segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Apresentação



Cantar
não é talvez suficiente.
Não porque não acendam de repente as noites
tuas palavras irmãs do fogo
mas só porque palavras são
apenas chama e vento.

Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar
porque a minha canção não fica no papel.
Eu venho tocar os sinos.
Planto espadas
e transformo destinos.
Os homens ouvem-me cantar
e a pele
dos homens fica arrepiada.
E depois é madrugada
dentro dos homens onde ponho
uma espingarda e um sonho.

E é inútil mandarem-me calar.
De certo modo sou um guerrilheiro
que traz a tiracolo
uma espingarda carregada de poemas
ou se preferem sou um marinheiro
que traz o mar ao colo e meteu um navio pela terra dentro
e pendurou depois no vento
uma canção.

Já disse: planto espadas
e transformo destinos.
E para isso basta-me tocar os sinos
que cada homem tem no coração.

Manuel Alegre, «Praça da Canção»
in Obra Poética, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

Fala do homem nascido













Foto
A.M.






(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.

Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.

Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão, Teatro do Mundo, 1958


Aqui te amo










Foto
A.M.




Aqui te amo.
Nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento.
A lua fosforesce sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Desperta-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.

Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses navios graves
que correm pelo mar aonde nunca chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde.
A minha vida cansa-se inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas a noite aparece e começa a cantar-me.
A lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento
querem cantar o teu nome com as folhas de arame.

Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007
(tradução de Fernando Assis Pacheco)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Dois cigarros









Foto
A. M.





Cada noite é a libertação. Contemplam-se os reflexos
no asfalto das avenidas que se abrem luminosas ao vento.
Cada raro transeunte tem um rosto e uma história.
Mas a esta hora deixa de haver cansaço: os milhares de luzes
são todos para quem pára para riscar um fósforo.

A chamazinha apaga-se contra o rosto da mulher
que me pede lume. Apaga-se com o vento
e a mulher, frustrada, pede-me outro,
que também se apaga: a mulher agora ri-se baixinho.
Aqui podemos falar em voz alta e gritar,
que ninguém ouve. Erguemos os olhar
para todas as janelas - olhos apagados que dormem -
e esperamos. A mulher encolhe os ombros
e queixa-se de que perdeu o xaile às cores
que a aquecia à noite. Mas basta apoiar-se
contra a esquina e o vento não é mais do que um sopro.
No asfalto gasto há já uma beata.
Este xaile veio do Rio, diz-me a mulher,
que está contente por tê-lo perdido, pois me encontrou.
Se o xaile veio do Rio, atravessou de noite
o oceano inundado de luzes pelo grande transatlântico.
Noites de vento, sem dúvida. É um presente dum seu marinheiro.
O marinheiro desapareceu. A mulher sussurra-me
que, se for com ela, me mostra o retrato
de caracóis e bronzeado. Viajava em vapores sebentos
e limpava as máquinas: eu sou mais bonito.

No asfalto há duas beatas. Olhamos para o céu:
a janela lá em cima - aponta com o dedo - é a nossa.
Mas lá em cima não há aquecedor. De noite, os navios perdidos
têm poucas luzes ou apenas as estrelas.
Atravessamos o asfalto de braço dado, brincando a aquecer-nos.


Cesare PaveseTrabalhar Cansa, Lisboa, Cotovia, 1998
(Tradução de Carlos Leite)


Poema da malta das naus



Lancei ao mar um madeiro, 
espetei-lhe um pau e um lençol. 
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol. 

Deu-me o vento de feição, 
levou-me ao cabo do mundo, 
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão. 

Dormi no dorso das vagas, 
pasmei na orla das praias, 
arreneguei, roguei pragas, 
mordi peloiros e zagaias. 

Chamusquei o pêlo hirsuto, 
tive o corpo em chagas vivas, 
estalaram-me a gengivas, 
apodreci de escorbuto. 

Com a mão esquerda benzi-me, 
com a direita esganei. 
Mil vezes no chão, bati-me, 
outras mil me levantei. 

Meu riso de dentes podres 
ecoou nas sete partidas. 
Fundei cidades e vidas, 
rompi as arcas e os odres. 

Tremi no escuro da selva, 
alambique de suores. 
Estendi na areia e na relva 
mulheres de todas as cores. 

Moldei as chaves do mundo 
a que outros chamaram seu, 
mas quem mergulhou no fundo 
do sonho, esse, fui eu. 

O meu sabor é diferente. 
Provo-me e saibo-me a sal. 
Não se nasce impunemente 
nas praias de Portugal. 

António Gedeão, Teatro do Mundo, 1958

Padrão




















O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Fernando Pessoa, Mensagem e Outros Poemas Afins

Viagem









Foto
A.M.





Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é o partir, não o chegar.

Miguel Torga, «Câmara Ardente» in Antologia Poética,
Casais de Mem Martins / Rio de Mouro, Círculo de Leitores