terça-feira, 14 de agosto de 2012

Torre dos Clérigos










Torre dos Clérigos
vista do poente
(Foto de 
Carolina Dias de Marques)







quando uma torre se levanta é para usar da palavra
traz algo nos lábios para dizer    histórias  
lembranças   saudações   augúrios

quando esta porém se erige acima de todos os coruchéus
acima dos outros campanários   acima do nevoeiro
não estira apenas o pescoço da curiosidade
para saber se o rio que desliza no sonho dos séculos
vai vestido de azul ou de ouro
ou para espreitar os acenos brancos das velas dos rabelos
ou o sulco das outras embarcações

orador sagrado num púlpito excelso
ébrio da eloquência de um  infinito azul
aponta o incomensurável como rumo
faz o panegírico da verticalidade
promete a bem-aventurança que mora no alto

sineira e crucífera deveria talvez
apetecer-lhe apenas a salvação das almas
mas esta torre granítica ereta acima das demais
já ali estava há muito de olhos postos no poente
vaticinando que seria do mar que chegaria
a auspiciosa palavra liberdade
semente sonhada de um paraíso terreno

chegou e logo chamaram invicta à cidade

a torre achando merecer também o epíteto
põe-se nos bicos dos pés de justificado orgulho
e cresce ainda um pouco mais

Anthero Monteiro 
publicado no livro de Helder Pacheco, 
Porto A Torre da Cidade nos 250 anos da Torre dos Clérigos, 
Porto, Edições Afrontamento, 2013, pp. 290/291

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

En tu aniversario







Alejandra Pizarnik,
poeta argentina, 
1936 - 1972











Recibe este rostro mío, mudo, mendigo.
Recibe este amor que te pido.
Recibe lo que hay en mí que eres tú.

Alejandra Pizarnik, Los Trabajos y las Noches, 1965

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Prenda





Rabindranath Tagore,
Calcutá (1861-1941)
Prémio Nobel 1913







Ó meu amor, que prenda
Devo dar-te quando amanhecer?
Uma canção da manhã?
Mas a manhã não dura sempre –
O calor do sol
Murcha como uma flor
E as canções que cansam
Estão feitas.

Ó amigo, quando chegaste ao meu portão
Ao crepúsculo
Que perguntaste?
Que hei-de trazer-te?
Uma luz?
Um candedeeiro de um canto secreto da minha casa silenciosa?
Mas quererás levá-lo contigo
Pela estrada povoada?
Ah,
O vento há-de apagá-lo.

Sejam quais forem as prendas que te possa dar,
Que sejam flores,
Que sejam pérolas para o teu pescoço,
E como te podem agradar
Se com o tempo hão-de murchar,
Desfazer-se, perder o brilho?
Tudo o que as minhas mãos pudessem colocar nas tuas
Deslizará entre os dedos
E cairá esquecido no pó
Para em pó se tornar.

É melhor,
Quando estiveres ociosa,
Que deambules pelo meu jardim na primavera
E deixes um aroma de flor desconhecido e oculto sobressaltar-te com súbito encanto –
Deixar esse momento deslocado
Ser a minha prenda.
Ou se, quando perscrutares a sombria avenida por onde caminhas,
De repente, enfeitiçada
Pelas espessas tranças do anoitecer
Um simples e trémulo reflexo da luz do poente te detiver,
Transforma os teus sonhos em ouro,
E deixa que a luz seja uma inocente
Prenda.

O mais autêntico tesouro desaparece;
Brilha um instante, e depois vai-se.
Não diz o seu nome; a sua melodia
Barra-nos o caminho, a sua dança desaparece
Com o estremecimneto de um tornozelo.
Não conheço outra maneira –
Nenhuma mão, nenhuma palavra o pode alcançar.
Amiga, leves o que levares,
Sozinha,
Sem perguntar, sem saber, deixa que
Seja tua.
Qualquer coisa que eu te possa dar é insignificante –
Seja uma flor, seja uma canção.

Rabindranath Tagore, Poesia,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2004,
seleção e tradução de José Agostinho Baptista

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Aniversário






Máquina de escrever de
Fernando Pessoa



No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Alvaro de Campos, Poemas

Dia de anos




João de Deus










Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!

João de Deus, Campo de Flores

Happy Birthday


Como será o mundo quando eu não puder olhar para ele,
nem escutá-lo, nem tocar-lhe, nem cheirá-lo, nem saboreá-lo?
Como serão os demais sem este seu criado?
ou existirão tal como eu existo
sem os demais que já partiram?
no entanto,
porque será que alguns destes são uma foto em sépia
e outros uma nuvem nos olhos
e outros a mão do meu braço?
como seremos todos sem nós?
que cor que ruídos que pele suave que sabor que aroma
terá o bem(mal)dito mundo?
que sentido terá chegar a ser protagonista do silêncio?
vanguarda do esquecimento?
que será do amor e do sol das onze
e do crepúsculo triste sem causa válida?
ou serão por acaso  estas perguntas as mesmas
cada vez que alguém atinge os sessenta?

já sabemos como é sem as respostas
mas como será o mundo sem perguntas?

Mario Benedetti, Poemas del Alma
(tradução de Anthero Monteiro)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

o futuro o futuro o futuro










Foto: Marta Ferreira
Modelo: Daniela Couto








terá o futuro a cor rósea dos meus braços
ou do mar promissor dos meus olhos
ou a suavidade da minha pele jovem
ou o sabor de sonho que alguém
já descobriu nos meus lábios

apalpo a escuridão e só encontro
paredes negras e escorregadias
portas lacradas e janelas que o não são
porque dão para o vazio e só abrem
para deixar entrar a fuligem e o desespero

ventos incontroláveis varrem os labirintos
íntimos desta cabeça que estreito entre as mãos
e nem o vento nem o entendimento nem os sonhos
encontram um rumo um remo um arrimo
uma nuvem que sirva de leme uma ideia que sirva de lema

o futuro o futuro o futuro
como será o futuro que o futuro nos oferece
haverá futuro para além desta masmorra
haverá  futuro com este presente envenenado

(e todavia o futuro pulsa obsessivo nas têmporas)

Anthero Monteiro