quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Os gatos










Foto A.M.



Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem


Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa


Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Manuel António Pina
Como se desenha uma casa,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2011

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Encontro e desencontro













certo dia que lhes pareceu perfeito
ele veio do lado esquerdo
ela apareceu do lado direito

depois desse encontro
levam-se ainda pela mão um ao outro
e nenhum deles suspeita
porque nem temem a mútua perda
que chegará o dia em que ele sairá pela direita
e ela desaparecerá pela esquerda

Anthero Monteiro
15/10/2011

O Menino Jesus não queria ser Deus


O menino Jesus não fugia à escola. Os outros meninos juntavam-se para fazer maldades, o menino Jesus ficava sempre de fora. Os meninos tinham pena dele, mas tinha que ser assim: ele era Deus, e Deus não pode fazer determinadas coisas.
Por isso, o menino Jesus não ia para o rio roubar fruta, nem dizia coisas indecentes. Nem sequer podia jogar à bola com os outros, porque fazia sempre milagres.

Até que um dia o menino Jesus foi ter com S. José e disse-lhe:

- Pai, não quero ser mais Deus.

- Isso não é comigo, é com a tua mãe.

Foi ter com a Virgem Maria. Mas ela disse-lhe:

- Agora já és Deus e pronto. Já não se pode fazer nada. Tu hás-de habituar-te, a mim a princípio também me meteu confusão. E agora vai estudar, porque amanhã tens que ensinar os doutores da lei.

O menino Jesus ficou muito triste e nessa noite não estudou nada. O milagre dos doutores por pouco ficava estragado. Nossa Senhora zangou-se e disse-lhe que o acusava à pomba.

Mas ele, como era Deus, sabia tudo; portanto, sabia que as pombas não fazem mal a ninguém e ria-se da Virgem Maria. S. José também lhe dizia:

- Não metas medo ao rapaz. Não te calas com o diabo da pomba, tu és mas é maluca.

- Não tens nada com isso. Ainda se o menino fosse teu filho, mas não. Falas só para questionares, és mau. Daqui a pouco começas para aí a dizer porcarias.

Mas estas discussões acabavam sempre bem, porque o menino Jesus fazia um milagre.

Um dia pediu à mãe um irmão, mas ela respondeu-lhe de maus modos. Os vizinhos riam-se muito de S. José, faziam troça de S. José por o filho dele ser filho de uma pomba, e como S. José era muito bom, o menino Jesus tinha pena e fazia mais milagres.

Um dos vizinhos tinha um filho muito mau chamado Alberto Caeiro, que nunca ia à escola, que se metia com as raparigas. O menino Jesus tinha muita inveja dele porque ele sabia nadar como ninguém e era dono duma caverna ao pé do rio.

Às vezes ia espreitá-lo e via-o lá dentro com as raparigas.

Acendiam fogueiras, comiam. O que o menino Jesus mais queria era ser um rapaz como ele. Mas a mãe queria que ele fosse Deus e o Deus que estava no céu também queria que ele fosse Deus, porque alguém tinha que viver aquela vida que estava escrita nos livros, uma vida pequenina (só durava 33 anos) e ainda por cima que acabava mal! O menino Jesus sabia tudo isto porque era Deus, e podia adivinhar.

Como era muito bom, não queria zangar a mãe, nem aborrecer o pai do céu. Mas também não queria ser mais Deus, porque ele é que sabia o que aquilo era.
E então começou a convencer o outro rapaz a trocar com ele. O outro a princípio não queria, bateu-lhe, etc. O menino Jesus podia ter feito um milagre, fazer-lhe cair o braço, ou chamar as legiões de anjos todas. Mas não. Disse-lhe assim:

- Ou trocas comigo ou transformo-te num porco.

O rapaz ficou assustadíssimo e fugiu para casa. Mas o menino Jesus fê-lo voltar para trás com um milagre. E voltou a dizer-lhe:

- Já sabes. Agora escolhe.

O outro estava muito aflito. Ofereceu-lhe a caverna, ofereceu-lhe tudo. Mas o menino Jesus não quis.

- E depois eu, também posso fazer milagres?

- Sim, disse o menino Jesus.

- Então obrigo-te a destrocar outra vez comigo.

E quando disse isto julgou que tinha vencido o menino Jesus. Mas o menino Jesus disse:

- Agora ainda sou Deus. E posso fazer um milagre. Esse milagre é que tu não possas nunca obrigar-me a destrocar.

- Está bem, disse o outro.

Foram sozinhos para a floresta e lá fizeram a troca. O menino Jesus ficou o outro, e o outro ficou menino Jesus. E vieram por aí fora a conversar os dois.

E só depois é que viram: afinal de contas não tinham trocado nada, porque o menino Jesus só fazia coisas perfeitas e a troca fora tão perfeita que tinha ficado tudo na mesma. E o menino Jesus, o de agora, voltou para casa muito aborrecido.
Afinal o pai do céu era mais esperto do que ele. E fez mesmo umas figas, coisa que nunca tinha feito na vida, quando, ao deixar as últimas árvores da floresta, viu uma pomba muito branca que levantava voo, fugia.

- Oh, disse ele quase a chorar.

Manuel António Pina, O País das Pessoas de Pernas para o Ar

Foto in Papa-Livros (Blogue)

domingo, 30 de setembro de 2012

quedas














Anthero Monteiro
(foto de Anaas)





de repente um estrondo
algures na casa
rouba-me de um voo alucinante
sobre campos  e bosques e aldeias

acendo as luzes
percorro toda a casa
entro na biblioteca

herberto helder
está prostrado por terra
voluminoso asas abertas
uma quebrada

alguém o empurrara ou então
ele se lançara do oitavo
andar das estantes onde
pus a morar os grandes paquidermes
o dante alighieri o ariosto
pejado das fúrias de orlando
o rui belo inteiro o al berto
sobraçando a bíblia negra
intumescida de medo

este aliás fora de lá preci
pitado na véspera
pela mesma estranha força
um ente qualquer poeticida
habitante de uma página assombrada

ergo herberto da alcatifa acarinho-o
componho-lhe as asas subo
a uma cadeira dependuro-me
com risco de cair
recoloco-o no seu lugar

mais acordado mostro-me na varanda
às minhas estrelas e a todos
os figurantes do cortejo celeste
um deles talvez um cuspidor de fogo
saúda-me num rasto repentino
desprende-se acima de perseu
sobressalta a cassiopeia
despenha-se nas pinças de andrómeda

Anthero Monteiro (inédito)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Pouco mar








Foto
A.M.






perante a maré cheia dos teus olhos
envergonha-se o mar de ser tão pouco
e é só acidental o infinito

ao ver como são sôfregos teus lábios
já recolhem os polvos as ventosas
e as lapas nada mostram aos rochedos
de quanta obstinação eram capazes

andam as ondas a aprender requebros
ao ritmo dessas ancas tão volúveis
e ao ver quanto um do outro teus joelhos
fugiram a fingir que se não querem
desabotoam risos flores profundas
e libertam seus raios as actínias

como os dedos das águas imiscuindo-se
rebuscando segredos pelos seixos
essas mãos agem ágeis com denodo
e encontraram num ápice o tesouro
que escondi na avidez de o ver roubado

este mar nada sabe nem suspeita
da volúpia do sal dos teus eflúvios
da tontura abissal do teu pescoço
do pântano dos olhos que me perdem
do marulhar da voz que me afogou

foi quando nós nos fomos abraçados
que o aturdido oceano onda após onda
veio estudar na areia que foi nossa
os signos que escreveu tanto desejo

- mil carateres gravados numa folha
vinte metros quadrados de paixão

Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens, Porto, Egoiste, 2010

Visitação












Quando a porta se abriu,
perguntaste quem era.

Não se pergunta ao amor
que nome tem.

Albano Martins,
Escrito a Vermelho, 1999

Teoria do caos
















de repente bateram
a porta rompeu-se e o telhado saltou
de repente esvoaças
e tens muitos pés enrolados nas nuvens
de repente ardem-te na fronte
constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos

muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso que um simples sorriso
do outro lado da mesa
possa causar deste lado

o mais terrível dos cataclismos

Anthero Monteiro, Sete Vezes Sete Nuvens, Porto, Egoiste, 2010constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos

muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos

Anthero Monteiro
constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos

muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos

Anthero Monteiro