minha vontade.

Os malfeitores permanecem vigilantes,
e eu só quero o sul,
só quero, cada vez mais, o sul,
e é com o sul que sonho
cada noite,
a navalha,
o sul,
o quadro inacabado
que aguarda
a indecisão da minha espátula.

Ainda não sei, Theo,
porque nasci
– um homem vem ao mundo
para trabalhar nas minas
ou arrotear os campos,
não vem para que se entregue ao suplício
e nele ponha a sua devoção
e a miséria.

Fosse eu um homem diferente, Theo,
o homem que julguei capaz de ser,
e talvez no hospital me entendessem
e deixassem de me olhar
como o vagabundo que sou,
com a roupa manchada de tintas
e este rosto de quem vive o tormento
de passar sem indiferença
pelos seus semelhantes.

Preciso, Theo,
do consolo das tuas palavras,
e de pincéis comuns,
e de alguém que me visite na prisão,
se eu for preso
por ter perdido a cabeça,
(treme-me, a cabeça)
e me ter insurgido contra a turbulência
com que me perseguem.

Ontem fui à taverna, Theo,
e as cores deslumbrantes com que vi aquilo
pareceram-me ser de uma bondade infinita
– trabalhei toda a noite,
e é inimaginável como o trabalho me rende
quando esta febre chega
e as cores,
todas elas,
zunem nos meus ouvidos,
se expandem no meu crânio,
e descem pelo meu braço:

há um laranja saturado que só eu sei
que existe,
a luz envolve-o,
as sombras querem conspurcá-lo,
mas eu resisto, Theo,
trabalho incessantemente
e rezo, baixinho,
para que Jesus me ouça.

Em presença deste laranja,
meu irmão,
fico em pleno uso das minhas faculdades,
(sim, a cabeça, a cabeça treme-me por dentro)
e sorrio dos que me chamam louco,
e aprovo-lhes a decisão de me manterem afastado
dos favores do álcool:
fico à porta da taverna
e o espírito eleva-se,
e fico ali,
sozinho,
a tentar pescar a terra.

Não, não me empanturro de vinho,
de grão-de-bico e lentilhas,
farto-me, isso sim, desta cor,
que é a cor da transfiguração
e do equilíbrio,
porque sou imundo e intocável,
por mais que os malfeitores me persigam
e eu seja desequilibrado
(treme-me, a cabeça).

Quero tocar com as mãos
coisas que nunca vi,
sem receio,
atravesso os campos enrubescidos
pelo dilúculo matinal
e ouço vozes,
ao longe,
ouço vozes desconhecidas
que me chamam
e me fazem ver o incriado,
a miragem,
a alucinação.

Não temo:
tingido de carmim,
o horizonte espera-me,
e os malfeitores perseguem-me,
e sou como Isaac
a morrer às mãos do anjo mensageiro
e corre-me pelas veias
um sentido de grande utilidade:
pinto e pinto,
e a luz absolve-me do mal
e da maldade.

Theo,
há momentos em que a terra se cobre de papoilas
e eu possuo todas as riquezas da terra,
e sou um pobre pintor
a exultar pela magnificência,
por este ocre queimado, da cor
dos peixes da terra,
por este laranja-de-cádmio
que me reconforta,
por este vermelho,
vivo e condescendente.

Um dia há-de chegar a revolta
dos desprotegidos,
e os malfeitores saberão
o que vale efectivamente perseguir
quando a tristeza perdura
e só um tiro de pistola
vem resolver a contenda
indisputável, Theo.

Por isso, vou para sul
e há-de ser a sul
que me encontrarei com Deus

Amadeu Baptista, Doze Cantos do Mundo,
Sintra, Edição CM de Sintra, 2009

"A cadeira amarela" de van Gogh

Vincent van Gogh, A Cadeira Amarela, 1888
















No chão de tijoleira uma cadeira rústica,
rusticamente empalhada, e amarela sobre
a tijoleira recozida e gasta.
No assento da cadeira, um pouco de tabaco num papel
ou num lenço (tabaco ou não?) e um cachimbo.
Perto do canto, num caixote baixo,
a assinatura. A mais do que isto, a porta,
uma azulada e desbotada porta.
Vincent, como assinava, e da matéria espessa,
em que os pincéis se empastelaram suaves,
se forma o torneado, se avolumam as
travessas da cadeira como a gorda argila
das tijoleiras mal assentes, carcomidas, sujas.

Depois das deusas, dos coelhos mortos,
e das batalhas, príncipes, florestas,
flores em jarras, rios deslizantes,
sereno lusco-fusco de interiores de Holanda,
faltava esta humildade, a palha de um assento,
em que um vício modesto – o fumo – foi esquecido,
ou foi pousado expressamente como sinal de que
o pouco já contenta quem deseja tudo.

Não é no entanto uma cadeira aquilo
que era mobília pobre de um vazio quarto
onde a loucura foi piedade em excesso
por conta dos humanos que lá fora passam,
lá fora riem, mas de orelhas que ouçam
não querem mesmo numa salva rica
um lóbulo cortado, palpitante ainda,
banhado em algum sangue, o «quantum satis»
de lealdade, amor, dedicação, angústia,
inquietação, vigílias pensativas,
e sobretudo penetrante olhar
da solidão embriagadora e pura.

Não é, não foi, nem mais será cadeira:
Apenas o retrato concentrado e claro
de ter lá estado e de ter lá sido quem
a conheceu de olhá-la, como de assentar-se
no quarto exíguo que é só cor sem luz
e um caixote ao canto, onde assinou Vincent.

Um nome próprio, um cachimbo, uma fechada porta,
um chão que se esgueira debaixo dos pés
de quem fita a cadeira num exíguo espaço,
uma cadeira humilde a ser essa humildade
que lhe rói de dentro o dentro que não há
senão no nome próprio em que as crianças têm
uma fé sem limites por que vão crescendo
à beira da loucura. Há quem assine,
a um canto, num caixote, o seu nome de corvo.
E há cantos em pintura? Há nomes que resistam?
Que cadeira, mesmo não-cadeira, é humildade?
Todas, ou só esta? Ao fim de tudo,
são só cadeiras o que fica, e um modesto vício
pousado sobre o assento enquanto as cores se empastam?

Jorge de Sena

"A ponte" de van Gogh

Vincent van Gogh, A ponte, 1888












O lugar não importa: pode ser o Japão, a Holanda, a campina inglesa.
Mas é absolutamente preciso que seja domingo.

O azul do céu ecoa na esmeralda do rio
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol virginal de miss
Para ser no céu sem mancha a única nuvem.
A calma é velha, de uma velhice sem pátina
As cores são simples, ingênuas
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar
De listas vermelhas o teto de sua casinhola.
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros a fazer caretas
E a pressa com que o homem da charrete vai:
- A pressa de quem atravessou um vago perigo
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo de a pequena ponte levadiça
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina Rosseti
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica do novo pastor da vila.

Vinicius de Moraes, Jardim Noturno,
S. Paulo, Companhia das Letras, 1993

"Botines con lazos", de Vincent Van Gogh

Vincent Van Gogh, Botas com Atacadores,
1886-87











¿Son dos extraños fósiles,
emisarios sombríos de una fauna sepultada en un bosque de carbón,
que vienen a reclamar un óbolo de luz para sus muertos ?
¿Son ídolos de piedra,
cascotes desprendidos del obraje de los más tristes sueños ?
¿O son moldes de hierro
para fraguar los pasos a imagen del martirio y a semejanza de la
penitencia ?
Son tus viejos botines, infortunado Vincent,
hechos a la medida de un abismo interior, como las ortopedias del exilio ;
dos lonjas de tormento curtidas por el betún de la pobreza,
embalsamadas por lloviznas agrias,
con unos lazos sueltos que solamente trenzan el desamparo con la soledad,
pero con duros contrafuertes para que sea exiguo el juego del destino
para que te acorrale contra el muro la ronda de los cuervos.
Pero son tus botines, perfectos en su género de asilo,
modelos para atar a cada ráfaga de alucinada travesía,
fieles como tu silla, tus ojos y tu Biblia.
aferrados a ti como zarpas fatales desde las plantas hasta los tobillos,
desde Groot Zundert hasta la posada del infierno final,
es inútil que quieran sepultar tus raíces en una casa hundida en el rescoldo,
en el barro bruñido, el brillo de las velas y el íntimo calor de las patatas,
porque una y otra vez tropiezan con el filo de la mutilación,
porque una y otra vez los aspira hacia arriba la tromba que no entienden :
tu fuga de evadido como un vértigo azul, como un cráter de fuego.
Botines de trinchera, inermes en la batalla del vendaval y el alma :
han girado contigo en todas las vorágines del cielo
y han caído en la trampa de tu hoguera oculta bajo el incendio de los
campos, sin encontrar jamás una salida,
por más que pisoteen esas flores fanáticas que zumban como abejorros
amarillos,
esos soles furiosos que atruenan contra tu oreja, tan distante,
perdida como un pálido rehén entre los torbellinos de otro mundo.
Botines de tribunal, a tientas en la noche del patíbulo,
sin otro resplandor que unos pobres destellos arrancados al pedernal
de la locura,
entre los que hay un pájaro abatido en medio de su vuelo :
el extraño, remoto anuncio blanco de una negra sentencia.
Resuenan dando tumbos de ataúd al subir la escalera,
vacilan junto al lecho donde se precipitan vidrios de increíbles visiones,
trizado por una bala el árido universo,
y dejan caer a lentas sacudidas el balance de polvo tormentoso
adherido a sus suelas.
Ahora husmean la manta de hiedra que recubre tu sueño junto a Theo,
allá, en el irreversible Auvers-sur-Oise,
y escarban otra tumba entre los andamiajes de la inmensa tiniebla.
Son botines de adiós, de siempre y nunca, de hambriento funeral :
se buscan en la memoria de tu muerte.

Olga Orozco

Cf. Irene Artigas, "Ecfrasis y Naturaleza muerta: los 'Botines con lazos' de van Gogh e Olga Orozco" in
http://trans.univ-paris3.fr/spip.php?article84