quarta-feira, 8 de maio de 2013

poesia ao natural










Foto
A.M.




escoou-se a manhã

do alto da eternidade
o sol riu-se de mim que meço o tempo
fez murchar as horas
e não floriu em mim um só poema

entretanto
mal o sol rompera
desabrolhou uma corola
no vaso da varanda
subreptícias mais outra
e outra
e outra

e muito antes da primeira meia-hora
já a flor tinha escrito um poema
inimitável

Anthero Monteiro

terça-feira, 7 de maio de 2013

notas para um epitáfio (à maneira de Edgar Lee Masters)









Foto 
A.M.





nasci decerto do ventre de um incunábulo
ou do ovo de um livro de asas abertas 
como qualquer pássaro sedento de horizontes

os meus livros que fariam uma torre de babel 
vazando as nuvens acotovelavam-se lá em casa 
por um lugar nas estantes empurravam-se 
encavalitavam-se uns sobre os outros

das prateleiras por cima da janela que dá para a rua 
debruçavam-se as mais volumosas lombadas
sobre o sítio onde lia ou desenhava 
os sulcos dos meus versos

sentado nos autocarros nos comboios
nas dunas nos rochedos ou à sombra das tílias
foi sempre um livro a minha irrevogável testemunha 

escrevi livros publiquei livros fundei bibliotecas
vivi entre estantes dois terços da existência
li poemas e histórias para centenas e centenas
a vida foi um espesso tomo dedicado 
à leitura à poesia à escrita à bibiofilia

naquela noite sentado no lugar dos meus labores
prosseguia eu a leitura do livro negro do padre dinis
e ali pela página duzentos e trinta e cinco
ouvi alguns ligeiros estalidos que se repetiram 
era talvez a traça algum bibliófago a tosar 
papel tenrinho mas não fiz caso pois essa 
é uma entidade tão invisível quanto deus

alguns parágrafos adiante aquela frase do duque 
de cliton: “quando o pressentimento da morte 
nos fala muitas vezes não devemos desprezá-lo”
mal virei a página um estrondo de derrocada
sobre a mesa de leitura e o seu ocupante

ainda tentei apanhar a vida mas ela escoou-se
de repente como um peixe dos limos
que nos resvala das mãos


Anthero Monteiro
(inédito)

sábado, 4 de maio de 2013

Dança I














Patrícia Portela





Amo-te tanto que me doem mais os pés que o coração.

tropecei  ao correr estrada abaixo, torci o tornozelo direito e feri gravemente o pé do outro lado. Dois dedos estão mortos e três não têm unhas.
Tu não sabes, mas desde então, um dos pés chora ininterruptamente por não ser mão e não te poder escrever pedidos de socorro e cartas de amor.
Pensei seriamente amputar o meu pé esquerdo, mas não consigo imaginar-me a amar-te apenas com o meu lado direito.
Patrícia Portela,
Se não bigo, não digo, Lisboa, Fenda, 1998

Escritora, dramaturga, encenadora, cenógrafa e atriz, entre outras coisas, cria, segundo Maria João Guardão, «mundos paralelos em forma de livros, jardins, tertúlias, performances e peças radiofónicas». Nasceu em Lisboa em 1974, viveu em Macau, estudou em Utrecht e Helsínquia. Mudou-se para Antuérpia, por ter conhecido o músico belga Christoph De Boeck e continua fascinada pela Bélgica. Publicou vários livros, entre os quais: Operação Cardume Rosa, Se não bigo, não digo, Odília ou a história das musas confusas do cérebro de Patrícia Portela, Escudos Humanos, Banquete ou a Trilogia Flatland e recebeu vários prémios relacionados com o teatro.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Catarina viva, viva Catarina!








A morte de 
Catarina Eufémia,
desenho de 
José Dias Coelho




se não estivesses viva Catarina
não floriam de novo certamente

as papoilas sanguíneas do teu peito

mas viva estás constante no teu posto
e quando gritas às armas
logo enxadas disparam sobre o chão
tanques avançam firmes nas campinas
e lançam-se minúsculas granadas
para explodir em chama verde e fulva
ferindo a multidão com grãos de trigo

se não estivesses viva Catarina
o gigante dormia sobre as presas
e o povo não sabia que o não teme

mas viva estás e mais do que isso alerta
e quando gritas parem
o rubro das bandeiras faz-se negro
e em liliput sentam-se os anões
nas barbas do gigante furibundo
e comungando a raiva e o silêncio
gela o sangue nos braços dos sobreiros

se não estivesses viva Catarina
há muito que teriam estrangulado
as vozes militantes dos poetas

Anthero Monteiro

in Abril Certo na Hora Incerta, Porto, 2010

Este poema foi cantado em 28/03/1981 no IV Festival da Canção Jovem (JCP), 
tendo ganho o prémio da melhor letra, prémio esse que me foi entregue pelo cantor Carlos Mendes.

terça-feira, 30 de abril de 2013

erótica









Desenho 
de Picasso 
(1963)




abres-me a porta e brotam dos teus braços
mil portas descerrando o paraíso
desabotoas largo o teu sorriso
que enflora os meus sorrisos sempre escassos

abres o quarto a cama o coração
os corações pintados nos lençóis
desafivelas tudo e me propões
libertar da minha alma a cerração

desabrochas as róseas flores do peito
as palavras mais sábias da ternura
acendes uma flor na flora escura
de ti faço o meu leito sobre o leito

confluem num só rio os nossos rios
sem açudes sem diques sem comportas
e despertam ao ritmo das aortas
cicios  calafrios  arrepios

alarga-se o teu dâblio numa oferta
que me esbuja me puxa que me enleva
e é na incisão onde se agrega a seiva
que ereta esta minha árvore se enxerta

porque senhor de ti já nem sou dono
de mim que me perdi  já não me encontro
estreitas nos teus braços talvez outro
mas é nos teus que exausto me abandono

Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens, Porto, Egoiste, 2010 

Do nada ao tudo






Alunos da Escola 
da Bandeira 
- V. N. Gaia
ouvem atentos 
a leitura de  
um poema de
Anthero Monteiro



o que se faz com o nada
que nada vale nadinha?
muda-se só uma letrinha
e do nada faz-se a fada
e da fada faz-se o fado
e do fado faz-se um dado

e que fazer com o dado?
com um pouco de cuidado
muda-se o dado pra dedo
muda-se o dedo pra medo
muda-se o medo pra mudo
e do mudo faz-se tudo

Anthero Monteiro

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Solidão





















depois de tal loucura esta lonjura
depois da tua língua
a minha míngua

Anthero Monteiro,
in Goulart Gomes (org.), 501 POETTRX para ler antes do amanhecer,
Bahia - Brasil, Livro.com, 2011