certo dia que lhes pareceu perfeito
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Encontro e desencontro
certo dia que lhes pareceu perfeito
ele
veio do lado esquerdo
ela
apareceu do lado direito
depois
desse encontro
levam-se
ainda pela mão um ao outro
e
nenhum deles suspeita
porque
nem temem a mútua perda
que
chegará o dia em que ele sairá pela direita
e
ela desaparecerá pela esquerda
Anthero
Monteiro
15/10/2011
O Menino Jesus não queria ser Deus
O menino Jesus não fugia à escola. Os outros meninos juntavam-se para fazer maldades, o menino Jesus ficava sempre de fora. Os meninos tinham pena dele, mas tinha que ser assim: ele era Deus, e Deus não pode fazer determinadas coisas.
Por isso, o
menino Jesus não ia para o rio roubar fruta, nem dizia coisas indecentes. Nem
sequer podia jogar à bola com os outros, porque fazia sempre milagres.
Até que um dia o menino Jesus foi ter com S. José e disse-lhe:
Até que um dia o menino Jesus foi ter com S. José e disse-lhe:
- Pai, não quero ser mais Deus.
- Isso não é comigo, é com a tua mãe.
Foi ter com a Virgem Maria. Mas ela disse-lhe:
- Agora já és Deus e pronto. Já não se pode fazer nada. Tu hás-de habituar-te, a mim a princípio também me meteu confusão. E agora vai estudar, porque amanhã tens que ensinar os doutores da lei.
O menino Jesus ficou muito triste e nessa noite não estudou nada. O milagre dos doutores por pouco ficava estragado. Nossa Senhora zangou-se e disse-lhe que o acusava à pomba.
Mas ele, como era Deus, sabia tudo; portanto, sabia que as pombas não fazem mal a ninguém e ria-se da Virgem Maria. S. José também lhe dizia:
- Não metas medo ao rapaz. Não te calas com o diabo da pomba, tu és mas é maluca.
- Não tens nada com isso. Ainda se o menino fosse teu filho, mas não. Falas só para questionares, és mau. Daqui a pouco começas para aí a dizer porcarias.
Mas estas discussões acabavam sempre bem, porque o menino Jesus fazia um milagre.
Um dia pediu à mãe um irmão, mas ela respondeu-lhe de maus modos. Os vizinhos riam-se muito de S. José, faziam troça de S. José por o filho dele ser filho de uma pomba, e como S. José era muito bom, o menino Jesus tinha pena e fazia mais milagres.
Um dos vizinhos tinha um filho muito mau chamado Alberto Caeiro, que nunca ia à escola, que se metia com as raparigas. O menino Jesus tinha muita inveja dele porque ele sabia nadar como ninguém e era dono duma caverna ao pé do rio.
Às vezes ia espreitá-lo e via-o lá dentro com as raparigas.
Acendiam fogueiras, comiam. O que o menino Jesus mais queria era ser um rapaz como ele. Mas a mãe queria que ele fosse Deus e o Deus que estava no céu também queria que ele fosse Deus, porque alguém tinha que viver aquela vida que estava escrita nos livros, uma vida pequenina (só durava 33 anos) e ainda por cima que acabava mal! O menino Jesus sabia tudo isto porque era Deus, e podia adivinhar.
Como era muito bom, não queria zangar a mãe, nem aborrecer o pai do céu. Mas também não queria ser mais Deus, porque ele é que sabia o que aquilo era.
E então começou a convencer o outro rapaz a trocar com ele. O outro a princípio não queria, bateu-lhe, etc. O menino Jesus podia ter feito um milagre, fazer-lhe cair o braço, ou chamar as legiões de anjos todas. Mas não. Disse-lhe assim:
- Ou trocas comigo ou transformo-te num porco.
O rapaz ficou assustadíssimo e fugiu para casa. Mas o menino Jesus fê-lo voltar para trás com um milagre. E voltou a dizer-lhe:
- Já sabes. Agora escolhe.
O outro estava muito aflito. Ofereceu-lhe a caverna, ofereceu-lhe tudo. Mas o menino Jesus não quis.
- E depois eu, também posso fazer milagres?
- Sim, disse o menino Jesus.
- Então obrigo-te a destrocar outra vez comigo.
E quando disse isto julgou que tinha vencido o menino Jesus. Mas o menino Jesus disse:
- Agora ainda sou Deus. E posso fazer um milagre. Esse milagre é que tu não possas nunca obrigar-me a destrocar.
- Está bem, disse o outro.
Foram sozinhos para a floresta e lá fizeram a troca. O menino Jesus ficou o outro, e o outro ficou menino Jesus. E vieram por aí fora a conversar os dois.
E só depois é que viram: afinal de contas não tinham trocado nada, porque o menino Jesus só fazia coisas perfeitas e a troca fora tão perfeita que tinha ficado tudo na mesma. E o menino Jesus, o de agora, voltou para casa muito aborrecido.
Afinal o pai do céu era mais esperto do que ele. E fez mesmo umas figas, coisa que nunca tinha feito na vida, quando, ao deixar as últimas árvores da floresta, viu uma pomba muito branca que levantava voo, fugia.
- Oh, disse ele quase a chorar.
Manuel António Pina, O País das Pessoas de Pernas para o Ar
Foto in Papa-Livros (Blogue)
Foto in Papa-Livros (Blogue)
domingo, 30 de setembro de 2012
quedas
Anthero Monteiro
(foto de Anaas)
de repente um estrondo
algures na casa
rouba-me de um voo alucinante
sobre campos e bosques e aldeias
acendo as luzes
percorro toda a casa
entro na biblioteca
herberto helder
está prostrado por terra
voluminoso asas abertas
uma quebrada
alguém o empurrara ou então
ele se lançara do oitavo
andar das estantes onde
pus a morar os grandes paquidermes
o dante alighieri o ariosto
pejado das fúrias de orlando
o rui belo inteiro o al berto
sobraçando a bíblia negra
intumescida de medo
este aliás fora de lá preci
pitado na véspera
pela mesma estranha força
um ente qualquer poeticida
habitante de uma página assombrada
ergo herberto da alcatifa acarinho-o
componho-lhe as asas subo
a uma cadeira dependuro-me
com risco de cair
recoloco-o no seu lugar
mais acordado mostro-me na varanda
às minhas estrelas e a todos
os figurantes do cortejo celeste
um deles talvez um cuspidor de fogo
saúda-me num rasto repentino
desprende-se acima de perseu
sobressalta a cassiopeia
despenha-se nas pinças de andrómeda
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Sortilégios da noite
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Pouco mar
Foto
A.M.
perante a maré
cheia dos teus olhos
envergonha-se o
mar de ser tão pouco
e é só
acidental o infinito
ao ver como são
sôfregos teus lábios
já recolhem os
polvos as ventosas
e as lapas nada
mostram aos rochedos
de quanta
obstinação eram capazes
andam as ondas
a aprender requebros
ao ritmo dessas
ancas tão volúveis
e ao ver quanto
um do outro teus joelhos
fugiram a
fingir que se não querem
desabotoam
risos flores profundas
e libertam seus
raios as actínias
como os dedos
das águas imiscuindo-se
rebuscando
segredos pelos seixos
essas mãos agem
ágeis com denodo
e encontraram
num ápice o tesouro
que escondi na
avidez de o ver roubado
este mar nada
sabe nem suspeita
da volúpia do
sal dos teus eflúvios
da tontura
abissal do teu pescoço
do pântano dos
olhos que me perdem
do marulhar da
voz que me afogou
foi quando nós
nos fomos abraçados
que o aturdido
oceano onda após onda
veio estudar na
areia que foi nossa
os signos que
escreveu tanto desejo
- mil carateres
gravados numa folha
vinte
metros quadrados de paixão
Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens, Porto,
Egoiste, 2010
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Poemas de Anthero Monteiro
Visitação
Quando a porta se abriu,
perguntaste
quem era.
Não
se pergunta ao amor
que
nome tem.
Albano Martins,
Escrito a Vermelho, 1999
Teoria do caos
de repente
bateram
a porta
rompeu-se e o telhado saltou
de repente
esvoaças
e tens muitos
pés enrolados nas nuvens
de repente
ardem-te na fronte
constelações de
olhos em fogo
de repente nem
sabes
porque é a arca
do peito um palco de concerto
de repente o
planeta
descarrila e
ganha sucessivas órbitas
de repente és
irmão
não apenas dos
homens mas das pedras também
e dos vermes e
dos mastodontes
de repente és
ventríloquo
e louco e
funâmbulo
de repente
fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o
corpo aos tigres e aos pumas
de repente és
capaz de engolir facas
e espadas e
raios e abismos
muitas vezes
ouviste falar das borboletas
que batem as
asas na china
e provocam
ciclones nos antípodas
não deve
espantar-te por isso que um simples sorriso
do outro lado
da mesa
possa causar
deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero
Monteiro, Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste, 2010constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Torre dos Clérigos
Torre dos Clérigos
vista do poente
(Foto de
Carolina Dias de Marques)
quando uma torre se levanta é para usar da palavra
traz algo
nos lábios para dizer histórias
lembranças saudações
augúrios
quando
esta porém se erige acima de todos os coruchéus
acima dos
outros campanários acima do nevoeiro
não estira
apenas o pescoço da curiosidade
para saber
se o rio que desliza no sonho dos séculos
vai
vestido de azul ou de ouro
ou
para espreitar os acenos brancos das velas dos rabelos
ou
o sulco das outras embarcações
orador
sagrado num púlpito excelso
ébrio da
eloquência de um infinito azul
aponta o
incomensurável como rumo
faz o
panegírico da verticalidade
promete a
bem-aventurança que mora no alto
sineira e
crucífera deveria talvez
apetecer-lhe
apenas a salvação das almas
mas esta
torre granítica ereta acima das demais
já ali
estava há muito de olhos postos no poente
vaticinando
que seria do mar que chegaria
a
auspiciosa palavra liberdade
semente
sonhada de um paraíso terreno
chegou e
logo chamaram invicta à cidade
a torre
achando merecer também o epíteto
põe-se nos
bicos dos pés de justificado orgulho
e cresce
ainda um pouco mais
Anthero Monteiro
publicado no livro de Helder Pacheco,
Porto A Torre da Cidade nos 250 anos da Torre dos Clérigos,
Porto, Edições Afrontamento, 2013, pp. 290/291
publicado no livro de Helder Pacheco,
Porto A Torre da Cidade nos 250 anos da Torre dos Clérigos,
Porto, Edições Afrontamento, 2013, pp. 290/291
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