quinta-feira, 28 de março de 2013

um estranho na cama









foto
A.M.





aflitíssimo tocou o telefone pela manhã bem cedo
do outro lado irrompeu suplicante a voz da mãe
estava um homem na sua própria cama nunca o vira
não o conhecia viesse depressa antes que despertasse

saltou para o volante
fez voar a máquina
estacou bruscamente
precipitou-se no quarto
lá estava um desconhecido
bem conhecido afinal
o próprio pai

o tal que ela desposara em dia tão sonhado
aquele cujas feições devia saber de cor
e cujos lábios bebera vezes impossíveis de contar
aquele que lhe ensinara a febre do ciúme
o delírio da espera a labareda estreme do amor
com ele congeminara e realizara
em dor pungente e em grito lancinante
o filho agora ali especado atónito
sem sangue sem riso e sem lágrimas
reclamara aquele homem como seu
o mesmo que agora a ruína galopante
da memória transfigurara em estranho
e mais que estranho em perigo iminente

regressou ao volante
fez voar a máquina
por estradas à sorte
quilómetros sem conta
desvairado desvairado
buscando pelas ruas
no labirinto da vida
o túnel de regresso
ao útero do mundo

Anthero Monteiro

segunda-feira, 25 de março de 2013

obrigado sou feliz




Anthero
Monteiro
em noite de
poesia em
Ovar no bar
Paralelo 38





sou feliz sou feliz não se preocupem
porque hão-de estar sempre a perguntar
como vou se estou bem se tudo corre
não há dia que eu não vá para oeste
não há dia que não corra para a foz
como todos os rios e não veja
o sol a pôr-se  a noite a impor-se
e não sinta as estrelas a ferverem-me na cabeça

já há gente em demasia a preocupar-se comigo
e esse é o meu único motivo de preocupação
saber  que tudo existe para o meu bem
desde o senhor presidente da república
e o primeiro ministro e o segundo e os demais
todos absorvidos na minha inteira satisfação
no meu sucesso no meu bem-estar
até aos dezoito ou quarenta e sete já não sei
partidos políticos apostados em cuidarem de mim
a fazerem-me chegar promessas de conforto
e saúde e alegria e a garantirem-me
que não serei esquecido um único segundo
pelo menos até ao dia das eleições

e depois o presidente da câmara e o da junta
que me asseguram pleno apoio e solidariedade
e as seguradoras e empresas de alarmes
a afiançarem-me proteção e segurança
e os bancos sempre focados no meu sucesso financeiro
e as múltiplas organizações internacionais
sempre de olhos fitos na minha realização
e a onu e os americanos e imensos exércitos
a combaterem pela minha defesa e sobrevivência
lá longe nos confins da democracia imposta

e o senhor padre e o senhor bispo e o senhor papa
e a igreja do sétimo dia e a do oitavo
que rezam por mim e me garantem a salvação
e as entidades divinas que me enviam pombas
ou andorinhas para voarem à minha frente
nos caminhos das melhores opções
e a ubiquidade do anjo-da-guarda
e dos arrumadores de carros
e da coca-cola e da seven-up e da danone
que me formatam as linhas do sorriso
e o euromilhões e o comprimido azul
e o ácido acetilsalicílico e muitos outros fármacos
que velam pelos meus sonhos e os meus delírios
bem sei que a gratidão tem memória curta e eu não quero
ser ingrato muito obrigado por tudo o que fizeram
mas também não é preciso exagerar talvez
eu consiga sorrir sem me fazerem mimos ou cócegas
e sem me enviarem continuamente anedotas para ler

a sério não se preocupem não percam tempo comigo
não venham a toda a hora pé ante pé ao meu quarto
ver se é sossegado o meu sono porque é certo
que estou a sonhar com o paraíso
e no deleite dos brandos braços de eva

estou condenado a ser feliz a ser feliz a ser feliz
e até o portal das finanças não deixa de pensar em mim

Anthero Monteiro
05.09.2012

Destacam-se os azulejos...








Eduardo 
Guerra 
Carneiro







Destacam-se os azulejos no granito,
mais ainda quando a morrinha cai
sobre os Leões. Nos Poveiros o fumo
das castanhas lembra a tal Mamuda
− sai um polvo frito!
O Outro suspirava, naquela ingenuidade:
berlindes do Campo Alegre ou de São Lázaro.
Procura nos bolsos o balandrau clássico,
às Belas Artes, um texto à maneira
dos sonetos de Sena – Arca d’Água.
Desliza, solitário, do Majestic aos Clérigos,
e, ao olhar a catedral – a Lello
– lê nos verbetes da enciclopédia inacabada
o teu nome de menina: já sorri.

Eduardo Guerra Carneiro,
A Noiva das Astúrias, Lisboa, &etc, 2001

Jornalista e poeta, filho de outro poeta, Edgar Carneiro, nasceu em Chaves em 1942. Trabalhou em vários jornais em Lisboa e era um apaixonado pela noite, pela vida, pelas mulheres. Suicidou-se no dia 2 de Janeiro de 2004 na capital. 
Foi "o poeta que se atirou do céu", segundo Baptista Bastos, que dele disse ainda, no jornal Público daquele mês e ano:

«Grande poeta, grande poeta de Lisboa, grande poeta da dor d'alma e do espanto de viver, grande poeta crepuscular, grande poeta dos sonhos desfeitos e das esperanças aniquiladas, os burocratas da recensão literária subtraíam-no, olvidavam-no - e mutilavam parte do espírito infantil que nele permaneceu até ao ponto final parágafo dos seus dias.»

A sua frase predileta seria "Isto anda tudo ligado" que serviu de título a um dos seus vários livros de poesia (1973).


Aí está o saldo final









Busto de J. Atilla
na rua com o seu nome
em Budapeste
(Foto A.M.)






Confiei em mim desde o primeiro momento.
Custa muito pouco ser dono do vento.

E à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

Nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
Com medo, às vezes, mantive-me no posto.

Paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

Se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

Fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

Vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

Não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

Vivi (já está aí o saldo final):
Muitos outros morreram deste mal.

Jósef Attila  (1905-1937) 

A sua vida de apenas 32 anos não obstou a que se tornasse num dos mais importantes poetas da Hungria do séc. XX.
Nascera em Budapeste, filho de uma lavadeira e de um operário da indústria de sabões. Atormentado por todo o tipo de dificuldades (a fome, a miséria, a esquizofrenia) fez várias tentativas frustradas de suicídio: ingeriu 50 aspirinas que, apesar dos danos causados, não conseguiram matá-lo; ingeriu também veneno e o mesmo aconteceu; deitou-se depois sobre a linha férrea, mas o comboio foi parado por outro suicida que se atirara para a linha; a segunda tentativa idêntica obteve finalmente o êxito que ele desejava ardentemente.

quinta-feira, 21 de março de 2013

dissuasão
















Foto in  www.fotosantesedepois.com 

também já por lá perpassei e não garanto nada
mas sempre que penso nisso logo me ocorre
a história de inocêncio candidato a suicida

foram três anos de abismo entre os 30 e os 33
abeirou-se múltiplas vezes das linhas dos comboios rápidos
subiu à torre dos clérigos para medir com os olhos os 75 metros da queda
debruçou-se na ponte para imaginar-se levado pela torrente
deambulou toda uma manhã sobre um estreito aqueduto
preparou e escondeu um frasco cheio de narcóticos

foi nesse período depressivo de fins de fevereiro
que o seu maior amigo lhe deu a entender
que decidira também suicidar-se
aconselhou-o então a esperar só mais um mês
pois era mais romântico matar-se na primavera
inventou dezenas de argumentos para o demover
e devem ter sido tão sólidos e irrefutáveis
que ele próprio deles se alimentou
acabando por apagar-se apenas aos 103 anos
enquanto dormia e com um sorriso de beatitude

é fácil agora imaginá-lo no reino celeste
a tentar dissuadir alguns dos anjos mais rebeldes
de se precipitarem lá do mais elevado torreão
da eterna monotonia

Anthero Monteiro

terça-feira, 19 de março de 2013

Agora eu sei















Quando eu era petiz da altura de três palmos,
Falava muito alto para parecer um homem
E dizia: eu sei, eu sei, eu sei, eu sei.

Era o começo, era primavera.
Mas quando cheguei aos dezoito
Disse: Eu sei, aí está, desta vez eu sei.

E hoje, nestes dias em que olho para trás,
Vejo a terra em que andei de um lado para o outro
E nem sequer sei como é que ela gira!

Pelos vinte e cinco tudo eu sabia:
O amor, as rosas, a vida, a maquia.
Sim, claro, o amor era algo que eu sabia de cor!

E felizmente, como os meus companheiros, não tinha comido todo o meu pão.
No meio da vida, aprendi ainda.
O que aprendi, isso resume-se a três ou quatro palavras:

“O dia em que alguém te ama, faz muito bom tempo,
Não consigo dizer melhor: faz muito bom tempo.”

É o que me espanta ainda na vida,
A mim, que estou no outono da vida.
Esquecemos tantas noites de amargura
Mas jamais uma manhã de ternura!

Em toda a minha mocidade, quis dizer Eu sei.
Só que, quanto mais em procurava, menos sabia.

Sessenta batidas soaram no relógio,
Continuo à janela, a olhar e a interrogar-me.

Agora eu sei, eu sei que nunca se sabe nada!

A vida, o amor, o dinheiro, os amigos e as rosas…
Nunca se sabe o ruído nem a cor das coisas.
É tudo o que sei! Mas isso sei-o bem!...

Jean  Gabin (ator e cantor francês, 1904/1976),
tradução de Anthero Monteiro

Anos quarenta, os meus















Foto instravelblogspot.com

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavão alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmão
(como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mão)
Salazar três vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.

Luiza Neto Jorge,
Poemas de Luíza Neto Jorge,  ed. Presença