segunda-feira, 15 de abril de 2013

questão de espaço










Foto 
A.M.




deus existe
impossível esquecer que mo afiançaram 
sempre e com vastas provas 
reside mesmo dizem em toda a parte
e de todos os modos possíveis
em pé sentado de bruços
de braços cruzados deitado
sobre a linha férrea ou a do horizonte

conheço quem atravanque
o céu e a terra só com as pernas
com a voz sábia e irrefutável
ou mesmo a dormir ressonando

deus tem reconheço uma enorme vantagem
existe em toda a parte
perubique partout dappertutto everywhere
mas não ocupa espaço nenhum

Anthero Monteiro

domingo, 7 de abril de 2013

Tão balalão



Foto
A.M.





Tão balalão
Morreu o Simão…
(Rima infantil)



Tão balalão
Morreu o Simão
Ficou impassível
deitado no chão
os olhos fechados
sem respiração
as mãos apertando
o seu coração

Tão balalão
Morreu o Simão
Morreu sem um padre
e sem confissão
sem sinal da cruz
sem uma oração
Morreu   acreditem
que deu um esticão

Tão balalão
Morreu o Simão
Tão novo que ele era
tão flor em botão
Não foi o sarampo
não foi congestão
O certo é que agora
não tem solução

Tão balalão
Morreu o Simão
Já gritam os pais
já chora o irmão
Se os amigos sabem
o que não dirão?
Que notícia triste
p’ró tio João

Tão balalão
Morreu o Simão
Morreu sem aviso
e sem permissão
morreu sem motivo
morreu sem razão
e está sem acordo
não diz sim nem não

Tão balalão
Morreu o Simão
…Mas uma folhinha
que estava no chão
furou-lhe a camisa
fez-lhe comichão
Desatou a rir
mas que maganão
e todos nós vimos
a ressurreição
A morte é ainda
e só reinação
Que dobrem os sinos
no seu balalão
que não morreu  não
o nosso Simão

Tão balalão
Quem seria então?
Perguntem ao padre
ou ao sacristão

Anthero Monteiro,
A Lia Que Lia Lia, Porto, Corpos Editora, 2010, 2º edição

sábado, 6 de abril de 2013

O gafanhoto












Ilustração de 
Maria Ferrand






É engraçado o gafanhoto
a jogar no totoloto

Tira o casaco e a gravata
por uns segundos balança
fecha os olhos e se lança
ao ar como um acrobata

Com umas patas assim
e mais a força das asas
paira por cima das casas
das casas do boletim

E depois cai catrapus
num quadradinho qualquer
Na casa que o acaso quer
é lá que faz uma cruz

E é sempre assim que este inseto
aos saltos e às cambalhotas
preenche o boletim de apostas
até que fique completo

E depois o seu fadário
é todo o fim de semana
sonhar deitado na cama
com vir a ser milionário

(Se ao menos o gafanhoto
registasse o totoloto!)

Anthero Monteiro
in José António Gomes (coord.), "Histórias e Poemas para Pessoas Pequenas",
Porto, Porto Editora. s.d.

Bicharada















in 
pt.dreamstime.com



Disse-me há pouco o Tonito
que tem muita bicharada:
um hamster, um periquito,
mais uma égua apoldrada,
uns quatro ou cinco cavalos,
sete perus, um pavão,
quinze galinhas, dois galos,
oito cadelas e um cão,
nem me lembro quantos gatos,
um pintassilgo, um canário,
três cisnes, quarenta patos,
peixinhos num aquário,
três ou quatro tartarugas,
um zoo que é uma doidice...

Quanto a pulgas... quanto a pulgas
é que ele nada me disse!

Anthero Monteiro

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Questão de cedilha







Um caçador perdeu a cedilha (...)

(Mário-Henrique Leiria, 
Contos do Gin-Tonic)




Ia um caçador à caça
e saindo de um caminho
desembocou numa praça
sempre atrás de um coelhinho

Rodearam a praça toda
sem se saber muito bem
por andarem sempre à roda
quem ia a perseguir quem

E o pobre do caçador
foi quem caiu na armadilha
foi por trás o roedor
e zás roubou-lhe a cedilha

Ah! se se olhassem ao espelho
veriam ambos o horror
daquela figura fraca
o coelho agora é çoelho
e o triste do caçador
é cacador e anda à caca

Anthero Monteiro

quarta-feira, 3 de abril de 2013

desculpa centopeia




desculpa centopeia    era talvez suficiente
calcar-te apenas uma pata  para deixares a parede
onde não ficas bem como obra de arte
mas à razão manietada pelo medo
só lhe resta o recurso à extrema violência

envolve-se num papel a massa informe
de um corpo todo patas todo fuga
e desapareces no gesto de puxar o autoclismo
desapareces mas não a marca da repulsa
no papel de parede não o eco crepitante
da quitina esmagada não o fantasma multípede
que espreita em cada recanto húmido da vida

desculpa centopeia e vê lá se me entendes
era eu inocência e tu malignidade
era eu indefeso e tu eras a insídia
era eu vida borbotando e tu o malefício
a morte subreptícia ameaçando
as defesas do crânio no sono escancaradas

assim me ensinaram as mulheres da casa
para quem eras o maior dos sobressaltos
rapidamente a vítima da vassoura do chinelo
de outro qualquer expediente do arsenal doméstico
de nada vale agora saber do equilíbrio
necessário aos ecossistemas

certo dia e já adolescente ou tu ou uma irmã
miriápode das tuas de súbito irrompeu
do meio do meu  livro de francês
um salto da carteira um grito angustiado
olhou-me a turma atónita sem nada compreender
mas logo o professor o padre rubicundo
desencadeia ali um turbilhão de riso
as-tu peur d’un mille-pattes mon bébé

foi a noite completa a revolutear no leito
e aquela frase às voltas na cabeça
as-tu peur d’un mille-pattes mon bébé
e o eco da chacota e outra vez a frase
outro bicho com patas correndo no meu corpo
as tu peur d’un mille-pattes mon bébé

prometi a mim mesmo que o escárnio
não ficaria impune e a vingança terrível chegaria
no habitual passeio de domingo
um pequeno empurrão e um precipício
nos montes da falperra era o bastante

desculpa centopeia não ter sido capaz
era um tonel repleto de peçonha
e injusto é recair em ti a represália
lá porque tens mil patas cem ou trinta
e aquela exígua fábrica de veneno
no primeiro segmento do teu corpo

pardon pardon mille-pattes

Anthero Monteiro


segunda-feira, 1 de abril de 2013

a cadeira de rodas













vamos mãezinha eu empurro a cadeira
de rodas vamos fazer uma longa viagem
até à varanda que dá para nascente
o sol já lá canta para saudar-te e um verdilhão
virá perguntar-te onde tens andado lá do cimo
da grande japoneira debruçada sobra o tanque

(já não se lembra decerto do nome da passarada
que pululava no quintal e que me ensinou a distinguir
verdilhões pintassilgos  carriças chascos  cerezinas
cucos  andorinhas e lavandiscas sagradas
já nada lhe diz a história da japoneira secular
onde se reúnem em concílio as pombas e os pardais)

olha vai ali mãezinha a filha do antigo sapateiro
que já morreu há tantos anos ainda te lembras
de que a oficina era ali do outro lado da rua
será que ainda sabes o nome de alguns dos utensílios
que o pai dela usava para te fazer ou arranjar o calçado
coser as gáspeas bater as solas pregar os tacões

(dentro dela entrou o simum e espalhou um deserto
o silêncio habita quase sempre este corpo inexpressivo
sabe lá do senhor angelino sapateiro ou da sua bancada
e ela outrora sabia e mostrava-me na oficina a turquês
o tripé de formas os ferros de bornir o martelo
e a pedra de bater sola a lixa a grosa e a sovela)

pronto não queres apanhar sol a luz incomoda-te
vamos para dentro vais ficar ali diante da tv
pode ser que te distraias um pouco aprendas
algo ainda e te mantenhas acordada
ou te acudam à memória algumas lembranças
ou algum sorriso te aqueça um pouco a alma

(vou ter é de acender o aquecedor a que ela chama
a caixa de fogo e esta outra caixa da televisão
não é mais do que uma janela para o quintal
se vê uma tourada avisa-me que anda um touro
lá fora tem cuidado se vê um filme de guerra
o campo de batalha é logo ali debaixo do limoeiro)

não por favor não vais adormecer outra vez
espera um pouco apenas vou trazer-te
cevada e um pão com geleia ontem gostaste
ah queres que chegue um pouco para trás
a cadeira de rodas sim é uma cadeira de rodas
isto mãezinha não se chama uma carreta

(ontem reencontrou por acaso a palavra geleia
que deve ter adoçado um pouco a sua infância
mas a minha mãe já morreu aliás matou-me repetidamente
depois de me ressuscitar por momentos com a palavra filho
está morta por antecipação e quando chama carreta
à cadeira de rodas está só a dizer-me a minha pobre mãe

que só falta ir-se embora na carreta funerária)

Anthero Monteiro