segunda-feira, 27 de maio de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
peixes peixes e mais peixes
Foto
A.M.
era um
salmão brincalhão
uma truta
muito arguta
uma
sardinha fresquinha
um carapau
muito mau
era um
sável muito afável
era um
robalo de estalo
era um
goraz bom rapaz
e uma
faneca careca
era um
ruibarbo com garbo
uma
pescada aprumada
um
tamboril muito vil
uma tainha
mesquinha
uma
garoupa sem roupa
um ruivaco
bem velhaco
uma cavala
de gala
um
bacalhau bem marau
uma azevia
vadia
uma
corvina traquina
um badejo
benfazejo
um
peixe-porco de borco
à frente
ia um achigã
e iam
todos em cardume
direitinhos
à sertã
que a
minha mãe pôs ao lume
Anthero
Monteiro
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ZOO
quinta-feira, 23 de maio de 2013
vazio
olho o vazio
penso no vazio
engendro mais vazio
e dele me inebrio
abstenho-me de mim
do tempo e do lugar
de tudo o que acontece
e está p’ra acontecer
abro os olhos para trás
para nada mais ver
pra nada mais sentir
dentro ou perto de mim
estou longe muito longe
onde de mim não sei
sou feliz sou feliz
porque já não sou nada
e porque ébrio de nada
a
dor
meço
Anthero Monteiro (inédito)
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Fotografia do Porto
Foto
A. M.
O
Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá responta.
José Luís Peixoto
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá responta.
José Luís Peixoto
Gaveta de Papéis, Quasi Edições.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
ausência
a
noite derrapa
as
estrelas perscrutam o drama
são
pregos aos mil cravados nos olhos
o
vento quebrou como vidro
é
agora um montão de destroços num chão de silêncio
o
silêncio o silêncio coalhando tudo
calando
tudo até os impiedosos cães vizinhos
e os
seus ódios de todas as noites
um
navio de gelo rasga o pano do peito
rompe
no oceano da alma
abraçado
à insónia
bêbeda
e devassa
dói
dói
doidamente
apetece
fugir mas para onde
não
há nenhum lugar de refúgio para quem ama
a não
ser o peito de quem se ama
e é
então que a ausência se torna mais presente
ganha
corpo de monstro e crescem-lhe garras
di-la-ce-ran-tes
sitia-me
sitia-me
obsidia-me
ausência
ausência ausência
ausência
nome
de mulher
desapiedada
e ausente
Anthero Monteiro
quarta-feira, 8 de maio de 2013
poesia ao natural
Foto
A.M.
escoou-se
a manhã
do alto da
eternidade
o sol
riu-se de mim que meço o tempo
fez
murchar as horas
e não
floriu em mim um só poema
entretanto
mal o sol
rompera
desabrolhou
uma corola
no vaso da
varanda
subreptícias
mais outra
e outra
e outra
e muito
antes da primeira meia-hora
já a flor
tinha escrito um poema
inimitável
Anthero Monteiro
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terça-feira, 7 de maio de 2013
notas para um epitáfio (à maneira de Edgar Lee Masters)
Foto
A.M.
nasci decerto do ventre de um incunábulo
ou do ovo de um livro de asas abertas
como qualquer pássaro sedento de horizontes
os meus livros que fariam uma torre de babel
vazando as nuvens acotovelavam-se lá em casa
por um lugar nas estantes empurravam-se
encavalitavam-se uns sobre os outros
das prateleiras por cima da janela que dá para a rua
debruçavam-se as mais volumosas lombadas
sobre o sítio onde lia ou desenhava
os sulcos dos meus versos
sentado nos autocarros nos comboios
nas dunas nos rochedos ou à sombra das tílias
foi sempre um livro a minha irrevogável testemunha
escrevi livros publiquei livros fundei bibliotecas
vivi entre estantes dois terços da existência
li poemas e histórias para centenas e centenas
a vida foi um espesso tomo dedicado
à leitura à poesia à escrita à bibiofilia
naquela noite sentado no lugar dos meus labores
prosseguia eu a leitura do livro negro do padre dinis
e ali pela página duzentos e trinta e cinco
ouvi alguns ligeiros estalidos que se repetiram
era talvez a traça algum bibliófago a tosar
papel tenrinho mas não fiz caso pois essa
é uma entidade tão invisível quanto deus
alguns parágrafos adiante aquela frase do duque
de cliton: “quando o pressentimento da morte
nos fala muitas vezes não devemos desprezá-lo”
mal virei a página um estrondo de derrocada
sobre a mesa de leitura e o seu ocupante
ainda tentei apanhar a vida mas ela escoou-se
de repente como um peixe dos limos
que nos resvala das mãos
Anthero Monteiro
ou do ovo de um livro de asas abertas
como qualquer pássaro sedento de horizontes
os meus livros que fariam uma torre de babel
vazando as nuvens acotovelavam-se lá em casa
por um lugar nas estantes empurravam-se
encavalitavam-se uns sobre os outros
das prateleiras por cima da janela que dá para a rua
debruçavam-se as mais volumosas lombadas
sobre o sítio onde lia ou desenhava
os sulcos dos meus versos
sentado nos autocarros nos comboios
nas dunas nos rochedos ou à sombra das tílias
foi sempre um livro a minha irrevogável testemunha
escrevi livros publiquei livros fundei bibliotecas
vivi entre estantes dois terços da existência
li poemas e histórias para centenas e centenas
a vida foi um espesso tomo dedicado
à leitura à poesia à escrita à bibiofilia
naquela noite sentado no lugar dos meus labores
prosseguia eu a leitura do livro negro do padre dinis
e ali pela página duzentos e trinta e cinco
ouvi alguns ligeiros estalidos que se repetiram
era talvez a traça algum bibliófago a tosar
papel tenrinho mas não fiz caso pois essa
é uma entidade tão invisível quanto deus
alguns parágrafos adiante aquela frase do duque
de cliton: “quando o pressentimento da morte
nos fala muitas vezes não devemos desprezá-lo”
mal virei a página um estrondo de derrocada
sobre a mesa de leitura e o seu ocupante
ainda tentei apanhar a vida mas ela escoou-se
de repente como um peixe dos limos
que nos resvala das mãos
Anthero Monteiro
(inédito)
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