quinta-feira, 25 de julho de 2013
façam o favor de esperar
Foto
Anaas
oh que chatice avariou-se a fechadura
da porta e nenhum de nós pode sair à rua
tenham paciência agora não posso estar com isso
tenho umas linhas para escrever que o pássaro me dita ao ouvido
e enquanto não se espavorece e desarvora
perdeste a chave o porta-moedas o telemóvel
vou ajudar-te mais tarde também eu estou
preocupado com uma palavra que não encontro
em que bolso da memória a terei metido
e tanto preciso dela para concluir um verso
se ao menos houvesse por aí um sinónimo adequado
não me distraiam por favor com coisas de somenos
podem cumprimentar-me amanhã dar-me um beijo
trocar impressões sobre tudo e sobre nada mas agora
quero sentar-me naquela nuvem perto dos deuses
e pedir conivência ao lápis à esferográfica
ao computador para erigir esta escadaria
o meu clube está empatado precisa que estique um pé
em frente à tv para o golo entrar o ministro das finanças
ensandeceu os impostos estão a trepar pelo feijoeiro
que dá para a lua a bolsa está em derrocada o fmi trocou
as letras agora é o fim desta macacada toda paciência
agora estou em transe agora estou em trânsito para a glória
agora esta estranha arquitetura talvez se chame poema
Anthero Monteiro
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quinta-feira, 20 de junho de 2013
o possesso ("diavolo in corpo")
"diavolo in corpo"
(foto A.M.)
certo dia
boca da noite
do fundo
da cozinha
uma
cadeira decidiu dirigir-se no seu vagar
para a
porta que abria para o quintal
à luz
soturna do candeeiro de petróleo
minha mãe
que passava a ferro
só deu
pelo fenómeno quando uma perna
do errante
animal roçou nas suas
gritos de
terror trespassaram a noite
eram
imprecações esconjuros
invocações
de nomes divinos
persignações
bênçãos maldições
uma fiada
estrídula de incoerências
logo
acorri do lado de fora em seu auxílio
tão
espavorido quanto ela alucinada
trazia
porém na mão a ponta do cordel
que
servira de arreata ao quadrúpede ambulante
um fio
tisnado extraído à cana de um foguete
minha mãe
olhou-me e apesar do desvario
logo
entendeu o porquê do insólito
ao ver
aonde se prendia a outra ponta do barbante
sim tinha
diante de si uma vez mais
o causador
de sobressaltos o sobressalto em pessoa
o diabo o
belzebu o mafarrico o tentador
uma legião
completa de demónios
ensaiei
uma explicação uma desculpa um álibi
mas a voz
jorrou muito de dentro
mais
gutural e cavernosa do que nunca
há muito
minha mãe que nada entendia
das
transformações da infância para a adolescência
acreditava
que essa voz me golfava não da garganta
mas das
fauces infernais que me habitavam
o autor
dessa disfonia era o mesmo
que
trepava como um felino às árvores
e se
enroscava nos ramos mais altos
como a
serpente tentadora do éden
era o
mesmo que voava descalço
sem se
magoar nas pedras soltas da aldeia
e ninguém
conseguia acompanhar
era o
mesmo que só não ganhava
a figura
do inimigo que ela via horrorizada
nas
pagelas de santa gemma galgani
porque
apesar da juvenil idade era já capaz
de
transfigurar-se como qualquer diabo experiente
ela sabia
também que os espíritos malignos
dos
possessos são dificilmente expulsos
apenas
pela oração e pelo chamamento
de deus de
cristo da virgem e dos anjos
e uma boa
bateria de açoites
é sempre
eficaz complemento
exigiu-me
por isso fosse buscar o chicote
reservado
para os superiores corretivos
ora o
chicote nome dado lá em casa
a um
látego de tiras de pneu de bicicleta
tinha-o
enterrado julgava eu que o sepultara
para
sempre debaixo da laranjeira
anjos
caídos não merecem piedade
o
azorrague tinha por força que comparecer
e se o
tinha escondido mais uma razão
para
apanhar dobrado
e
lá foi o dócil diabrete
exumá-lo
do fundo do quintal
sob o luar
e sob a laranjeira
para o
entregar pouco depois
para os
devidos efeitos
à
exorcista lá de casa
escrevo
este poema para esconjurar
de vez a
lembrança de cada chicotada
e nunca me
esquecer
do
maternal amor
Anthero Monteiro
quarta-feira, 19 de junho de 2013
benilde
foi benilde
o seu primeiro grande amor
conheceu-a
na festa de agosto
passeou
com ela de mãos dadas o olhar obcecado
pela
luz que irradiava aquele rosto
mais
grácil e doce do que o da santa do andor
fascinava-o
mais do que todas as ruas ornamentadas
de
chão fragrante das hidrângeas pisadas da procissão
seduzia-o
mais que o carrossel e a pista de carros
e refulgia
mais que o templo engastado
de
mil lâmpadas a realçar-lhe os contornos
viera
de longe com os pais andaram juntos
toda
aquela tarde de verão para ele um braseiro
sobretudo
de deslumbramento até que ela se despediu
até
quando com um beijo inocente à hora em que o sol
disse
também adeus àquele dia rememorável
prometeu
que só adormeceria quando a imagem dela
se
desenhasse nos seus olhos íntimos ela
veio
esplendorosa
e sem estorvo revisitá-lo para fechar-lhe
os
outros olhos e inaugurar um sonho
diferente
tentou
manter bem acordados aquele lume e a febre
daquelas noites em que buscava e rebuscava
reencontrá-la
nos labirintos interiores e trazê-la
bem
nítida à tona clara da consciência
ao
fim de uma semana perdia-se nessa babilónia
ela
escapava-se-lhe jogava às escondidas
escorregava
como um peixe que se apanha
recupera
a água e regressa ao esconderijo do lodo
as
horas escorriam dolorosas negavam-lhe
o
ansiado rosto apenas entrevia efémeros retalhos
lampejos
que eram esgares e mais escárnio
que
assentimento mais zombaria que esperança
o
assombro imbricou na tortura depois na resignação
e
enfim o olvido repôs o equilíbrio
inicial
aquele
estúpido bem-estar de quem já nada anseia
tinham
ambos dez anos e ele pediu em casa
que
o deixassem ir estudar para padre
já
tinha aberto assim o inventário penitencial
com
aquela grande e pungente renúncia
Anthero Monteiro
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Senhora da Peneda
Foto in www.skyscrapercity.com
um dia deus cansou-se daquele desafio
ou esgotou-se a verba para pagar ao anjo
que equilibra o penedo
bastou uma brisa
para que ele esmagasse o templo
e as casas humílimas dos crentes
.................................................
ainda nada disto aconteceu
e as imagens de deus continuam
onde os homens as colocaram
e a fraga sobranceira
onde deus a deixou cair
e o anjo obediente no local
para onde o destacou a ordem de serviço
em vez do penedo
uma torrente de lágrimas
desprende-se do altíssimo
é deus
bajulado por tanta fé
a chorar
de comovida gratidão
Anthero Monteiro
Vila Nova de Cerveira, 9 de abril 2001
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terça-feira, 11 de junho de 2013
E depois?
ah quando chegávamos do ateneu
depois de um filme com a máquina
de projeção no meio da sala
tínhamos que contar tudo a minha
mãe
que ficara em casa pois havia
sempre muito
que fazer mesmo aos domingos à
tarde
e depois? e depois? perguntava
ela
e a avó contava-lhe a cena do
terrível leão
que se ia aproximando do público
apavorado
de fauces hiantes um rugido a
atroar
já dentro dos nossos ouvidos
aquele bafo já a envolver-nos
como uma nuvem letal
os dentes já cravados no peito e
a fera
a estraçalhar-nos membro a membro
enquanto ela a avó fechava os
olhos
numa última prece e eu me atirava
para debaixo das cadeiras e me
enovelava
como um bicho de conta
inteiriçado de medo
e depois? e depois? era ainda minha
mãe
a querer saber mais daquela
matiné
e a avó na lentidão de quem
carrega
um bornal de anos sofridos lá
contava
a outra cena aquela do comboio
que ia engolindo a estação e a
paisagem
e a tela e o ateneu e o público e
iria fazer
da linha e do lugar um lago de
sangue
ela fechara de novo os olhos encomendara-se
à virgem e a todos os santos e eu
deixara-me
de novo submergir já incrédulo da salvação
e depois? e depois? voltava a
curiosidade
já tolhida de espanto a inquirir
da pobre velha
sempre vestida de negro e incapaz
de entender
os enigmas da luz e daquela
lâmpada de aladino
que ia operando prodígios sobre
prodígios
até surgir na tela para nosso sossego
a palavra fim
e depois? e depois?
depois fez-se noite e eu já não
vi mais nada
Anthero Monteiro
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quinta-feira, 30 de maio de 2013
o promontório
in diebus illis
o infante
tinha um promontório
que se
erigia emproado e orgulhoso
contra as
vagas e os ventos dominantes
era ali
que se sentava apostado
em dilatar
ainda mais os horizontes
pois sonhava
acordado
e à
revelia do velho do restelo
que a ponta
de sagres
se haveria
de retesar
muito para
além de si própria
e assim
fez o infante que até dobrou o cabo
para o
meter no caminho para a índia
mas agora quem
se senta no promontório
é mesmo o
velho do restelo
incapaz de sonhar acordado
decrépito
e sem tesão
está
apenas sentado e logo adormece
com
pesadelos povoados de adamastores
e o
próprio promontório
é incapaz
de se erigir contra as marés
por isso o
velhote em vez de se sentir a existir
só é capaz
de se sentar a desistir
e nos
intervalos do sono e dos pesadelos
recorda o
fausto do passado
aos
infantes incrédulos
o país das
maravilhas é agora
a terra
das maravalhas e dos maravelhos
e há mesmo
quem proponha
que o
promontório
passe a
chamar-se
busílis
Anthero
Monteiro
quarta-feira, 29 de maio de 2013
poema do homem sentado
Foto
A.M.
conheci um homem que esperava sempre sentado
nunca
se soube o quê no vão de uma porta
ou
no degrau de uma escada
é
possível que fizesse outras coisas mas raramente
conseguia
ser visto de pé
o
que fazia aquele homem sempre alapado
como
um soba para além de dar utilidade ao traseiro
depois
do árduo trabalho de deslocar o ponto de gravidade
para
ir ocupar o assento e de oferecer também
serventia
ao lugar de acolhimento
que
não saberia fazer mais nada de interessante?
que
mais fazia aquele homem para além de me colocar
pontos
de interrogação nos meandros do cérebro?
puxava
de um cigarro e acendê-lo era mais trabalhoso
do
que aos calceteiros pavimentar toda a rua
recostava-se
para trás contra o degrau
imediatamente
superior e arrancava por fim
umas
fumaças de dentro do peito
como
se quisesse provar que todo o seu âmago
era
apenas povoado de neblina
esperava
que o paivante se extinguisse
como
parecia fazer à própria vida
sem
qualquer pressa para apressar ou delongar a morte
sem
a mínima emoção existencial
aparentemente
sem interrogações
sobre
a sua sina de mortal e sem qualquer preocupação
acerca
do que lhe faltava ainda cumprir
antes
da inapelável descida para outro degrau
às
vezes dava-se o fenómeno extraordinário
de
se levantar e atravessar a rua
sem
se apressar sequer com o trânsito
e
ir ocupar o assento da paragem do autocarro
ali
ficava como se estivesse à espera dele
e
dos sucessivos autocarros de cada meia-hora
sem
embarcar em nenhum
punha-se
apenas a vê-los chegar e retomar a marcha
como
se tivesse por destino apenas ficar
enquanto
todos os outros só queriam partir
mas
também ele partiu certamente
pois
há muito vejo o degrau e o assento vazios
não
sei se caiu alguma vez de algum desses poisos
se
foi esmagado a atravessar a rua
ou
atingido por um raio ou um meteorito
penso
que finalmente deve ter tomado
o
único autocarro que lhe servia de destino
que
ele sabia que só passaria uma vez
e
que não podia perder de modo nenhum
Anthero Monteiro
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