quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia de anos




João de Deus










Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!

João de Deus, Campo de Flores

Happy Birthday


Como será o mundo quando eu não puder olhar para ele,
nem escutá-lo, nem tocar-lhe, nem cheirá-lo, nem saboreá-lo?
Como serão os demais sem este seu criado?
ou existirão tal como eu existo
sem os demais que já partiram?
no entanto,
porque será que alguns destes são uma foto em sépia
e outros uma nuvem nos olhos
e outros a mão do meu braço?
como seremos todos sem nós?
que cor que ruídos que pele suave que sabor que aroma
terá o bem(mal)dito mundo?
que sentido terá chegar a ser protagonista do silêncio?
vanguarda do esquecimento?
que será do amor e do sol das onze
e do crepúsculo triste sem causa válida?
ou serão por acaso  estas perguntas as mesmas
cada vez que alguém atinge os sessenta?

já sabemos como é sem as respostas
mas como será o mundo sem perguntas?

Mario Benedetti, Poemas del Alma
(tradução de Anthero Monteiro)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

o futuro o futuro o futuro










Foto: Marta Ferreira
Modelo: Daniela Couto








terá o futuro a cor rósea dos meus braços
ou do mar promissor dos meus olhos
ou a suavidade da minha pele jovem
ou o sabor de sonho que alguém
já descobriu nos meus lábios

apalpo a escuridão e só encontro
paredes negras e escorregadias
portas lacradas e janelas que o não são
porque dão para o vazio e só abrem
para deixar entrar a fuligem e o desespero

ventos incontroláveis varrem os labirintos
íntimos desta cabeça que estreito entre as mãos
e nem o vento nem o entendimento nem os sonhos
encontram um rumo um remo um arrimo
uma nuvem que sirva de leme uma ideia que sirva de lema

o futuro o futuro o futuro
como será o futuro que o futuro nos oferece
haverá futuro para além desta masmorra
haverá  futuro com este presente envenenado

(e todavia o futuro pulsa obsessivo nas têmporas)

Anthero Monteiro

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Introdução ao niilismo

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES



Amanhã, dia 4/1/2012, 21.30 h., estará nas Quartas Mal Ditas do Clube Literário do Porto.

Leituras pelo Coletivo das QmD.

Coordenação e guião de ANTHERO MONTEIRO.

Colaboração musical da pianista SOFIA LOURENÇO.










A noite passada enviei um SMS ao meu Pai

mas ele não respondeu. Já kontava kom issu. O

corpo dele baixou faz

outro mês amanhã

nenhum de nós destinou o Sony Ericsson dele

ao rectãngulo do caixão. Era

de um género antigo (outrossim

muito estimado)

algumas horas ligado mesmo sem conversação

começava a avisar: bateria esgotada.

Duvido porém que a rede fosse boa

lá no fundo.

Quando descia aos arrumos era o que acontecia.

Sucede que agora se quero falar com ele

tenho de ligar a Deus. E eu não falo com Ele.

Não quero ter de calar (olhando-O

olhos nos Olhos)

«uma morte nunca é justa»

«foi demasiado cedo» «já agora

passe aí a meu Pai».

Já tenho ligado para Deus

parece dar sempre ocupado.


João Luís Barreto Guimarães, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011

______

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade, conc. de Caminha. É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto e especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética no Centro Hospitalar de VN Gaia. Está na blogosfera com um blogue que tem o seu nome e com outro, coletivo, intitulado Poesia & Limitada.
Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, apenas com 22 anos, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro (1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão(2003), Luz Última (2006) e A Parte pelo Todo (2009). Todos estes livros tiveram reedições, mas encontram-se agora agrupados na coletânea recentemente publicada pela Quetzal, Poesia Reunida, o que nos possibilita apercebermo-nos com mais facilidade do percurso poético do autor.
José Mário Silva escreveu no Expresso, a propósito deste livro, que o autor «só sabe escrever «de dentro da vida» (expressão que é do pp. Poeta) e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.»
Também Pedro Mexia fala da poesia do João Luís como «uma reiterada capacidade de escrever sobre matéria jubilosa». Maria Alzira Seixo refere-se ao trabalho artístico do poeta como “mestria de composição” e Fernanda Botelho atribui-lhe «um impressionismo reflexivo e uma sensibilidade metafórica não muito comuns».
O magazine literário on line 3:AM refere-se à sua obra como «uma referência» e «um trabalho do que há de melhor nas letras portuguesas contemporâneas».
José Ricardo Nunes, no posfácio do livro, resume assim as características da poesia do João Luís: «a presença do real, numa explosão de vida, em todas as dimensões – pessoais, sociais, éticas; a atenção ao quotidiano, ao que surge à superfície dos dias e é facilmente reconhecível; o constante apelo ao leitor e a exigência da sua participação activa.» Humor, ironia, domínio da língua e da função poética da linguagem em todos os sentidos, brevidade e concisão, coloquialidade, são outras das suas virtudes. Mas o que mais deverá agradar-nos é poder verificar que tudo o que escreveu o fez com verdadeiro sentido lúdico e gozo estético e que é capaz de dar a usufruir esse prazer e deleite a quem o lê.

sábado, 19 de novembro de 2011

No teu quarto




















com mais ninguém em casa entro nos teus domínios
e levas-me a um lugar de sonho e do teu sono
impera no teu quarto a cama como um trono
e há segredos aos mil em gavetas de escrínios

o sol e outros olhares penetram indiscretos
sorrio com malícia ao correres a cortina
mas vejo na parede a foto da menina
que tiraste uma vez com seis anos completos

e esse olhar virginal que afasta os próprios lobos
retém a minha mão como se houvera um pacto
por isso é que ficou teu leito assim intacto
porque eu manietei todos os meus arroubos

e sentei-me no chão à falta de melhor
encostaste-te a mim suave doce esguia
e ficámos a ouvir a eterna melodia
de um prelúdio de bach em mi bemol maior

estava atrás de ti sem nada de permeio
e um raio de sol curioso quase a pique
viu na minha mão esquerda um poema de rilke
e achou-me a outra mão a soletrar-te o seio.

Anthero Monteiro, Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste, 2010

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Morta




podes vir chamar-me

com a brisa insinuante de um violino

marcar o meu número à hora de cada capricho

acenar-me com açucenas entre os dentes

escolher pedras de algodão

para me atirares à vidraça

subir todos os gólgotas

para te crucificares nos meus braços

reconstituir todas as minhas pegadas no deserto

reencontrar os istmos das minhas mãos

levar-me ao festival das gaivotas

presumir nos perfumes

e em todos os encantamentos

ler os meus versos

como quem se alimenta de rosaas




agora estás morta e bem morta

e nenhum beijo meu te ressuscitará


dias e noites sem conta

estive emparedado num quadrilátero minúsculo

entre desespero e tédio

entre acrimónia e indiferença

a olhar uma galáxia perdida

à espera que me baleassem as estrelas

que a neve fosse piedosa

que alguém me atirasse o primeiro torrão


não fora esta couraça de desprezo

ou de desprezo pelo teu desprezo

há muito a solidão teria estalado

a tábua do meu peito

e esmagado de vez

este relógio avariado

pela ferrugem da espera


Anthero Monteiro,

Desesperânsia, Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2009



(Na foto, Anthero Monteiro por Jorge D'além-mar)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011



Quarta-feira,
5 de Outubro, 21.30 h,
QUARTAS MAL DITAS
no Piano-bar do
Clube Literário do Porto.
Tema: POESIA & PINTURA.
Leituras por Amílcar Mendes, Ana Almeida Santos, Anthero Monteiro, António Pinheiro, Cláudia Pinho, Luís Carvalho e Rafael Tormenta.
Convidado especial: Fernando Gaspar.
Intervenções musicais de Rui Paulino David.
Colaboração de Fátima Lopes.

Entrada Livre.