quinta-feira, 23 de maio de 2013

vazio
















olho o vazio
penso no vazio
engendro mais vazio
e dele me inebrio

abstenho-me de mim
do tempo e do lugar
de tudo o que acontece
e está p’ra acontecer

abro os olhos para trás
para nada mais ver
pra nada mais sentir
dentro ou perto de mim

estou longe muito longe
onde de mim não sei
sou feliz sou feliz
porque já não sou nada

e porque ébrio de nada

a
dor
meço

Anthero Monteiro (inédito)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fotografia do Porto









Foto 
A. M.





O Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá responta.

José Luís Peixoto
Gaveta de Papéis, Quasi Edições.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ausência















a noite derrapa
as estrelas  perscrutam o drama
são pregos aos mil cravados nos olhos
o vento quebrou como vidro
é agora um montão de destroços num chão de silêncio
o silêncio o silêncio coalhando tudo
calando tudo  até os impiedosos cães vizinhos
e os seus ódios de todas as noites

um navio de gelo rasga o pano do peito
rompe no oceano da alma
abraçado à insónia
bêbeda e devassa

dói
dói
         doidamente

apetece fugir mas para onde
não há nenhum lugar de refúgio para quem ama
a não ser o peito de quem se ama

e é então que a ausência se torna mais presente
ganha corpo de monstro  e crescem-lhe garras

di-la-ce-ran-tes

sitia-me
sitia-me
obsidia-me

ausência  ausência ausência
ausência  
nome de mulher

desapiedada e ausente

Anthero Monteiro

quarta-feira, 8 de maio de 2013

poesia ao natural










Foto
A.M.




escoou-se a manhã

do alto da eternidade
o sol riu-se de mim que meço o tempo
fez murchar as horas
e não floriu em mim um só poema

entretanto
mal o sol rompera
desabrolhou uma corola
no vaso da varanda
subreptícias mais outra
e outra
e outra

e muito antes da primeira meia-hora
já a flor tinha escrito um poema
inimitável

Anthero Monteiro

terça-feira, 7 de maio de 2013

notas para um epitáfio (à maneira de Edgar Lee Masters)









Foto 
A.M.





nasci decerto do ventre de um incunábulo
ou do ovo de um livro de asas abertas 
como qualquer pássaro sedento de horizontes

os meus livros que fariam uma torre de babel 
vazando as nuvens acotovelavam-se lá em casa 
por um lugar nas estantes empurravam-se 
encavalitavam-se uns sobre os outros

das prateleiras por cima da janela que dá para a rua 
debruçavam-se as mais volumosas lombadas
sobre o sítio onde lia ou desenhava 
os sulcos dos meus versos

sentado nos autocarros nos comboios
nas dunas nos rochedos ou à sombra das tílias
foi sempre um livro a minha irrevogável testemunha 

escrevi livros publiquei livros fundei bibliotecas
vivi entre estantes dois terços da existência
li poemas e histórias para centenas e centenas
a vida foi um espesso tomo dedicado 
à leitura à poesia à escrita à bibiofilia

naquela noite sentado no lugar dos meus labores
prosseguia eu a leitura do livro negro do padre dinis
e ali pela página duzentos e trinta e cinco
ouvi alguns ligeiros estalidos que se repetiram 
era talvez a traça algum bibliófago a tosar 
papel tenrinho mas não fiz caso pois essa 
é uma entidade tão invisível quanto deus

alguns parágrafos adiante aquela frase do duque 
de cliton: “quando o pressentimento da morte 
nos fala muitas vezes não devemos desprezá-lo”
mal virei a página um estrondo de derrocada
sobre a mesa de leitura e o seu ocupante

ainda tentei apanhar a vida mas ela escoou-se
de repente como um peixe dos limos
que nos resvala das mãos


Anthero Monteiro
(inédito)

sábado, 4 de maio de 2013

Dança I














Patrícia Portela





Amo-te tanto que me doem mais os pés que o coração.

tropecei  ao correr estrada abaixo, torci o tornozelo direito e feri gravemente o pé do outro lado. Dois dedos estão mortos e três não têm unhas.
Tu não sabes, mas desde então, um dos pés chora ininterruptamente por não ser mão e não te poder escrever pedidos de socorro e cartas de amor.
Pensei seriamente amputar o meu pé esquerdo, mas não consigo imaginar-me a amar-te apenas com o meu lado direito.
Patrícia Portela,
Se não bigo, não digo, Lisboa, Fenda, 1998

Escritora, dramaturga, encenadora, cenógrafa e atriz, entre outras coisas, cria, segundo Maria João Guardão, «mundos paralelos em forma de livros, jardins, tertúlias, performances e peças radiofónicas». Nasceu em Lisboa em 1974, viveu em Macau, estudou em Utrecht e Helsínquia. Mudou-se para Antuérpia, por ter conhecido o músico belga Christoph De Boeck e continua fascinada pela Bélgica. Publicou vários livros, entre os quais: Operação Cardume Rosa, Se não bigo, não digo, Odília ou a história das musas confusas do cérebro de Patrícia Portela, Escudos Humanos, Banquete ou a Trilogia Flatland e recebeu vários prémios relacionados com o teatro.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Catarina viva, viva Catarina!








A morte de 
Catarina Eufémia,
desenho de 
José Dias Coelho




se não estivesses viva Catarina
não floriam de novo certamente

as papoilas sanguíneas do teu peito

mas viva estás constante no teu posto
e quando gritas às armas
logo enxadas disparam sobre o chão
tanques avançam firmes nas campinas
e lançam-se minúsculas granadas
para explodir em chama verde e fulva
ferindo a multidão com grãos de trigo

se não estivesses viva Catarina
o gigante dormia sobre as presas
e o povo não sabia que o não teme

mas viva estás e mais do que isso alerta
e quando gritas parem
o rubro das bandeiras faz-se negro
e em liliput sentam-se os anões
nas barbas do gigante furibundo
e comungando a raiva e o silêncio
gela o sangue nos braços dos sobreiros

se não estivesses viva Catarina
há muito que teriam estrangulado
as vozes militantes dos poetas

Anthero Monteiro

in Abril Certo na Hora Incerta, Porto, 2010

Este poema foi cantado em 28/03/1981 no IV Festival da Canção Jovem (JCP), 
tendo ganho o prémio da melhor letra, prémio esse que me foi entregue pelo cantor Carlos Mendes.