sexta-feira, 23 de agosto de 2013

foto





Foto in
asasdosversosereversos.blogspot.pt



sorri
sorri para o menininho
disse a mãe-pássaro ao passarinho
centrando-o bem na janela da polaroid

nunca me ensinaste a sorrir
objetou a minúscula ave abrindo as asitas

não disse isto com estas palavras
mas pipilando algumas sílabas periclitantes
que qualquer mãe bem sabe interpretar

disse-o porém com tal graça
que o coração da mãe se encheu de ternura
perdão
que o coração da mãe se encheu de tremura
no momento em que bicava o disparador

claro que ao sair do ventre da máquina
a foto vinha tremida

mas para quem a olhava mesmo assim
um vulto de anjo estendia as asas sobre o mundo
e um imenso sorriso pairava sobre as coisas

Anthero Monteiro

Porches, 6 de Setembro 2007

terça-feira, 6 de agosto de 2013

outra insónia












Anthero Monteiro
na FNAC






ah noites lutando com polifemos
longas disputas com gnomos
sobre tudo o que nós fomos
e dissemos

ah noites em que me grito
como este mar sem repouso

nada tenho e não me tens
oiço apenas vagaroso
o carro do infinito
em que vinhas
mas não vens

ANTHERO MONTEIRO
in "Desesperânsia", Porto, Corpos Editora, 2.ª ed., 2009

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

a sementeira dos sorrisos















Foto Anaas




agora não vou desistir
só me custaram os primeiros sete minutos
uns estalidos nas comissuras dos lábios
curtidas de anos de severidade
uns arrepanhos e contraturas dolorosas
o abrir forçado de janelas tomadas da poeira
do serrim da traça da babugem das aranhas

reabre-se a janela três vezes refecha-se outras tantas
e o sorriso vai regressando da cerração das angústias
da névoa das tristezas dos miasmas da sonolência
descerra-se o semblante opaco num convite irrecusável
e inaugura-se a certeza de que é egoísmo ser-se
feliz sozinho e que é urgente ir semeando sorrisos
para contagiar outras bocas até às multidões

aí estão resultados encorajantes não é que nosso primeiro
escancarou o sorriso na televisão caramelizou a voz
e veio pedir apenas mais uns sacrificiozinhos aos cidadãos
para lhes assegurar um futuro risonho
talvez só devesse sorrir no futuro
quando estivesse garantido esse paraíso prometido
mas quem duvida de que uma promessa
sorridente é muito mais credível

havia algo porém naquele sorriso que destoava
naquela fronha dava-lhe um ar estúpido
não fosse dar-se o caso de todos os outros ministros
talvez por força daquela sementeira desatarem
também a rir-se e foi aí que eu vi que a pátria
estava salva o desemprego não iria baixar
ele avisou logo mas a vida ia começar a sorrir
o pão não chegará a todas as bocas mas nunca
o pão alimentou os sorrisos sim a pátria estava
salva a pátria estava salva a pátria estava salva
viva portugal (que se fodam os portugueses)

Anthero Monteiro

quarta-feira, 31 de julho de 2013

é urgente a alegria

















estou francamente preocupado
tenho procurado a alegria por toda a parte
e acho que ela se escapuliu como um pássaro

já vasculhei todos os meus bolsos nas  cruzetas
do guarda-fatos à procura de algum resquício
e só encontrei cotão e pó de rennies

dorinha gabriel e ana luzia
prometeram boicotar as minhas obras
se não se apresentarem vestidas de sol e de domingo

rafaela exigiu-me que eu mate a morte
uma vez por todas nunca mais a convide
a entrar na casa do poema

alberto já me chama ultrarromântico
só porque deixei um cipreste meio a soluçar
no último verso de uma estância

por seu lado um arguto jornalista
incluiu o meu nome nas fileiras do neorrealismo
só porque me entristeci com a sorte de um fato-macaco

elisabete ofereceu-me um dicionário
de onde retirou à tesourada dezenas de entradas
sinónimas de desespero  suicídio  amargura ou noite

um conterrâneo afirmou que só comprava os meus livros
por uma questão de bairrismo por eu ser o único poeta
da sua terra entre cinco  mil  habitantes

tenho que ir aos saldos comprar uns litros de alegria
quanto me custarão umas valentes gargalhadas
será que à dúzia são mais baratas

meus deuses como está caro viver feliz com o iva a 23%
e não será que vou perder a alegria logo de seguida
só com pensar que tenho de pedir a fatura

será que consigo criar o sorriso a partir do nada
talvez seja essa a solução vou começar a treinar
o sorriso porque ele é o reflexo da alma

é capaz de ser possível com um reflexo inventar a realidade 
os músculos do sorriso andam demasiado presos
mas tem que ser vou começar hoje mesmo está decidido

Anthero Monteiro 
(inédito)


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Tempestade e bonança














lili serve-me o chá e um sorriso
capaz de aquietar tormentas e tormentos

lá fora transidas contorcem-se as árvores
sob o azorrague do vento

lili passa diáfana pelo meio das mesas
continua a distribuir torradas e mais sorrisos

na moldura da janela a pressa empurra os automóveis
mais veloz ainda é a ventania varrendo as ruas

com o troco lili traz-me outro sorriso
multiplica- se refulgindo nos espelhos

nas nuvens há tambores inaugurando o inverno
cá dentro sorriem promessas de eterna primavera

Anthero Monteiro
Café Lausanne, 26 de Outubro 2011

quinta-feira, 25 de julho de 2013

façam o favor de esperar













Foto
Anaas






oh que chatice avariou-se a fechadura 
da porta e nenhum de nós pode sair à rua 
tenham paciência agora não posso estar com isso
tenho umas linhas para escrever 
que o pássaro me dita ao ouvido
e enquanto não se espavorece e desarvora

perdeste a chave o porta-moedas o telemóvel
vou ajudar-te mais tarde também eu estou
preocupado com uma palavra que não encontro
em que bolso da memória a terei metido
e tanto preciso dela para concluir um verso
se ao menos houvesse por aí um sinónimo adequado

não me distraiam por favor com coisas de somenos
podem cumprimentar-me amanhã dar-me um beijo
trocar impressões sobre tudo e sobre nada mas agora
quero sentar-me naquela nuvem perto dos deuses
e pedir conivência ao lápis à esferográfica
ao computador para erigir esta escadaria

o meu clube está empatado precisa que estique um pé
em frente à tv para o golo entrar o ministro das finanças
ensandeceu os impostos estão a trepar pelo feijoeiro
que dá para a lua a bolsa está em derrocada o fmi trocou
as letras agora é o fim desta macacada toda paciência
agora estou em transe agora estou em trânsito para a glória

agora esta estranha arquitetura talvez se chame poema


Anthero Monteiro

quinta-feira, 20 de junho de 2013

o possesso ("diavolo in corpo")














"diavolo in corpo"

(foto A.M.)




certo dia boca da noite
do fundo da cozinha
uma cadeira decidiu dirigir-se no seu vagar
para a porta que abria para o quintal

à luz soturna do candeeiro de petróleo
minha mãe que passava a ferro
só deu pelo fenómeno quando uma perna
do errante animal roçou nas suas

gritos de terror trespassaram a noite
eram imprecações esconjuros
invocações de nomes divinos
persignações bênçãos maldições
uma fiada estrídula de incoerências

logo acorri do lado de fora em seu auxílio
tão espavorido quanto ela alucinada
trazia porém na mão a ponta do cordel
que servira de arreata ao quadrúpede ambulante
um fio tisnado extraído à cana de um foguete

minha mãe olhou-me e apesar do desvario
logo entendeu o porquê do insólito
ao ver aonde se prendia a outra ponta do barbante
sim tinha diante de si uma vez mais
o causador de sobressaltos o sobressalto em pessoa
o diabo o belzebu o mafarrico o tentador
uma legião completa de demónios

ensaiei uma explicação uma desculpa um álibi
mas a voz jorrou muito de dentro
mais gutural e cavernosa do que nunca
há muito minha mãe que nada entendia
das transformações da infância para a adolescência
acreditava que essa voz me golfava não da garganta
mas das fauces infernais que me habitavam

o autor dessa disfonia era o mesmo
que trepava como um felino às árvores
e se enroscava nos ramos mais altos
como a serpente tentadora do éden

era o mesmo que voava descalço
sem se magoar nas pedras soltas da aldeia
e ninguém conseguia acompanhar

era o mesmo que só não ganhava
a figura do inimigo que ela via horrorizada
nas pagelas de santa gemma galgani
porque apesar da juvenil idade era já capaz
de transfigurar-se como qualquer diabo experiente

ela sabia também que os espíritos malignos
dos possessos são dificilmente expulsos
apenas pela oração e pelo chamamento
de deus de cristo da virgem e dos anjos
e uma boa bateria de açoites
é sempre eficaz complemento

exigiu-me por isso fosse buscar o chicote
reservado para os superiores corretivos
ora o chicote nome dado lá em casa
a um látego de tiras de pneu de bicicleta
tinha-o enterrado julgava eu que o sepultara
para sempre debaixo da laranjeira

anjos caídos não merecem piedade
o azorrague tinha por força que comparecer
e se o tinha escondido mais uma razão
para apanhar dobrado

e lá foi o dócil diabrete
exumá-lo do fundo do quintal
sob o luar e sob a laranjeira
para o entregar pouco depois
para os devidos efeitos
à exorcista lá de casa

escrevo este poema para esconjurar
de vez a lembrança de cada chicotada
e nunca me esquecer

do maternal amor

Anthero Monteiro