Foto A.M.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Alzheimer
Foto A.M.
estou triste bem
órfão de vontade
afogado num mar
morto
de lágrimas estéreis
de tão ácidas
só me vale
ter dado conta
de súbito
que nem sequer
existo
a mãe que eu
julgava
ter-me trazido
ao mundo
esqueceu
o meu nome
Anthero Monteiro
Porto, 7 de Maio
de 2005
Receita para fazer poemas
in blogue
Mulheres com QI
Adicione a trezentos gramas de imagens poéticas
dois decilitros de lirismo puro
e bata até obter uma pasta
homogénea.
Àparte misture em partes iguais
estilo pessoal, vivência, ironia
e moral de uso caseiro,
aromatize com essências de
cultura greco-latina
e ponha passas de amargura
amêndoas de fatalismo
cerejas de filosofia e pinhões de
retórica
tudo seco e picado miúdo.
Ligue bem as duas misturas de
modo
A que os sabores fiquem
identificáveis
E sejam fáceis a qualquer
digestão.
Leve a cozinhar em editor brando,
sirva morno em primeira edição.
Deve acompanhar-se este manjar
com um clarete seco de promoção
pessoal à temperatura ambiente
ou com um licor de oportunidade
política muito gelado.
Manuel Mengo,
A Floresta de Asfalto,
Edição da Casa Museu Vasco
de Lima Couto, Constância, s/ d.
Etiquetas:
Maldita Poesia,
Manuel Mengo,
POESIA PARA COMER... E BEBER
quarta-feira, 13 de março de 2013
Primeiros passos
tudo
poderia ter sido como na tela de Millet
mais tarde
reinventada a seu modo por Van Gogh
é como se
ambos tivessem presenciado a mesma cena
mas de
ângulos diversos ou em momentos diferentes
o primeiro
sob a luz fosca de uma manhã fria
o segundo no
arredar das nuvens para um sol triunfante
o portão
do pátio abre para o campo fronteiro à casa
a vedação
em tábuas verticais entre ambos os espaços
suporta
uma sebe mais baixa e a roupa estendida
cabriolando
ao vento sob a fronde das árvores
a mãe junto
à saída segura a criança por baixo
dos braços que se erguem em direção ao pai
este
largara a pá e o carro de mão
e ali está
acocorado um joelho no solo
de braços
também abertos encorajando o encontro
decerto a
criança erguerá um pé titubiante
dará um
passo em frente e inaugurará assim
o longo
caminho de uns três metros
que o
levará ao ancoradouro do abraço paterno
também eu
terei assim inaugurado o itinerário
pela vida
que me trouxe a esta mesa
onde
obrigo as palavras a alinharem-se
como
pelotões de submissos soldados
o local
terá sido idêntico as personagens
terão sido outras em vez do pai longíquo
a ganhar o
futuro na orla de outros mares
talvez o
xaile preto e os zelos da avó
como
falaria de outro modo do primeiro passo
como evocar
o espanto inicial o primeiro olhar
o primeiro
balbucio a primeira sílaba
a primeira
palavra a primeira surpresa
o primeiro
susto a primeira lágrima
a primeira
lembrança o primeiro esquecimento
era o
tempo da primeira grande amnésia
do que fui
do que vi do que vivi
ficando
apenas documentados dois ou três
momentos
fugidios e talvez sem préstimo
em retratos
da fotografia evaristo
se vivemos
outra vida terrena anterior
como creem
alguns tudo esquecemos bebendo
do rio
letes ao entrar no reino das sombras
voltámos a
beber da mesma água do esquecimento
antes de
regressar à vida e retomar um corpo
para não
trazer connosco reminiscências
do que
viram os olhos no mundo subterrâneo
bebemos certamente
em demasia dessa água
sulfúrica
que ainda nos faz deslembrar os traumas
do eclodir
das águas dos gritos da maior dor
da tesoura
da separação da chucha omnipresente
dos
cueiros mijados do gatinhar pelo chão
dos pés
trôpegos e das quedas e dos choros
e de todas
as indecorosas figuras do caloiro
que se
matriculou na escola da vida
totalmente
ignorante e já desmemoriado
Anthero
Monteiro
terça-feira, 12 de março de 2013
últimas palavras
Agonia (1915),
Edvard Munch in
www.dw.de/popups/popup_gallery/pt_edvardmunch.html
quando a morte se insinuou porta adentro
victor hugo afiançou estar a
ver uma negra luz
lorde byron observou que chegara
a hora de descansar
beethoven declarou que era já tarde
wagner que estava a sentir-se
muito mal
mas h. g. wells proferiu apenas i’m
all right
darwin asseverou que não sentia o
mínimo medo de morrer
e bernard shaw que isso era mais
fácil do que escrever uma comédia
cristo afirmou que tudo estava
consumado
e freud que tudo aquilo era
absurdo
muitos acharam-se ainda
merecedores de um último obséquio
rosalia pediu que abrissem a
janela para ver o mar
goethe que deixassem entrar mais
luz
mozart que lhe dessem a ouvir uma
vez mais os sons da sua alegria
e o conde de mirabeau que pudesse
também morrer ao som da música
george washington que não lhe
fechassem o corpo num caixão sem terem passado dois dias depois da morte
beethoven que aplaudissem o fim
da comédia
mussolini que o seu executor lhe
disparasse para o peito
e picasso que bebessem à sua
saúde já que ele não podia beber mais
guilherme braga invocou deus e disse estar a sofrer mesmo com o céu coalhado
de estrelas
cromwell agradeceu a chegada da
morte pois assim estava salvo
adam smith gritou liberdade para
sempre
e voltaire quando o padre lhe
pediu que renunciasse a satã replicou que aquela não era boa altura para fazer
inimigos
outros só terão soltado um
monossílabo ou nada puderam dizer
sansão apenas terá tido tempo
para um ui quando o templo desabou sobre ele
sófocles só conseguiu rir com um
ataque de alegria
e aretino morreu às gargalhadas
isadora duncan ia a abrir a boca
e foi estrangulada com a écharpe presa a uma roda do descapotável
tennessee williams engoliu as
palavras com uma tampa de remédio
e anacreonte nada disse porque uma
grainha de uva bastou para o calar para sempre
quanto a mim creio ainda estar
vivo e ileso apesar de tudo
mas a avaliar pelo que me
aconteceu um dia
em situação de morte iminente
não direi nada que seja
edificante
lembro-me bem regresso a
casa hora de ponta
ao volante a cem
de repente uns chuviscos
a prudência a aflorar o travão
o carro a guinar à esquerda
através do trânsito em sentido
contrário
o abismo ali diante e já
sem tempo para escolher as
palavras
saiu-me apenas esta nobre
interjeição
fodeu-se
Anthero Monteiro
quinta-feira, 7 de março de 2013
a outra avó
Foto in blogue
"Diário de um demónio
apaixonado"
vejo-a ainda sempre dobrada
para o chão
que teimava em requisitá-la
e devia ser o de uma ilha
perdida
assolada por abalos
permanentes
vivera sempre do chão
arroteando semeando
plantando adubando regando
colhendo
só espreitava os céus para
convidar as nuvens
a empapar os regueiros ou o
sol
a vir secar o milho ou o
feijão na eira
dessas bênçãos dava graças
a um deus
providencial todas as
noitinhas
à hora em que as trindades
se entornavam
como lágrimas pelos
camalhões dos campos
e pelas vielas já desertas
da aldeia
o peso dos dias sempre
iguais
aproximara-lhe a cabeça e
os pés
a memória deve ter
resvalado para o chão
e deve ter-se perdido em
galerias de toupeira
outro nexo nasceu-lhe nos sulcos
da cabeça
e parecia apenas
recordar-se do futuro
o marido finara-se muito
jovem
mas ela que só
conhecera a cor do luto
fazia-nos rir ainda que
amargamente
falando amiúde em casar com
um belo rapaz
toucada de flores de
laranjeira
iguais às do ramo nupcial
pouco depois desposou dona
morte
que soube aquietar-lhe
aquelas mãos sísmicas
sempre agitadas por um
vento gélido
que rondava o seu cadeirão junto
à lareira
e antes de lhe fecharem as
duas folhas
do ataúde sobre os olhos
voltados aos céus
beijei-lhe a fronte lívida
feita das pedras do chão
Anthero Monteiro
quarta-feira, 6 de março de 2013
luto
Foto
A.M.
toda a vida conheci minha avó vestida de noite
e ouvia-a dizer tenho o coração como a noite
como se o maior dos tormentos fosse a noite
enfim foram só cinquenta e dois anos de noite
bem se esmerou o sol mas não conseguiu romper a noite
até que um anjo amigo
(nem sei como tão pobre
conseguira amizades na corte celestial)
mandou chamá-la
para a libertar de tamanha viuvez
fizeram-lhe uma veste diáfana
do tecido de uma nuvem branca
e os seus olhos passaram a ver apenas o dia
para isso bastou que ela os fechasse
Anthero Monteiro
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
A besta do diretor
Edvard Munch,
O Grito
o diretor era uma besta
é o que
dizem este rancor já cansado
este
resquício de raiva inútil
este asco
há muito diluído
por meio
século de distância
ainda que
o ódio segundo balzac
seja mais
dotado de memória do que o amor
olho estas
mãos e nem elas esquecem
que eram
naquele tempo dedinhos de ternura
e que se
transformavam num ápice
seviciadas
pela fúria do energúmeno
em manápulas
desmedidas que mal cabiam
no vão refrigério
dos sovacos
quem há de
esquecer a brutalidade
exercida
sobre a inocência
o escárnio
perante a candura
o ardil
para surpreender a falta
o sadismo das
punições em série
a
adolescência ocupada pela arbitrariedade
quem há de
esquecer
que era
inútil tentar perceber
o porquê
das sanções
o
permanente demérito do louvor
do sorriso
da indulgênca do estímulo
quem há de
esquecer
se a recordação
se sobrepõe ao ódio
e é um
ferrete indelével
na pele do
escravo
basta
lembrar um claustro a capela
ou a sala
do capítulo daquela casa
para logo
perceber como ela ficou
para sempre
assombrada
pela
figura voluminosa do diretor
morreu enfim
como morrem
todos os
homens e todas as bestas
mesmo as
mais paquidérmicas e diluvianas
este é o
panegírico possível
quase já
despido de ódios, porque a morte
tudo lava
e leva
e talvez
leve também
esta negra
lembrança
mas
aqueles corredores escadarias
salas e
dormitórios e todos os meus íntimos
corredores e recessos continuarão a ser
sobressaltados
pelo seu jurássico espetro
Anthero
Monteiro
Subscrever:
Mensagens (Atom)









