segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Quando nos iremos...?


Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, navio com máquina, navio com remos,
Navio com qualquer cousa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
Da saudade, engano que se deslembra da realidade,
Da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, via láctea lenta
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.

Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que têm realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade,
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de pedi-la…
Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?

[…]
Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, à busca de não buscar,
À busca só de partir,
À busca só de não ser,
À primeira morte possível ainda em vida –
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.

Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada…
Só a sombra fugaz no chão da caverna no desgosto da alma,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
De olhar velado divino.

Navio, quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem,
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!

Álvaro de CamposPoesia dos Outros Eus
Mem Martins, Rio de Mouro,  Círculo de Leitores, 2007

Ode marítima (excerto)












Fernando Pessoa
por
Alfredo Luz






 […]

Tremo com um frio de alma repassando-me o corpo
E abro de repente os olhos, que não tinha fechado.
Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez! 
Eis outra vez o mundo real, tão bondoso para os nervos! 
Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo. 

Já não me importa o paquete que entrava. Ainda está longe. 
Só o que está perto agora me lava a alma. 
A minha imaginação higiénica, forte, prática, 
Preocupa-se agora apenas com as cousas modernas e úteis, 
Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros, 
Com as fortes cousas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras. 
Abranda o seu giro dentro de mim o volante. 

Maravilhosa vida marítima moderna, 
Toda limpeza, máquinas e saúde! 
Tudo tão bem arranjado, tão espontaneamente ajustado, 
Todas as peças das máquinas, todos os navios pelos mares, 
Todos os elementos da actividade comercial de exportação e importação 
Tão maravilhosamente combinando-se 
Que corre tudo como se fosse por leis naturais, 
Nenhuma coisa esbarrando com outra! 

Nada perdeu a poesia. E agora há a mais as máquinas 
Com a sua poesia também, e todo o novo gênero de vida 
Comercial, mundana, intelectual, sentimental, 
Que a era das máquinas veio trazer para as almas. 
As viagens agora são tão belas como eram dantes 
E um navio será sempre belo, só porque é um navio. 
Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve 
Em parte nenhuma, graças a Deus! 

[…]

Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, in Poesia dos Outro Eus,
 Casais de Mem Martins, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2007

Outono













Auto-retrato do
poeta marinheiro
Giuseppe Gianinni
Pancetti (Brasil)




Uma lâmina de ar
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no outono. E a canção
que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar.
Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.


Joaquim Pessoa125 Poemas - Antologia Poética

Apresentação



Cantar
não é talvez suficiente.
Não porque não acendam de repente as noites
tuas palavras irmãs do fogo
mas só porque palavras são
apenas chama e vento.

Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar
porque a minha canção não fica no papel.
Eu venho tocar os sinos.
Planto espadas
e transformo destinos.
Os homens ouvem-me cantar
e a pele
dos homens fica arrepiada.
E depois é madrugada
dentro dos homens onde ponho
uma espingarda e um sonho.

E é inútil mandarem-me calar.
De certo modo sou um guerrilheiro
que traz a tiracolo
uma espingarda carregada de poemas
ou se preferem sou um marinheiro
que traz o mar ao colo e meteu um navio pela terra dentro
e pendurou depois no vento
uma canção.

Já disse: planto espadas
e transformo destinos.
E para isso basta-me tocar os sinos
que cada homem tem no coração.

Manuel Alegre, «Praça da Canção»
in Obra Poética, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

Fala do homem nascido













Foto
A.M.






(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.

Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.

Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão, Teatro do Mundo, 1958


Aqui te amo










Foto
A.M.




Aqui te amo.
Nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento.
A lua fosforesce sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Desperta-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.

Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses navios graves
que correm pelo mar aonde nunca chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde.
A minha vida cansa-se inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas a noite aparece e começa a cantar-me.
A lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento
querem cantar o teu nome com as folhas de arame.

Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007
(tradução de Fernando Assis Pacheco)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Dois cigarros









Foto
A. M.





Cada noite é a libertação. Contemplam-se os reflexos
no asfalto das avenidas que se abrem luminosas ao vento.
Cada raro transeunte tem um rosto e uma história.
Mas a esta hora deixa de haver cansaço: os milhares de luzes
são todos para quem pára para riscar um fósforo.

A chamazinha apaga-se contra o rosto da mulher
que me pede lume. Apaga-se com o vento
e a mulher, frustrada, pede-me outro,
que também se apaga: a mulher agora ri-se baixinho.
Aqui podemos falar em voz alta e gritar,
que ninguém ouve. Erguemos os olhar
para todas as janelas - olhos apagados que dormem -
e esperamos. A mulher encolhe os ombros
e queixa-se de que perdeu o xaile às cores
que a aquecia à noite. Mas basta apoiar-se
contra a esquina e o vento não é mais do que um sopro.
No asfalto gasto há já uma beata.
Este xaile veio do Rio, diz-me a mulher,
que está contente por tê-lo perdido, pois me encontrou.
Se o xaile veio do Rio, atravessou de noite
o oceano inundado de luzes pelo grande transatlântico.
Noites de vento, sem dúvida. É um presente dum seu marinheiro.
O marinheiro desapareceu. A mulher sussurra-me
que, se for com ela, me mostra o retrato
de caracóis e bronzeado. Viajava em vapores sebentos
e limpava as máquinas: eu sou mais bonito.

No asfalto há duas beatas. Olhamos para o céu:
a janela lá em cima - aponta com o dedo - é a nossa.
Mas lá em cima não há aquecedor. De noite, os navios perdidos
têm poucas luzes ou apenas as estrelas.
Atravessamos o asfalto de braço dado, brincando a aquecer-nos.


Cesare PaveseTrabalhar Cansa, Lisboa, Cotovia, 1998
(Tradução de Carlos Leite)