quinta-feira, 2 de agosto de 2012

En tu aniversario







Alejandra Pizarnik,
poeta argentina, 
1936 - 1972











Recibe este rostro mío, mudo, mendigo.
Recibe este amor que te pido.
Recibe lo que hay en mí que eres tú.

Alejandra Pizarnik, Los Trabajos y las Noches, 1965

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Prenda





Rabindranath Tagore,
Calcutá (1861-1941)
Prémio Nobel 1913







Ó meu amor, que prenda
Devo dar-te quando amanhecer?
Uma canção da manhã?
Mas a manhã não dura sempre –
O calor do sol
Murcha como uma flor
E as canções que cansam
Estão feitas.

Ó amigo, quando chegaste ao meu portão
Ao crepúsculo
Que perguntaste?
Que hei-de trazer-te?
Uma luz?
Um candedeeiro de um canto secreto da minha casa silenciosa?
Mas quererás levá-lo contigo
Pela estrada povoada?
Ah,
O vento há-de apagá-lo.

Sejam quais forem as prendas que te possa dar,
Que sejam flores,
Que sejam pérolas para o teu pescoço,
E como te podem agradar
Se com o tempo hão-de murchar,
Desfazer-se, perder o brilho?
Tudo o que as minhas mãos pudessem colocar nas tuas
Deslizará entre os dedos
E cairá esquecido no pó
Para em pó se tornar.

É melhor,
Quando estiveres ociosa,
Que deambules pelo meu jardim na primavera
E deixes um aroma de flor desconhecido e oculto sobressaltar-te com súbito encanto –
Deixar esse momento deslocado
Ser a minha prenda.
Ou se, quando perscrutares a sombria avenida por onde caminhas,
De repente, enfeitiçada
Pelas espessas tranças do anoitecer
Um simples e trémulo reflexo da luz do poente te detiver,
Transforma os teus sonhos em ouro,
E deixa que a luz seja uma inocente
Prenda.

O mais autêntico tesouro desaparece;
Brilha um instante, e depois vai-se.
Não diz o seu nome; a sua melodia
Barra-nos o caminho, a sua dança desaparece
Com o estremecimneto de um tornozelo.
Não conheço outra maneira –
Nenhuma mão, nenhuma palavra o pode alcançar.
Amiga, leves o que levares,
Sozinha,
Sem perguntar, sem saber, deixa que
Seja tua.
Qualquer coisa que eu te possa dar é insignificante –
Seja uma flor, seja uma canção.

Rabindranath Tagore, Poesia,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2004,
seleção e tradução de José Agostinho Baptista

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Aniversário






Máquina de escrever de
Fernando Pessoa



No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Alvaro de Campos, Poemas

Dia de anos




João de Deus










Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!

João de Deus, Campo de Flores

Happy Birthday


Como será o mundo quando eu não puder olhar para ele,
nem escutá-lo, nem tocar-lhe, nem cheirá-lo, nem saboreá-lo?
Como serão os demais sem este seu criado?
ou existirão tal como eu existo
sem os demais que já partiram?
no entanto,
porque será que alguns destes são uma foto em sépia
e outros uma nuvem nos olhos
e outros a mão do meu braço?
como seremos todos sem nós?
que cor que ruídos que pele suave que sabor que aroma
terá o bem(mal)dito mundo?
que sentido terá chegar a ser protagonista do silêncio?
vanguarda do esquecimento?
que será do amor e do sol das onze
e do crepúsculo triste sem causa válida?
ou serão por acaso  estas perguntas as mesmas
cada vez que alguém atinge os sessenta?

já sabemos como é sem as respostas
mas como será o mundo sem perguntas?

Mario Benedetti, Poemas del Alma
(tradução de Anthero Monteiro)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

o futuro o futuro o futuro










Foto: Marta Ferreira
Modelo: Daniela Couto








terá o futuro a cor rósea dos meus braços
ou do mar promissor dos meus olhos
ou a suavidade da minha pele jovem
ou o sabor de sonho que alguém
já descobriu nos meus lábios

apalpo a escuridão e só encontro
paredes negras e escorregadias
portas lacradas e janelas que o não são
porque dão para o vazio e só abrem
para deixar entrar a fuligem e o desespero

ventos incontroláveis varrem os labirintos
íntimos desta cabeça que estreito entre as mãos
e nem o vento nem o entendimento nem os sonhos
encontram um rumo um remo um arrimo
uma nuvem que sirva de leme uma ideia que sirva de lema

o futuro o futuro o futuro
como será o futuro que o futuro nos oferece
haverá futuro para além desta masmorra
haverá  futuro com este presente envenenado

(e todavia o futuro pulsa obsessivo nas têmporas)

Anthero Monteiro

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Introdução ao niilismo

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES



Amanhã, dia 4/1/2012, 21.30 h., estará nas Quartas Mal Ditas do Clube Literário do Porto.

Leituras pelo Coletivo das QmD.

Coordenação e guião de ANTHERO MONTEIRO.

Colaboração musical da pianista SOFIA LOURENÇO.










A noite passada enviei um SMS ao meu Pai

mas ele não respondeu. Já kontava kom issu. O

corpo dele baixou faz

outro mês amanhã

nenhum de nós destinou o Sony Ericsson dele

ao rectãngulo do caixão. Era

de um género antigo (outrossim

muito estimado)

algumas horas ligado mesmo sem conversação

começava a avisar: bateria esgotada.

Duvido porém que a rede fosse boa

lá no fundo.

Quando descia aos arrumos era o que acontecia.

Sucede que agora se quero falar com ele

tenho de ligar a Deus. E eu não falo com Ele.

Não quero ter de calar (olhando-O

olhos nos Olhos)

«uma morte nunca é justa»

«foi demasiado cedo» «já agora

passe aí a meu Pai».

Já tenho ligado para Deus

parece dar sempre ocupado.


João Luís Barreto Guimarães, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011

______

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade, conc. de Caminha. É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto e especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética no Centro Hospitalar de VN Gaia. Está na blogosfera com um blogue que tem o seu nome e com outro, coletivo, intitulado Poesia & Limitada.
Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, apenas com 22 anos, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro (1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão(2003), Luz Última (2006) e A Parte pelo Todo (2009). Todos estes livros tiveram reedições, mas encontram-se agora agrupados na coletânea recentemente publicada pela Quetzal, Poesia Reunida, o que nos possibilita apercebermo-nos com mais facilidade do percurso poético do autor.
José Mário Silva escreveu no Expresso, a propósito deste livro, que o autor «só sabe escrever «de dentro da vida» (expressão que é do pp. Poeta) e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.»
Também Pedro Mexia fala da poesia do João Luís como «uma reiterada capacidade de escrever sobre matéria jubilosa». Maria Alzira Seixo refere-se ao trabalho artístico do poeta como “mestria de composição” e Fernanda Botelho atribui-lhe «um impressionismo reflexivo e uma sensibilidade metafórica não muito comuns».
O magazine literário on line 3:AM refere-se à sua obra como «uma referência» e «um trabalho do que há de melhor nas letras portuguesas contemporâneas».
José Ricardo Nunes, no posfácio do livro, resume assim as características da poesia do João Luís: «a presença do real, numa explosão de vida, em todas as dimensões – pessoais, sociais, éticas; a atenção ao quotidiano, ao que surge à superfície dos dias e é facilmente reconhecível; o constante apelo ao leitor e a exigência da sua participação activa.» Humor, ironia, domínio da língua e da função poética da linguagem em todos os sentidos, brevidade e concisão, coloquialidade, são outras das suas virtudes. Mas o que mais deverá agradar-nos é poder verificar que tudo o que escreveu o fez com verdadeiro sentido lúdico e gozo estético e que é capaz de dar a usufruir esse prazer e deleite a quem o lê.