sábado, 6 de abril de 2013

Bicharada















in 
pt.dreamstime.com



Disse-me há pouco o Tonito
que tem muita bicharada:
um hamster, um periquito,
mais uma égua apoldrada,
uns quatro ou cinco cavalos,
sete perus, um pavão,
quinze galinhas, dois galos,
oito cadelas e um cão,
nem me lembro quantos gatos,
um pintassilgo, um canário,
três cisnes, quarenta patos,
peixinhos num aquário,
três ou quatro tartarugas,
um zoo que é uma doidice...

Quanto a pulgas... quanto a pulgas
é que ele nada me disse!

Anthero Monteiro

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Questão de cedilha







Um caçador perdeu a cedilha (...)

(Mário-Henrique Leiria, 
Contos do Gin-Tonic)




Ia um caçador à caça
e saindo de um caminho
desembocou numa praça
sempre atrás de um coelhinho

Rodearam a praça toda
sem se saber muito bem
por andarem sempre à roda
quem ia a perseguir quem

E o pobre do caçador
foi quem caiu na armadilha
foi por trás o roedor
e zás roubou-lhe a cedilha

Ah! se se olhassem ao espelho
veriam ambos o horror
daquela figura fraca
o coelho agora é çoelho
e o triste do caçador
é cacador e anda à caca

Anthero Monteiro

quarta-feira, 3 de abril de 2013

desculpa centopeia




desculpa centopeia    era talvez suficiente
calcar-te apenas uma pata  para deixares a parede
onde não ficas bem como obra de arte
mas à razão manietada pelo medo
só lhe resta o recurso à extrema violência

envolve-se num papel a massa informe
de um corpo todo patas todo fuga
e desapareces no gesto de puxar o autoclismo
desapareces mas não a marca da repulsa
no papel de parede não o eco crepitante
da quitina esmagada não o fantasma multípede
que espreita em cada recanto húmido da vida

desculpa centopeia e vê lá se me entendes
era eu inocência e tu malignidade
era eu indefeso e tu eras a insídia
era eu vida borbotando e tu o malefício
a morte subreptícia ameaçando
as defesas do crânio no sono escancaradas

assim me ensinaram as mulheres da casa
para quem eras o maior dos sobressaltos
rapidamente a vítima da vassoura do chinelo
de outro qualquer expediente do arsenal doméstico
de nada vale agora saber do equilíbrio
necessário aos ecossistemas

certo dia e já adolescente ou tu ou uma irmã
miriápode das tuas de súbito irrompeu
do meio do meu  livro de francês
um salto da carteira um grito angustiado
olhou-me a turma atónita sem nada compreender
mas logo o professor o padre rubicundo
desencadeia ali um turbilhão de riso
as-tu peur d’un mille-pattes mon bébé

foi a noite completa a revolutear no leito
e aquela frase às voltas na cabeça
as-tu peur d’un mille-pattes mon bébé
e o eco da chacota e outra vez a frase
outro bicho com patas correndo no meu corpo
as tu peur d’un mille-pattes mon bébé

prometi a mim mesmo que o escárnio
não ficaria impune e a vingança terrível chegaria
no habitual passeio de domingo
um pequeno empurrão e um precipício
nos montes da falperra era o bastante

desculpa centopeia não ter sido capaz
era um tonel repleto de peçonha
e injusto é recair em ti a represália
lá porque tens mil patas cem ou trinta
e aquela exígua fábrica de veneno
no primeiro segmento do teu corpo

pardon pardon mille-pattes

Anthero Monteiro


segunda-feira, 1 de abril de 2013

a cadeira de rodas













vamos mãezinha eu empurro a cadeira
de rodas vamos fazer uma longa viagem
até à varanda que dá para nascente
o sol já lá canta para saudar-te e um verdilhão
virá perguntar-te onde tens andado lá do cimo
da grande japoneira debruçada sobra o tanque

(já não se lembra decerto do nome da passarada
que pululava no quintal e que me ensinou a distinguir
verdilhões pintassilgos  carriças chascos  cerezinas
cucos  andorinhas e lavandiscas sagradas
já nada lhe diz a história da japoneira secular
onde se reúnem em concílio as pombas e os pardais)

olha vai ali mãezinha a filha do antigo sapateiro
que já morreu há tantos anos ainda te lembras
de que a oficina era ali do outro lado da rua
será que ainda sabes o nome de alguns dos utensílios
que o pai dela usava para te fazer ou arranjar o calçado
coser as gáspeas bater as solas pregar os tacões

(dentro dela entrou o simum e espalhou um deserto
o silêncio habita quase sempre este corpo inexpressivo
sabe lá do senhor angelino sapateiro ou da sua bancada
e ela outrora sabia e mostrava-me na oficina a turquês
o tripé de formas os ferros de bornir o martelo
e a pedra de bater sola a lixa a grosa e a sovela)

pronto não queres apanhar sol a luz incomoda-te
vamos para dentro vais ficar ali diante da tv
pode ser que te distraias um pouco aprendas
algo ainda e te mantenhas acordada
ou te acudam à memória algumas lembranças
ou algum sorriso te aqueça um pouco a alma

(vou ter é de acender o aquecedor a que ela chama
a caixa de fogo e esta outra caixa da televisão
não é mais do que uma janela para o quintal
se vê uma tourada avisa-me que anda um touro
lá fora tem cuidado se vê um filme de guerra
o campo de batalha é logo ali debaixo do limoeiro)

não por favor não vais adormecer outra vez
espera um pouco apenas vou trazer-te
cevada e um pão com geleia ontem gostaste
ah queres que chegue um pouco para trás
a cadeira de rodas sim é uma cadeira de rodas
isto mãezinha não se chama uma carreta

(ontem reencontrou por acaso a palavra geleia
que deve ter adoçado um pouco a sua infância
mas a minha mãe já morreu aliás matou-me repetidamente
depois de me ressuscitar por momentos com a palavra filho
está morta por antecipação e quando chama carreta
à cadeira de rodas está só a dizer-me a minha pobre mãe

que só falta ir-se embora na carreta funerária)

Anthero Monteiro

quinta-feira, 28 de março de 2013

um estranho na cama









foto
A.M.





aflitíssimo tocou o telefone pela manhã bem cedo
do outro lado irrompeu suplicante a voz da mãe
estava um homem na sua própria cama nunca o vira
não o conhecia viesse depressa antes que despertasse

saltou para o volante
fez voar a máquina
estacou bruscamente
precipitou-se no quarto
lá estava um desconhecido
bem conhecido afinal
o próprio pai

o tal que ela desposara em dia tão sonhado
aquele cujas feições devia saber de cor
e cujos lábios bebera vezes impossíveis de contar
aquele que lhe ensinara a febre do ciúme
o delírio da espera a labareda estreme do amor
com ele congeminara e realizara
em dor pungente e em grito lancinante
o filho agora ali especado atónito
sem sangue sem riso e sem lágrimas
reclamara aquele homem como seu
o mesmo que agora a ruína galopante
da memória transfigurara em estranho
e mais que estranho em perigo iminente

regressou ao volante
fez voar a máquina
por estradas à sorte
quilómetros sem conta
desvairado desvairado
buscando pelas ruas
no labirinto da vida
o túnel de regresso
ao útero do mundo

Anthero Monteiro

segunda-feira, 25 de março de 2013

obrigado sou feliz




Anthero
Monteiro
em noite de
poesia em
Ovar no bar
Paralelo 38





sou feliz sou feliz não se preocupem
porque hão-de estar sempre a perguntar
como vou se estou bem se tudo corre
não há dia que eu não vá para oeste
não há dia que não corra para a foz
como todos os rios e não veja
o sol a pôr-se  a noite a impor-se
e não sinta as estrelas a ferverem-me na cabeça

já há gente em demasia a preocupar-se comigo
e esse é o meu único motivo de preocupação
saber  que tudo existe para o meu bem
desde o senhor presidente da república
e o primeiro ministro e o segundo e os demais
todos absorvidos na minha inteira satisfação
no meu sucesso no meu bem-estar
até aos dezoito ou quarenta e sete já não sei
partidos políticos apostados em cuidarem de mim
a fazerem-me chegar promessas de conforto
e saúde e alegria e a garantirem-me
que não serei esquecido um único segundo
pelo menos até ao dia das eleições

e depois o presidente da câmara e o da junta
que me asseguram pleno apoio e solidariedade
e as seguradoras e empresas de alarmes
a afiançarem-me proteção e segurança
e os bancos sempre focados no meu sucesso financeiro
e as múltiplas organizações internacionais
sempre de olhos fitos na minha realização
e a onu e os americanos e imensos exércitos
a combaterem pela minha defesa e sobrevivência
lá longe nos confins da democracia imposta

e o senhor padre e o senhor bispo e o senhor papa
e a igreja do sétimo dia e a do oitavo
que rezam por mim e me garantem a salvação
e as entidades divinas que me enviam pombas
ou andorinhas para voarem à minha frente
nos caminhos das melhores opções
e a ubiquidade do anjo-da-guarda
e dos arrumadores de carros
e da coca-cola e da seven-up e da danone
que me formatam as linhas do sorriso
e o euromilhões e o comprimido azul
e o ácido acetilsalicílico e muitos outros fármacos
que velam pelos meus sonhos e os meus delírios
bem sei que a gratidão tem memória curta e eu não quero
ser ingrato muito obrigado por tudo o que fizeram
mas também não é preciso exagerar talvez
eu consiga sorrir sem me fazerem mimos ou cócegas
e sem me enviarem continuamente anedotas para ler

a sério não se preocupem não percam tempo comigo
não venham a toda a hora pé ante pé ao meu quarto
ver se é sossegado o meu sono porque é certo
que estou a sonhar com o paraíso
e no deleite dos brandos braços de eva

estou condenado a ser feliz a ser feliz a ser feliz
e até o portal das finanças não deixa de pensar em mim

Anthero Monteiro
05.09.2012

Destacam-se os azulejos...








Eduardo 
Guerra 
Carneiro







Destacam-se os azulejos no granito,
mais ainda quando a morrinha cai
sobre os Leões. Nos Poveiros o fumo
das castanhas lembra a tal Mamuda
− sai um polvo frito!
O Outro suspirava, naquela ingenuidade:
berlindes do Campo Alegre ou de São Lázaro.
Procura nos bolsos o balandrau clássico,
às Belas Artes, um texto à maneira
dos sonetos de Sena – Arca d’Água.
Desliza, solitário, do Majestic aos Clérigos,
e, ao olhar a catedral – a Lello
– lê nos verbetes da enciclopédia inacabada
o teu nome de menina: já sorri.

Eduardo Guerra Carneiro,
A Noiva das Astúrias, Lisboa, &etc, 2001

Jornalista e poeta, filho de outro poeta, Edgar Carneiro, nasceu em Chaves em 1942. Trabalhou em vários jornais em Lisboa e era um apaixonado pela noite, pela vida, pelas mulheres. Suicidou-se no dia 2 de Janeiro de 2004 na capital. 
Foi "o poeta que se atirou do céu", segundo Baptista Bastos, que dele disse ainda, no jornal Público daquele mês e ano:

«Grande poeta, grande poeta de Lisboa, grande poeta da dor d'alma e do espanto de viver, grande poeta crepuscular, grande poeta dos sonhos desfeitos e das esperanças aniquiladas, os burocratas da recensão literária subtraíam-no, olvidavam-no - e mutilavam parte do espírito infantil que nele permaneceu até ao ponto final parágafo dos seus dias.»

A sua frase predileta seria "Isto anda tudo ligado" que serviu de título a um dos seus vários livros de poesia (1973).